A falsa quietude de um comprimido…

 

Em Junho de 2020 foi amplamente divulgado, por praticamente toda a Comunicação Social, que Portugal era o quinto país da OCDE que mais medicamentos ansiolíticos e antidepressivos consumia…

 Segundo os dados apresentados nessa altura, bem ilustrativos desse consumo, de Janeiro a Março de 2020 ter-se-iam vendido mais de cinco milhões de embalagens de fármacos das categorias ansiolíticos, hipnóticos, sedativos e antidepressivos (dados do INFARMED, citados na Comunicação Social)…

 Ainda que, frequentemente, se assista à patologização, por vezes excessiva e abusiva, de determinadas reacções e comportamentos, nem sempre elegíveis como manifestações de efectivos transtornos depressivos, de ansiedade ou do humor, também não será prudente ignorar ou escamotear o número astronómico daqueles psicofármacos adquiridos pelos portugueses, num tão curto espaço de tempo…

 E se, por um lado, parece existir uma certa banalização e vulgarização do consumo de alguns psicofármacos no nosso país, por outro, também parece plausível que a pandemia não possa explicar tudo, nem servir como principal justificação para esse tipo de dependência…

 Partindo dos dados anteriores, talvez se possam tecer algumas considerações e fazer algumas inferências sobre a Classe Docente e o consumo dos referidos medicamentos:

 Apesar de não estarem disponíveis estudos de âmbito nacional sobre a caracterização do consumo de antidepressivos e de ansiolíticos por parte da Classe Docente, parece aceitável considerar que um número significativo de profissionais de Educação, em particular os professores, possa ser consumidor habitual e regular dessas categorias de psicotrópicos…

 A principal justificação para a existência dessa expectativa assenta naturalmente no Burnout Docente, sobejamente analisado, reconhecido em inúmeros estudos e conhecido de todos…

A esse propósito, refiro apenas esta conclusão de um estudo realizado a nível europeu, citado pelo Jornal Expresso, em 24 de Março de 2021: “Professores em Portugal são os que revelam maior stress na Europa”…

 Por outras palavras, parece provável que o esgotamento físico, mental e emocional que afecta parte considerável da Classe Docente possa contribuir fortemente para a existência de um consumo acentuado de medicamentos antidepressivos e ansiolíticos nesse grupo profissional, apesar de não existirem estudos disponíveis de abrangência nacional que abordem especificamente essa temática e que comprovem a hipótese anterior…

 Apesar disso, existe um estudo de âmbito nacional, tornado público pela FENPROF em Outubro de 2018 (Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal), que, entre outros, aborda o consumo de algumas substâncias psicoactivas por parte dos professores, sem especificamente aludir a medicamentos das categorias antidepressivos e ansiolíticos…

 Os resultados desse Inquérito permitiram concluir que 18,7% dos professores tinha pelo menos um consumo preocupante (entre álcool, drogas e medicamentos) e que, nessa vertente, a maior preocupação dos docentes se prendia com o consumo excessivo de medicamentos…

 Ainda que nesse Inquérito não tenham sido identificados os medicamentos que mais contribuíam para suscitar a referida preocupação, inevitavelmente, entre eles, estarão expectavelmente os psicofármacos, onde se incluem antidepressivos e ansiolíticos…

 Xanax, Lorenin, Zoloft, Prozac ou Victan, quantos professores estarão (demasiadamente) familiarizados com estes “palavrões”?

 Quantos professores consumirão de forma regular e habitual tais medicamentos ou outros afins? Dos cinco milhões de embalagens, quantas terão sido adquiridas por professores?

 Quantos professores estarão dependentes de um comprimido para dormir?

E não falo apenas dos que têm acompanhamento médico e que tomam medicação antidepressiva e ansiolítica prescrita por essa via, falo também dos que consomem tais medicamentos por via do “atalho” da auto-medicação…

 De uma forma ou de outra, consumir esse tipo de fármacos até pode atenuar alguns sintomas e proporcionar uma momentânea sensação de bem-estar, mas não debela as causas ou a origem do problema e por isso não o elimina… Na melhor das hipóteses, fica-se “anestesiado”, “adormecido” ou “dopado” e quando, porventura, se “acorda” o problema lá continuará, por resolver… E nessas circunstâncias, o mais comum é entrar-se numa espécie de “círculo vicioso”, do qual é difícil sair…

 Em cada escola, já sabemos, os problemas são sempre muitos, de natureza variada e nunca acabam… Por outro lado, também sabemos que, quase sempre, é muito mais fácil, imediato e cómodo engolir comprimidos do que conseguir dizer Não ou lutar por mudar alguma coisa… Mas é também enganar-se a si próprio…

 Quando reiteradamente se aceita tudo, se forjam “sorrisos amarelos” e se reprimem reacções, temos, muitas vezes, meio caminho andado para a auto-comiseração, para a frustração e para o consumo, meramente paliativo, de determinadas substâncias, legais ou ilegais…

 Melhor do que levar os desaforos para casa, ter a coragem de dizer Não ou de dar alguns “audíveis murros na mesa”, talvez seja muito mais terapêutico e catártico do que “enfardar” medicação e poderá, efectivamente, ajudar a eliminar alguns problemas…

 Em vez de alguém se culpabilizar por se sentir angustiado, ansioso ou exausto, talvez seja mais eficaz e vantajoso começar por estabelecer limites (inultrapassáveis) entre aquilo que é Trabalho e aquilo que é Família, Lazer ou Pessoal… Cumprir escrupulosamente o horário de trabalho é diferente de ultrapassar constantemente esse horário, de não “desligar” ou de abdicar da separação entre as várias esferas da vida…

Desculpas ou pretextos para continuar a incorrer no anterior, cada um poderá encontrar os que quiser, sendo certo que o resultado mais óbvio disso será deixar-se anular, silenciar ou maltratar…

O volume de trabalho incontrolável, sobretudo motivado pelas insanas tarefas burocráticas e administrativas que, na maior parte das vezes, não têm relação directa com a leccionação, só cessará quando se começarem a ouvir muitos Não

 No actual contexto de trabalho em escolas, não há nenhum profissional, seja quem for, que possa considerar-se como insubstituível, convirá talvez ter consciência disso…

Quando alguém morre ou adoece, física e/ou mentalmente, o “período de luto” em relação à perda, quer seja permanente ou transitória, costuma ser curto; rapidamente se esquece esse alguém; e outro tomará o seu lugar, seguindo-se sempre na perspectiva do “the show must go on”

 Escusamos de acalentar ilusões: as escolas transformaram-se em “máquinas trituradoras de pessoas”, sobrando aos próprios eles próprios, no zelo pela sua saúde mental e física. E o resto são “lágrimas de crocodilo” e efémeras homenagens …

Por difícil que seja aceitar, não há (infalíveis e imortais) “Super-Mulheres” ou “Super-Homens”, a não ser na ficção…

 Sem dramas desnecessários, e pelas palavras de Caetano Veloso (Vaca Profana), fica-nos esta “consolação”: “De perto, ninguém é normal”

Mesmo que o conceito de “normalidade” se apresente, muitas vezes, como subjectivo, duvidoso e questionável…

  

(Matilde)

 

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2 comentários

    • F.S. on 17 de Outubro de 2021 at 11:14
    • Responder

    Subscrevo, na totalidade. Este é um retrato fidedigno do que se passa com os profissionais nas nossas escolas.
    Grta por ter partilhado esta análise tão correta do que estamos a vivenciar👍

    • Toni on 17 de Outubro de 2021 at 13:46
    • Responder

    alguns não dormem outros estão sempre a dormir.

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