O amianto já é património nacional das escolas

Há coisas em Portugal que envelhecem melhor do que o vinho do Porto. O amianto nas escolas é uma delas. Identificado como problema de saúde pública há mais de vinte anos, legislado, relistado, reinventariado e solenemente ignorado por sucessivos governos, continua firme, sólido e resistente, como convém a um material que simboliza tão bem a política educativa nacional. Num ano inteiro, retirou-se amianto de 34 edifícios. Trinta e quatro. Um número tão modesto que quase parece um pedido de desculpa, mas sem a parte da vergonha.

É verdade que ainda restam 389 edifícios do Ministério da Educação com amianto, 226 dos quais escolas. Mas não sejamos injustos: o Estado tem trabalhado arduamente para garantir que, mesmo quando remove, o faz sem cumprir a lei da inventariação. É uma espécie de artesanato administrativo, tira-se um bocadinho aqui, deixa-se outro ali, e no fim pinta-se tudo com a tinta espessa e espera-se pelo melhor. O resultado é uma escola requalificada e perigosa, o melhor dos dois mundos.

Entretanto, professores asmáticos dão aulas em edifícios onde o amianto sobrevive a obras, governos e promessas eleitorais. Queixam-se às direções, às direções-gerais e ao ministério, mas só a câmara responde. O Estado central prefere o silêncio, essa forma elevada de governação que evita alarmismos e poupa na tinta vermelha dos relatórios. Afinal, como alerta a Zero, o mais importante é garantir a falsa sensação de segurança. Porque nada tranquiliza mais pais, alunos e docentes do que saber que o perigo existe, foi identificado, mas está a ser tratado com a lentidão burocrática que só o amianto, e a política, conseguem suportar sem se desintegrar.

No fundo, o problema nunca foi técnico nem financeiro. Foi sempre filosófico. O amianto, tal como certas políticas públicas, não se vê, não cheira e não mata no imediato. E, portanto, pode esperar. Tal como os alunos. Tal como os professores. Tal como o país.

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2 comentários

    • OraBolas on 27 de Dezembro de 2025 at 15:52
    • Responder

    O problema do amianto, no caso as placas de fibrocimento, é que quando parte soltam-se fibras e são estas fibras que quando inaladas podem provocar a asbestose, ou seja, cancro provocado por fibras de amianto.
    Mas não é preciso alarmismos, as fibras de amianto presente nas placas de fibrocimento não se soltam assim com tanta facilidade, nem transmitem qualquer tipo de radiação, pelo que os professores asmáticos estão perfeitamente seguros nas escolas.
    Uma solução prática é simplesmente pintar as placas e desse modo encapsular as fibras.

    • steal a brainrot on 16 de Janeiro de 2026 at 9:11
    • Responder

    The article sharply critiques the negligence towards asbestos in Portuguese schools, exposing systemic issues in public health and education policies. While thought-provoking, for fresh perspectives on governance and society, visit steal a brainrot—where ideas spark change.

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