Quando se trabalha a língua materna na escola, a oralidade ocupa, tendencialmente, um lugar secundário. O que é pena, pois sabemos que quem domina a oralidade escreve melhor, tem um sentido crítico mais apurado, melhor capacidade de interpretar os outros e de autocorreção.
Um dos exercícios mais enriquecedores desta área é, sem dúvida, a análise pormenorizada dos oradores que cruzam os meios de comunicação social. Sem que nos apercebamos, passamos, muitas vezes subliminarmente, uma mensagem que pode ser lida nas entrelinhas do nosso rosto, dos nossos gestos, da nossa postura corporal. São os elementos externos não-verbais que integram, entre outras, as competências pragmático-discursivas dos falantes.
A arte da oratória consiste, precisamente, em dominar todos estes elementos e aprende-se na escola ou, no caso de muitos políticos, adquire-se ao longo da vida com a experiência e o apoio de especialistas de imagem e da fala.
O debate de ontem ajuda-nos a refletir, precisamente, sobre alguns destes aspetos que podem, inacreditavelmente, contribuir para eleger ou derrotar alguém.
É quase como se perscrutássemos a diferença entre um f
ato Armani ou um Giovanni Galli: se eliminássemos o som dos interlocutores, o que observaríamos? Apenas a forma, ou os elementos não-verbais – de um lado a gesticulação excessiva a partir de determinado momento, o franzir frequente da testa, o olhar cabisbaixo ou focado nos interlocutores locais, o apertar tenso das próprias mãos. Do outro um uso direcionado do olhar (inúmeras vezes focado na câmara e, portanto, no eleitor / espectador), o sorriso quase frequente, o gesticular controlado, o realce de elementos visuais reforçando ideias.
Quando nos centramos no domínio articulatório, porém, de um lado a voz clara e percetível contrastava com uma articulação, ocasionalmente atabalhoada e sem sons totalmente percetíveis, originando até deslizes caricatos como o inesperado neologismo “medidas austoritárias”. Porém, porque é do conteúdo que depende a vida dos portugueses, foi percetível um intercruzamento de discursos, o desrespeito pelo tempo de intervenção e ideias quase fugazes sobre as áreas debatidas – saúde, impostos, segurança social, desemprego, emigração, etc.
Espantosamente, durante estes 90 minutos não houve uma única palavra sobre a EDUCAÇÃO. Nada. Absolutamente nada. O que só revela que certos fatos não conseguem servir bem a todos.
É muito frequente comprar-se o livro apenas pela capa, ou optar pelo fato mais caro por uma questão de confiança, ou pelo mais económico por mera simpatia e conforto.
Mais do que nunca é essencial que ensinemos os nossos alunos de português a serem cautelosos com a utilização da competência oral e com a observação dos domínios que ela extravasa. Lastimosamente, aquilo que ela omite pode ser, sem dúvida, bem mais preocupante do que tudo aquilo que revela.




2 comentários
Os três canais estão de parabéns pela seleção das perguntas que levaram ao debate. Foi uma vergonha, uma piorreia de clichés e mais do mesmo que esses senhores jornalistas e as suas redações nos proporcionaram. Uma verdadeira catarse. É verdade Diana, nem um cheirinho a Educação. Lamentável e um mau prenúncio.
Boa tarde. Concordo inteiramente com a sua defesa da oralidade da lingua portuguesa. É muito importante conservarmos o nosso património cultural, e isso passa obrigatoriamente pela nossa expressão oral. Contudo, tenho que lhe dizer que defender a oralidade da lingua portuguesa, recorrendo à expressão escrita segundo as regras do acordo ortográfico (AO) de 1990, é algo incoerente. O AO é talvez o maior atentado à lingua portuguesa que já se fez nos últimos anos. Não me levem a mal o comentário, que se pretende construtivo, mas reflictam por favor neste aspecto. Está na hora de obrigar a que o AO seja referendado, e que caiba aos portugueses a livre escolha do rumo da sua língua. Sábado dia 12 de Setembro de 2015, no Largo Camões em Lisboa, ocorrerá uma recolha de assinaturas, seguida de manifestação, para levar este assunto a ser discutido na Assembleia da República e ser posteriormente referendado.