Recomeço

Um frenesim eufórico percorre os corredores. Há uma turbulência juvenil quase contagiante, ampliada por corridas enérgicas, risos nervosos, mochilas repletas de sonhos e angústias.

Do outro lado, na sala de professores, o panorama não é assim tão diferente. Somos todos adultos, porém, dentro de cada um de nós um rebuliço de emoções preenche-nos as veias e aflora-nos o rosto. Temos, num canto da sala, os colegas acabados de chegar, meio perdidos nas regras da casa, os rostos ansiosos antecipando o toque. No outro estão os experientes, falando alto, gargalhando, cumprimentando companheiros de caminho.

Neste edifício, porém, subsistem portas fechadas e, portanto, persiste um silêncio incomodativo. Há uma porta, em particular, que me interroga tremendamente.

Helping Hands isolated on white

Na escola do ano passado, apesar de todas as tormentas, contámos com o apoio imprescindível de uma psicóloga. Os casos apareciam no conselho de turma e a diretora de turma apressava-se a pedir ajuda “no primeiro andar”. Mas ao gabinete iam também ter alunos tresmalhados, perdidos, esticando o pescoço por detrás da porta, timidamente. E a psicóloga puxava-os lá para dentro e ajudava-os a encontrar um caminho. Ajudava-nos a nós, professores, a reformular as nossas práticas para que fosse mais fácil delinear a harmonia, ajudava pais que tinham subido as escadas de cabeça perdida, a regressarem com a respiração afinada e o coração pacificado. E ajudou-me a mim quando, de peito enegrecido, me senti no limite das minhas forças.

Talvez cada gesto seu correspondesse apenas a um minúsculo gesto nessa grande engrenagem que é a escola. Para mim assemelhava-se a um pequeno milagre revelado, quando observado mais de perto. E que fazia verdadeiramente a diferença para cada um de nós.

Soube hoje que essa mesma psicóloga percorre, como eu outrora fiz, centenas de entrevistas até ser, finalmente, escolhida por uma escola. Semanas e semanas a deambular sem destino.

Aqui onde estou agora, como em tantas outras escolas, subsistem portas fechadas que demorarão muito tempo a ser reabertas. E que nos fazem uma falta incomensurável, sobretudo, quando ligam a escola à comunidade que a rodeia –  serviços de saúde, apoios sociais, etc.

Mais uma vez, perde-se tempo com concursozitos tolos, centenas de critérios delineados à medida de alguns, ignorando que o primeiro dia de escola devia sê-lo, de facto, para todos os que nela intervêm – alunos, professores, assistentes operacionais, técnicos, especialistas. Todos os que, trabalhando em conjunto, a fazem, realmente, florescer.

Observando esta porta cerrada, questiono-me – para quando podemos almejar, de facto, uma escola una, tranquila no seu começo, completa no seu fim?

 

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