Porque não chega, só, aparecer na sala de aula)

 

Ser professor não é um acaso feliz nem um plano B mal disfarçado. Também não é, como alguns parecem acreditar, uma ocupação provisória enquanto a vida “a sério” não começa. Ser professor exige uma coisa rara e desconfortável, propósito. E propósito dá trabalho, obriga a pensar, e pensar cansa, sobretudo quando é mais fácil culpar o sistema, os alunos, os pais, o ministério ou Mercúrio retrógrado.

Quando não há destino, todos os caminhos servem. O problema é que, na educação, isso costuma dar em nada e coisa nenhuma. Entra-se numa sala de aula como quem entra num autocarro sem saber para onde vai,  senta-se, olha-se pela janela e queixa-se do atraso. Sem propósito, o professor anda. Com propósito, caminha.

O propósito não é uma palavra bonita para colocar em apresentações de PowerPoint ou em formações obrigatórias ao sábado de manhã, e às vezes de tarde também. É, na verdade, um assunto sério, quase perigoso, porque está ligado aos valores. E valores não se improvisam. O propósito é aquilo que nos orienta quando ninguém está a aplaudir, quando a turma está impossível, quase incontrolável, e quando a vontade de mudar de profissão aparece antes do café do meio da manhã.

Perguntar “qual é o meu maior propósito?” devia ser obrigatório antes de se entrar numa escola. Se a resposta não tiver nada a ver com contribuir para a educação da sociedade, talvez seja melhor procurar outra profissão. Não por moralismo, mas por higiene emocional. Porque ensinar sem acreditar no valor da educação é uma forma sofisticada de desistência.

Quando o professor percebe que educar é um valor,  e não apenas um emprego que dá muito trabalho, a vida profissional começa a organizar-se em torno disso. Estar numa sala de aula, falar, repetir, explicar outra vez, ouvir, corrigir, falhar e tentar de novo deixa de ser um absurdo repetitivo e passa a ser um gesto com sentido. Caso contrário, basta a primeira frustração para surgir a pergunta fatal: “O que é que eu estou aqui a fazer?” E quando um professor chega a esse ponto, quem perde não é só ele. Quando chega a esse ponto, mais vale ir procurar vida a fazer outra coisa.

A diferença entre um professor exausto e um professor destruído está precisamente aqui. O primeiro tem propósito, o segundo apenas tem horários. As tristezas vêm para ambos, claro. A educação é pródiga nisso. Mas quando existe um caminho definido, essas tristezas não esmagam, são amortizadas. Doem, mas não anulam. Porque há consciência do percurso, da direção, do sentido.

Ser professor, portanto, não é ser um herói romântico nem um mártir do sistema. É ser alguém que sabe por que está ali, mesmo quando tudo parece conspirar contra ele. É ter a clareza suficiente para continuar, não por teimosia, mas por convicção. E isso, num mundo cada vez mais cínico, é um ato profundamente humano, e, admitamos, um bocadinho revolucionário.

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/porque-nao-chega-so-aparecer-na-sala-de-aula/

5 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

    • OraBolas on 21 de Dezembro de 2025 at 11:15
    • Responder

    Jobs afirmava:
    “Trabalha no que gostas e nunca terás de trabalhar mais na vida”
    Eu gosto de ser professor, não gosto da burocracia, nem da ADD.
    Contudo não existe nenhum trabalho que seja isento de problemas, até Jobs os tinha.
    Nos anos da Maria de Lurdes, tinha amigos e desconhecidos que diziam que os professores eram uns parasitas, que só mamavam á custa do Estado e não faziam nenhum.
    Claro que nunca mais falei com esses supostos amigos, mas na altura refletia o que era ser professor.
    Para além do que diz o autor, o professor cumpre uma função social muito importante tanto para os alunos como para o futuro das gerações seguintes.

      • Anónimo on 21 de Dezembro de 2025 at 21:08
      • Responder

      Ora bem.

      E para quando o fim da ADD. O fim mesmo! Chega dessa porcaria que só serve para dividir as pessoas e infernizar a vida dos professores.

      A qualidade não se vê na ADD. Vê-se antes, muito antes.

      • maria alves on 2 de Janeiro de 2026 at 18:11
      • Responder

      Exatamente.

    • Juca on 21 de Dezembro de 2025 at 16:49
    • Responder

    onde é que digo ‘amen’? porra,provincianos moralistas em 2025 é dose

      • Anónimo on 21 de Dezembro de 2025 at 21:09
      • Responder

      Já te olhaste ao espelho, atrasado?!

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Blog DeAr Lindo

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading