“Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina”, concluiu a OCDE há uma década e repetiu-o este ano em que a idade da reforma volta a aumentar

 

Por Paulo Prudêncio

“Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina”, concluiu a OCDE há uma década e repetiu-o este ano em que a idade da reforma volta a aumentar

“A indisciplina reina nas salas de aula e coloca Portugal no primeiro lugar do tempo perdido para começar uma aula. Os seus professores são, na Europa, os mais desgastados e os que mais preenchem burocracia inútil. São vítimas de uma organização de trabalho que os adoece, mas são os melhores a adaptar as aulas às necessidades dos alunos.” Estas conclusões têm cerca de uma década.

Ora, a mesma OCDE conclui em 2025 (“reportado por 62,1% dos professores, sendo muito mais alto, 73,6%, entre quem tem 5 ou menos anos de experiência”): “barulho e interrupções: Portugal é dos países onde os professores mais se queixam da indisciplina. A sua maior fonte de stress é o trabalho administrativo. Em nenhum país a taxa é tão alta.”

E o que mais impressiona nestes 10 anos de intervalo, é o silêncio do MECI e o desprezo do mundo político. Quando muito, a direita, que inclui a extremada, finge que acompanha os protestos dos professores quando a esquerda governa e vice-versa. Logo que se passa para governo ou para suporte parlamentar, assume-se a condição de amnésico. Além disso, um manto de mutismo caracteriza as campanhas eleitorais.

Aliás, ser professor tornou-se, há muito, uma gestão do desgaste, da mágoa, da revolta contida e da possibilidade da baixa médica. Acima de tudo, uma sociedade adoeceu quando mais de metade dos professores relata “agressões físicas ou verbais por parte dos alunos”. Apesar de, e como já escrevi, ser injusto generalizar até pela dificuldade dos estudos empíricos: “cada aluno não é um potencial agressor, nem cada professor um provável agredido.”

E o pior é o vigente cruzar de braços. Mas há soluções e sumarie-se duas ou três.

Mude-se radicalmente (e este radical é no mais sensato registo) o trágico, e populista, “estatuto” que fez do encarregado de educação um “cliente que tem sempre razão” na escola, com a habitual alegação indisciplinadora que os miúdos, as crianças-rei, percebem desde cedo: – Se a professora não se portou bem, diz que eu vou à escola.

Este clima é uma das consequências da burocracia, da autocracia desastrosa nos mega-agrupamentos, da avaliação dos professores e do que converteu em “castigo” as horas de redução por idade e tempo de serviço dos seus horários – é até degradante quando a “pena” cai nas mãos de pequenos tiranetes.

Na verdade, recorde-se que a maioria dos professores viu a idade da reforma passar dos 52 (pré-escolar e primeiro ciclo) ou 57 anos de idade (restantes ciclos), para os recentes 66 anos e 11 meses. E como nunca se criaram equipas educativas para leccionar o primeiro ciclo – o professor da turma finge que lecciona todo o currículo e não tem redução de horário com a idade -, infernizou-se os horários dos restantes ciclos – nivelando por baixo e estimulando a divisão da classe – com inutilidades destinadas aos excessos e aos dogmas na avaliação dos alunos, na interdisciplinaridade e nas articulações horizontal e vertical. Como tudo isto se tornou monstruoso sem sistemas de informação modernos e com avaliações externas inspiradas em meados do século XX, a redução transformou-se num “castigo” e num dos principais contributos para o desgaste que dificulta a liderança em ambientes de indisciplina e para a “fuga” ao exercício.

E, claro: se temos anos a fio de ciberbullying e dos algoritmos do ódio (as crianças crescem, desinformam-se e indisciplinam-se num país deslaçado, agressivo e violento), também temos uma maioria política desinteressada em limitar o acesso a redes sociais com o argumento surreal da censura às crianças e jovens. Aliás, veja-se a indiferença da sociedade com a crescente doença silenciosa dos quadros de mérito académico ou de valor até em crianças do primeiro ciclo e pré-adolescentes (no desporto, já se fazem Campeonatos do Mundo para miúdos de 10 a 12 anos de idade). Para além da tensão relacional entre os miúdos após as primeiras publicações e da violação dos direitos fundamentais, a OMS já inclui o bournout precoce na prevenção da saúde pública (e, no mínimo, reflicta-se com Roy Baumeister ou Michael Sandel). E apesar desta pandemia ainda se sustentar na ditadura portuguesa, a obra fundamental “Nenhuma medalha vale a saúde de uma criança”, de Jacques Personne, descreve a tragédia na União Soviética e na RDA. Os quadros e medalhas, equiparados à exploração do trabalho infantil, destinavam-se à arrepiante promoção de dirigentes, médicos, treinadores, professores e políticos, e, tantas vezes, à “sobrevivência” dos progenitores (e também ao ego).

De facto, e em síntese, a prevalecente imaturidade pedagógica, que estimula a indisciplina nas salas de aula, espelha-se em gritantes irresponsabilidades da seguinte família: publicitar informação crítica, e detalhada, sobre as formas de ciberbullying no mesmo espaço escolar onde se divulga quadros de mérito.

Nota: por falar em silêncio e mutismo, registe-se o apagão mediático quase generalizado da seguinte notícia do Público de 24 de Novembro de 2025: “Tolentino de Mendonça partilha Prémio Eduardo Lourenço com a “classe dos professores em crise”. O cardeal e poeta falou da “precariedade nas condições de trabalho”, da “complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos” e de “uma espécie de solidão social” que afectam tantos professores. Diz-se hoje que são uma classe em crise e que perdeu o prestígio social que lhe estava associada. São preocupantes, em muitas partes do mundo, os indicadores do desgaste, desmotivação e burnout entre os professores.(…)”Numa época de acelerada transformação, como a que vivemos, onde se inauguram tantas possibilidades, mas também tantas incógnitas, como o impacto da inteligência artificial, a omnipresença da tecnologia, a crescente incerteza e vulnerabilidade entre os jovens, precisamos de potenciar o papel dos professores como indispensáveis mediadores culturais e humanos.(…)O professor “não é uma profissão do passado, é uma missão indispensável ao futuro”, porque é necessária a existência de “mestres e educadores, não só para encontrar respostas, mas para formular perguntas”.”

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2025/12/portugal-e-dos-paises-onde-os-professores-mais-se-queixam-da-indisciplina-concluiu-a-ocde-ha-uma-decada-e-repetiu-o-este-ano-em-que-a-idade-da-reforma-volta-a-aumentar/

8 comentários

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    • Mic on 2 de Dezembro de 2025 at 10:19
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    Nem mais…é esta a triste realidade de uma profissão e, ainda, de uma sociedade em declínio.

    • Luluzinha! on 2 de Dezembro de 2025 at 12:59
    • Responder

    É pena que esta síntese objetiva e realista não chegue às mãos das entidades tutelares!

    • Pedro Rodrigues on 2 de Dezembro de 2025 at 13:55
    • Responder

    Sempre discordei dos quadros de mérito. Não vejo a escola (nem a vida em geral) como uma competição. Acho que cada pessoa deve ter o seu lugarno mundo sem necessidade de pisar os outros. Sou de direita; não uma caricatura de um direitista feita por esquerdistas. Sobre o cerne deste artigo, espanta-me que as pessoas que apoiam as ideologias socioconstrutivistas ISCTE- Paulo Freire, etc., se mostrem chocadas com os respectivos resultados práticos. Há décadas que nas formações nos injuectam como A Pedagogia do Oprimido, que nos dizem que se os alunos nos desrespeitam e agridem, a culpa é nossa, por não os sabermos motivar. E etc., etc., etc..

      • Paulo on 3 de Dezembro de 2025 at 17:55
      • Responder

      Um quadro de mérito não implica, necessariamente, competição. É, sobretudo, um incentivo para aqueles que procuram trabalhar e melhorar num universo que puxa todos cada vez mais ara baixo.

    • Razoável on 2 de Dezembro de 2025 at 14:45
    • Responder

    Texto com algumas contradições…nivelar por baixo, de facto há quem perfira alinhat tudo por igual sem olhar ao mérito individual. Os quadros de honra importam na medida que é um espelho para destacar e reconhercer o esforço de quem realmente trabalha e tem bom comportamento. Quem é apologista de eliminar os quadros de honra com argumentos que estes não porporcionam uma escola inclusiva (pasme-se nem conseguem perceber que a inclusão não impede de destacar individualmente os alunos que conseguem níveis alto para o bem deste país..e futura sociedade, é preciso reconher as capacidades e perder ess coisa chamada de inveja por uns conseguirem e outros não ), ora , se assim é, e por coerência de discurso, deviam tb defender abolição das notas. Se agora se queixam da indisciplina então depois fica incontrolável.

      • gomes on 2 de Dezembro de 2025 at 20:35
      • Responder

      Por vezes é absurdo alunos com mau comportamento nos quadros de honra, talvez seja esse o ponto na obsessão com as avaliações. Ninguém disse para eliminar notas.

    • Paulo on 3 de Dezembro de 2025 at 17:53
    • Responder

    Enquanto houver pais desresponsabilizados, e gente nas Direcções das escolas / DTs a passarem a mão no pêlo a pré-delinquentes que agridem colegas e/ou auxiliares de educação e/ou professores, a situação não vai melhorar. No ano passado, estive em reuniões one passaram uns quantos, “no superior interesse da criança” (hahaha), mas sem que se tivesse em conta o superior interesse das outras crianças, prejudicadas pela presença deles. Um desses pré-deliquentes tinha ferido uma professora num olho, ao atirar-lhe com uma borracha.

    • Teresa Florentino on 3 de Dezembro de 2025 at 20:30
    • Responder

    O texto é excelente e vem sublinhar uma realidade que muitos preferem ignorar: a idade de reforma dos professores tem de ser revista urgentemente. Não faz sentido empurrar a carreira docente para os 66 anos e 11 meses já em 2026, quando se trata de uma profissão altamente exigente do ponto de vista físico, emocional e cognitivo. A Educação exige discernimento, presença, atenção permanente, empatia e capacidade de resposta imediata — características que não podem ser sacrificadas por calendários legislativos desajustados da realidade concreta das escolas.
    A isto somam-se camadas e camadas de burocracia: papéis duplicados, avaliações redundantes, relatórios pedidos várias vezes em plataformas que não comunicam entre si, pareceres que ninguém lê, aplicações descoordenadas, exigências administrativas que consomem o tempo que devia ser dedicado aos alunos. Juntam-se ainda as más condições de trabalho, a indisciplina crescente, a falta de técnicos auxiliares e de equipas multidisciplinares que poderiam prevenir ou atenuar situações difíceis. Tudo isto já foi dito, redito e documentado em inúmeros espaços informativos, relatórios oficiais e testemunhos profissionais — mas continua sem resposta. Estamos presos a uma estrutura velha, lenta, desinteressada e incapaz de se reformar, enquanto se permite a agentes externos, como encarregados de educação, numa espécie de “democracia paralela” desvalorizar em muitos casos, o papel das escolas e dos docentes.
    E afinal, que país é este que não honra quem trabalha todos os dias para formar cidadãos? Um país que deveria verdadeiramente respeitar os seus professores, proteger a sua saúde, valorizar a sua carreira, garantir condições dignas de exercício profissional, e perceber que educar não é um ato administrativo, mas um compromisso civilizacional. Um país que se quer moderno, justo e próspero tem de colocar a Educação — e quem a concretiza — no centro das suas prioridades, em vez de a tratar como um problema a gerir ou um custo a minimizar.

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