Os professores continuarão a adoecer. Com tanta desconsideração, tanta parcialidade, tanta burocracia inútil e tanta injustiça irreparável resultante de uma mecânica imparável, não só adoecerão como fugirão na primeira oportunidade. Aliás, os motivos – “a suspensão imediata da avaliação dos professores e do diploma de gestão escolar” – da maior manifestação, em 8 de Março de 2008, estão inamovíveis e inscritos na “História Nacional da Infâmia” baseada na Universal de Borges.
Os professores continuarão a adoecer
Documenta-se na entrevista de José Sócrates, em 5 de Janeiro de 2009, na SIC, que começou com um elogio, ainda por cima falso, à ditadura: “os professores estiveram 30 anos sem avaliação; já são avaliados com quotas, aulas observadas, formação e controle da assiduidade; já há muito bons e excelentes; finalmente, melhorará o seu estatuto social e reduzirá a burocracia”. O jornalista Ricardo Costa ainda alertou: “estão a desistir da profissão”. Mas o governante não ouviu, como não ouviram Passos Coelho e António Costa, e, percebe-se, também não ouvirá Luís Montenegro.
A vitória da inconsistente avaliação com quotas – o Governo eliminou transitoriamente as vagas, e não as quotas, no acesso aos 5º e 7º escalões -, exclusiva desta caricatura de social-democracia, é a pior das farsas: a administrativa. A “batalha entre todos” adoeceu uma profissão difícil exercida por uma legião de heróis anónimos. Sócrates associou-a ao mais letal dos “vírus”: a autocracia na gestão escolar, controlada à distância por um inferno de plataformas digitais do aparelho de quem governa.
E para um resumo histórico que ajude a pensar livremente, recorde-se que a gestão escolar não veio sem alterações de 1974 a 2008. Longe disso. De 1974 a 1976, viveu-se o PREC. Em 1976, o Decreto-Lei nº 760 A/76 instituiu três conselhos: o directivo eleito por todos os professores, o pedagógico constituído por membros eleitos e o administrativo composto por inerências.
De 1991 a 1998, testou-se, em trinta escolas, o modelo uni-pessoal (Decreto-Lei nº 72/91) resultante de três tensões: uni-pessoal versus colegial, poder minoritário dos professores versus maioritário e exercício de cargos por nomeação versus eleição. O director nomeava os titulares dos cargos e era escolhido por um novo órgão, o conselho geral, composto pela imprecisa comunidade educativa com os professores em minoria.
Correu mal, com destaque para as eliminações do voto, do contraditório e da colegialidade. Além disso, a presença maioritária, no novo órgão, de membros “temporários” pouco legitimados, fragilizou a massa crítica para decisões com complexidade científica, técnica e humana. De facto, expôs as escolas ao resumo de James Robinson (co-autor de “Porque falham as nações”) sobre modelos, chefias e abusos do poder: “os pesos e contra-pesos da constituição dos EUA não pensaram na sensatez de Obama; pensaram em Trump e resultam”. Para mais, criou-se mais órgãos intermédios (departamentos), contrariando duas tendências das organizações que mais progrediam: redes e achatamento de patamares, como aproximação dos profissionais aos momentos de decisão e de inovação.
Em 1998, legislou-se um equilíbrio (Decreto-Lei nº 115-A/98). Manteve-se quatro órgãos, mas o conselho geral passou a assembleia de escola e o número de representantes dos professores não era superior a 50%. Cada escola escolhia o executivo entre o uni-pessoal e o colegial – 99,9% elegeu o colegial -, eleito por todos os profissionais e por representantes dos encarregados de educação. Os membros do pedagógico, que elegiam o presidente, eram eleitos e o administrativo constituído por inerências. As avaliações foram positivas, exceptuando-se o excesso de órgãos, o “não achatamento” e a não limitação de mandatos.
Mas, na década de 2000, o “pacto de regime” para a proletarização dos professores, dos partidos de governo, caiu na influência de empresas privadas financiadas pelo Estado. Prometia-se fazer mais com menos (foi uma tragédia que o Governo parece retomar). Sócrates impôs o uni-pessoal de 1991 (Decreto-lei nº 75/2008). Com o caudilhismo em expansão, Passos Coelho fez de conta, em 2012, que o conteve. O Decreto-Lei 137/2012, em vigor, urdiu uma surreal limitação de mandatos do director e uma ridícula eleição de apenas uma minoria dos 17 membros do conselho pedagógico – os coordenadores dos departamentos, eleitos entre três escolhidos pelo director.
Além disso, fabricou-se, na década de 2000, a enésima divisão administrativa do território: os mega-agrupamentos de escolas. Plasmou-se o uni-pessoal para uma escola em agrupamentos até duas dezenas ou mais de escolas. Se o pré-escolar e o 1º ciclo conheciam uma tradição grupal municipal, os 2º e 3º ciclos e o ensino secundário exigiam escolas com autonomia e órgãos próprios. Os mega-agrupamentos terraplanaram tudo isso, concentrando em escolas-sede uma deriva colonialista e eliminando nas restantes qualquer vestígio de democracia.
Os partidos defendem alterações na gestão escolar. Há quem remeta o flagelo para a tensão entre o uni-pessoal e o colegial, num ajuste de contas entre o providencialismo e a dialéctica, e há quem o enderece ao distópico e atávico “taylorismo” (um pensa, muitos executam). Concordando-se, some-se duas fatalidades: desconfiar dos professores e desprezar o gregário inspirado na Grécia Antiga e na luz que só se propaga no contraditório e no espaço livre das ideias.
Em suma, liberte-se a escola da obsessão preconceituosa com o individualismo exorbitante e serôdio que fragilizou a cooperação e contribuiu para a falta estrutural de professores. Assuma-se que a liderança é um atributo precioso independente dos modelos e que se diminui se imposta por uma minoria. Não havendo conhecimento para mudar, regresse-se, humildemente, a 2007 (como se fez, em 2023, com os concursos de professores). A agregação, e a oxigenação, dos professores em funções, contagiará milhares que desistiram e iluminará a atractividade do exercício para além da educação básica.




9 comentários
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Obrigado Rui! Excelente reflexão!
O verdadeiro cancro das escolas são @s diretor@s e o modelo de gestão. Tornou-se impossível suportar esta(s) ditadura(s), ou não tivéssemos o exemplo de todas as outras.
Uma nota final, já ouviram algum(a) diretor(a) pronuncia-se a favor de ELEIÇÕES democráticas nas escolas, em detrimento das farsas, norte-coreanas, de lambe-botas a que chamam CG? Não me lembro…
Sim, os Diretores são obstinados por coisas ridículas e menores, não pela democracia, justiça, bem estar, etc. Costumo dizer que, mal por mal, antes queria se r governado por um gestor isento. Agora sofrer na pele, incoerências claras e vinganças e amiguismos, por um colega nosso, que ganhou poder, provinciano, e perdeu todo o humanismo, isso dói mais! O que me admira é que eles agem todos da mesma forma. têm para com os colegas o mesma postura. São poucas as exceções…devem ser pagos pelo ME para isso, estão bem ensinados!
É verdade que o maior cancro das escolas que adoece tudo e todos são os diretores e diretoras que, como líderes, são uma nódoa e apenas se afirmam pelo poder despótico.
Sou favorável à criação de uma espécie de “violentómetro” onde os professores e outros profissionais de educação possam registar o grau de insatisfação com a gestão das suas escolas e agrupamentos e que possa ser visto por todas as pessoas.
Todos falam no abstrato e tentam tirar conclusões a partir dos que concorrem para sair de determinado sítio mas ninguém avança com a denúncia pública destas nódoas que o sistema de gestão unipessoal promoveu a ditadores e tiranetes.
Todos conhecemos agrupamentos onde se trabalhava muito bem e com bom ambiente mas que, com a ascensão de determinadas criaturas ao gabinete mágico da “Direção” (apenas dizem isso para parecer que existe algo democrático) se tornaram insuportáveis. Desde a assistente operacional a qualquer coordenador, esses tiranetes põem toda a gente louca e instigam a intriga e o compadrio.
Quem quer trabalhar numa organização destas? Por que faltam professores?
Caminhamos para o abismo total neste capítulo se nada for feito para inverter a situação deste modelo pútrido de gestão.
Sem dúvida!! E a meter baixa se possível!
Esse Socrates já está PRESO?
No meu agrupamento, a “burrocracia” inútil permanece, não obstante os protestos!
Enquanto houver a necessidade de vagas para aceder a escalões remuneratórios, e essas vagas forem pela ADD (avaliação), então o cancro da ignomínia e desconsideração continuará.
É impossível trabalhar seriamente sob um mar de hipocrisia, injustiças ferozes e roubos.
Querem um ensino de qualidade? Acabem com esta medida estúpida.
Nos bons privados a avaliação com muito bom ou excelente serve, apenas, para dar um bónus salarial no final do período de avaliação. Nada mais. Mas o bónus é interessante. Entre 1,5 ordenados e 3 ordenados (respetivamente muito bom e excelente).
Mas não interfere em mais nada. Não diminui tempo para acesso a escalões ou para a reforma.
O resultado é que ninguém se anda a matar, nem “a matar os outros”, por caousa da avaliação. E tudo é mais saudável.
Com esta avaliação o que se tem é uma série de injustiças e desconsiderações que fazem qualquer um, de bem, deixar esta profissão.
Artigo excelente.
Já passei por escolas em que a preocupação dos diretores era levar e passar a lista de presenças em reuniões inúteis. Confirmação in loco dos docentes. Enfim.