OPINIÃO: Os professores do 1º Ciclo – Sandrina Coelho

 

Opinião de Sandrina Coelho

Às transformações políticas, sociais e económicas com que o nosso país tem sido confrontado nos últimos anos e que se refletem no sistema educativo, alia-se a falta de condições de trabalho, a acumulação de funções, a degradação dos vencimentos e a perda de estatuto socioprofissional, na profissão docente. A ação educativa é relegada para segundo plano, pois os professores têm assistido a uma multiplicidade das suas tarefas.

Atualmente, o trabalho docente do professor do 1.º ciclo engloba:

– 25 horas letivas semanais, 5 horas letivas diárias, 8 disciplinas;

– 2 horas de componente não letiva: trabalho colaborativo, atendimento aos encarregados de educação, vigilância dos recreios, vigilância do refeitório, articulação com os professores da Educação Especial, do Apoio Educativo e técnicos diversos;

– preparação de atividades de enriquecimento curricular (AEC), com 26 alunos de várias turmas (alguns professores lecionam estas atividades);

– contagem diária do leite, pão e bolachas consumidos pelos alunos;

– contagem diária dos alunos que almoçam na escola;

– dois dias por semana veem o seu horário alargado em uma hora, devido à aula de Inglês;

– reuniões semanais após as 17 horas (é necessário aguardar pelo docente que viu o seu horário alargado);

– transmissão de informações sobre a disciplina de Inglês aos encarregados de educação que procuram esclarecer as suas dúvidas junto dos professores do 1.º ciclo. Estes têm de contactar o docente de Inglês para se inteirarem da situação e, novamente, contactar o encarregado de educação. É um vai vem de informações, esclarecimentos, dúvidas…

Fora do horário letivo é necessário preparar aulas: Matemática, Português, Estudo do Meio, Expressão Plástica, Expressão Dramática, Expressão Físico-Motora, Expressão Musical e Oferta Complementar. Aulas transversais a todas as disciplinas, com recurso às TIC (sempre que possível), motivadoras, dinâmicas, eficazes e conducentes ao sucesso educativo.

Estes docentes possuem uma cultura de escola tão enraizada que, muitas vezes, não usufruem dos seus direitos. Se as reuniões sindicais ultrapassarem o tempo estipulado para o intervalo, os docentes sentem que devem retomar as suas aulas, quando a escola pode e deve providenciar soluções para os discentes.

Evitam faltar, mesmo quando estão doentes, pois os seus alunos terão de ser distribuídos por outras salas. Receber 4 ou 5 alunos de outra turma, torna-se incomportável, quer a nível físico, quer a nível pedagógico. O sentido de responsabilidade impele-os a reunir as suas forças e ir dar aulas, pois no dia seguinte já estarão melhores e, assim, não sobrecarregam os outros professores.

Sandrina Coelho

In Jornal do Algarve

 

 

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11 comentários

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    • Bazofias on 30 de Maio de 2016 at 11:49
    • Responder

    Ao comentar esta situação com uma colega do 1º ciclo que é dirigente sindical do SPRC e que é professora do 1º ciclo diz que nós é que somos culpados. A minha resposta foi acabou fim de linha nem mais um tostão para alimentar os politiqueiros. Vamos todos entregar uma carta no executivo do nosso agrupamento para que não façam mais descontos sindicais

    • Nanda on 30 de Maio de 2016 at 13:22
    • Responder

    Com situação dos professores do 1º ciclo ninguém se preocupa, agora é só os colégios privados!
    Quando existem questões laborais muito mais gritantes para resolver, por parte de quem diariamente trabalha no ensino, mas isso não interessa aos sindicatos, aliás o 1º ciclo está na situação que está com o aval e o apoio de todos os sindicatos, em troca de quê…não sei! mas que não movem uma palhinha para nos ajudar, isso não movem! Ou então fazem de conta que movem para irem calando o pessoal.

    • AOliveira on 30 de Maio de 2016 at 19:48
    • Responder

    Pois acho que a culpa é mesmo dos professores do 1º ciclo (e contra mim falo!)! Estou farta de, ao longo de vários anos, assistir à revolta das colegas sobre a situação mas só reclamam nas “costas” dos órgãos de direção. Quando chegam às reuniões onde poderiam manifestar o seu desagrado calam-se bem caladinhas fazendo de conta que está tudo bem! Durante anos por onde fui passando era conhecida como a “refilona” de serviço…

    1. Não deve falar contra si! Na net começamos poucos, mas cada vez somos mais. Um dia vamos dar volta a isto!

  1. Sobre o DOAL
    Quem se preocupa com os Professores do 1.º Ciclo? diz: «É uma remoção inconsequente porque tudo se manterá como está. A menção foi removida somente para tentar que não se fale da questão de fundo: a desigual carga letiva, em troca do mesmo salário e com o mesmo regime de aposentação. Uma habilidade a lembrar o pior da tradição portuguesa…»
    As direções têm poder, os sindicatos têm poder e quem está na base responsável por um número superior de alunos por professor é espremido até aos 66 anos sem dó nem piedade… até quando?

  2. Uma dirigente Sindical, no Jornal do Algarve, sobre os professores do 1º ciclo

    «Estes docentes possuem uma cultura de escola tão enraizada que, muitas vezes, não usufruem dos seus direitos. Se as reuniões sindicais ultrapassarem o tempo estipulado para o intervalo, os docentes sentem que devem retomar as suas aulas, quando a escola pode e deve providenciar soluções para os discentes.

    Evitam faltar, mesmo quando estão doentes, pois os seus alunos terão de ser distribuídos por outras salas. Receber 4 ou 5 alunos de outra turma, torna-se incomportável, quer a nível físico, quer a nível pedagógico. O sentido de responsabilidade impele-os a reunir as suas forças e ir dar aulas, pois no dia seguinte já estarão melhores e, assim, não sobrecarregam os outros professores.»

    Este discurso parece a descrição de uma tribo indígena descoberta pela elite sindical, cujo líder, talvez já nem se lembre era parte dela. Até há pouco tempo saíram aposentados, com idade inferior a 60 anos, alguns com meia dúzia de anos e menos de monodocência. Agora ninguém sai independentemente de ter sido sempre professor do 1º ciclo, com turma. Senhores sindicalistas, poucos conseguirão chegar aos 66 anos a trabalhar no duro com alunos. A corrida aos cargos com dispensa parcial da componente letiva vai ser dura, a luta por uma turma melhor vai ser renhida. Os docente do 1º ciclo devem unir-se, reinventando uma forma estar diferente da que está no texto, na qual não me revejo.

    • Nanda on 31 de Maio de 2016 at 13:01
    • Responder

    Em anexo o link de uma Petição relativa ao 1.º Ciclo, procurando melhorar as condições de trabalho e a “Aplicação do princípio da igualdade aos docentes do 1.º Ciclo” colegas temos de agir, assinem e divulguem…
    http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT81209

    • duarte on 31 de Maio de 2016 at 13:13
    • Responder

    Tenho tanta pena dos professores do primeiro ciclo!!! Agora entendo por que razão eles não sabem escrever, nem ler… os professores andam ocupadíssimos!!

      • Calimero on 1 de Junho de 2016 at 0:48
      • Responder

      Pois é… você deve ter entrado diretamente para a Universidade, pois esquece-se que foi com esses professores que aprendeu a ler e a escrever. Pelos vistos, falta-lhe aquela parte da educação que não se adquire na escola…

        • Duarte on 1 de Junho de 2016 at 14:30
        • Responder

        Porquê? Por dizer o que penso, falta-me “a educação”…! Claro que não devemos generalizar, mas já não posso com as queixas da classe docente… se estão cansados, mudem de vida. Sim, é mesmo assim.. há tanta gente a querer trabalhar! Sabe o que é conhecer 3 escolas num ano letivo, ou trabalhar em duas ao mesmo tempo, com horários que nem merecem comentários … Enfim, vou ficar por aqui… E já agora faça um inquérito a todos, sublinho a todos, os docentes do primeiro ciclo para saber quanto dias efetivamente trabalham em julho! E depois diga-me quantos dias de férias têm. Eu conheço alguns que no dia 1 de julho dizem já estar de férias, no Algarve…
        Não, não fui diretamente para a Universidade, mas também não considero que a minha professora primária era “o mestre”… O curso e o mestrado antes de Bolonha foi feito em grandes Universidades Públicas, com muita exigência… mas não vamos falar de formação de professores, que isso dava uma tese de doutoramento. Para mim, o primeiro ciclo é o ciclo fundamental da aprendizagem, um alicerce mal feito pode deitar a casa abaixo. E não percebo como formações em Educação Física e outras podem construir bases sólidas do Português e Matemática. …

          • Calimero on 2 de Junho de 2016 at 21:43

          Muitas vezes o problema não está no que se diz, mas como se diz. No caso do seu primeiro comentário, estava nas duas coisas e, se já não pode com as queixas da classe docente, eu e muitos outros docentes do 1.º ciclo já não podemos com certos comentários que nos são dirigidos. Há uma tendência para nos considerar como professores de 2.ª e para menosprezar as nossas funções e raramente há uma reação da nossa parte à forma como somos desconsiderados. Mas, da minha parte, não deixarei passar em claro situações desta natureza. Quanto ao resto, nomeadamente em relação à desigualdade de tratamento nas condições de trabalho, deixo para outra ocasião, já que este não é o momento nem o espaço para tal.

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