Os cargos e as pessoas…

 

De forma simplificada e resumida, o funcionamento de umaescola depende, entre outros, de uma organização composta por vários órgãos, através dos quais se estabelece uma determinada hierarquia, pontuada por cargos com competências e atribuições específicas…

Ainda que existam na escola, como em qualquer outra organização, pessoas com diversos perfis em termos de personalidade, o exercício dos cargos aí existentes não parece depender dessas características pessoais, pelo menos formalmente…

Por outras palavras, em termos formais, não existem cargos destinados a determinados perfis de personalidade, particulares ou específicos…

Mas, e ainda assim, cada cargo existente numa escola pode, ou não, ser desempenhado com espírito de justiça, de democracia e de solidariedade, independentemente da formação especializada detida por quem exerça funções de coordenação, seja em que órgão for…

À partida, espera-se, no âmbito anterior, que um líder, seja qual for o cargo que ocupe, consiga:

– Não impor, mas antes negociar, levando ao comprometimento recíproco de todas as partes envolvidas numa tomada de decisão e na execução posterior da mesma;

– Escutar aqueles que lidera, sabendo reconhecer as especificidades ou particularidades inerentes a determinados contextos, em certos momentos;

– Admitir que não está imune a erros e assumi-los quando os comete…

E, com forte probabilidade, bastaria a observação dessas três capacidades nos líderes de uma escola para poderem prevalecer o apaziguamento e a pacificação dos restantes que trabalham nesse contexto… Pelo menos que, a nível interno, predominasse a serenidade e a boa-fé ao nível das relações institucionais, pois que de mau já chega, e sobra, o que frequentemente surge do exterior…

Se não existir espírito de justiça, de democracia e de solidariedade por parte dos que lideram, de pouco valerão as formações especializadas exigidas para o desempenho de determinados cargos…

Liderar eficazmente um grupo de pares requer algo mais do que múltiplos certificados ou comprovativos de formações em supervisão pedagógica ou em administração e gestão escolar…

Talvez não fosse necessário muito mais do que espírito de justiça, de democracia e de solidariedade para se observar um nível de satisfação no trabalho que contribuísse para a boa saúde psicológica de todos os que exercem uma determinada profissão em contexto escolar…

Alguns dirão, muito provavelmente, que a afirmação anterior não passará de um lirismo ou de um devaneio, impossível de concretizar…

Se, logo à partida, for impossível de concretizar, como se poderá exigir a outros, nomeadamente à Tutela, que substancialize aquilo que os próprios profissionais de Educação, entre si, consideram como algo inalcançável?

Se os próprios profissionais de Educação não conseguirem, entre si, ser justos, democratas e solidários que legitimidade terão para exigir a concretização desses desígnios a terceiros?

Exercer o Poder, conferido por determinados cargos, de forma autoritária, por vezes, até, quase patológica, não se deve ao cargo em si mesmo, mas antes a certas características pessoais de quem o ocupa…

 

Exercer o Poder, conferido por determinados cargos, de forma autoritária, abusiva, arbitrária ou discricionária é uma opção voluntária, imputável apenas a quem o ocupa e não ao cargo em si mesmo…

Um Poder que seja exercido pela subestimação do Outro, sem lhe conceder as prerrogativas da liberdade e da responsabilidade, estará, à partida, condenado à subserviência, minado pelo servilismo…

Mas, também, o Poder exercido pela aplicação descontextualizada e cega da Lei, muitas vezes a coberto da afirmação: “dura lex sed lex”, acabará, inevitavelmente, por transformar quem assim o exerce num pequeno ou num grande tirano, conforme as perspectivas… Em qualquer caso, sempre num tirano…

Até porque aquilo que é injusto continuará a sê-lo, mesmo que a Lei diga que é legal…

E se há escolas onde, de modo geral, os respectivos líderes agem norteados pela justiça, democracia e solidariedade, noutras isso mais parecerá algo “contra natura” ou uma “miragem”…

Um cargo, em si mesmo, não define uma pessoa, mas uma pessoa pode, e costuma, definir um cargo, pela positiva ou pela negativa…

Caberá aos titulares de cargos decidir de que modo os pretendem exercer e como é que, no futuro, gostariam de ser lembrados…

O que se passa dentro da escola importa: tudo começa dentro da própria escola e o que se passa dentro da escola costuma ter consequências visíveis e transparecer muito facilmente para o exterior…

O passado recente mostra-nos que certas decisões da própria Tutela, por certo, não ignoraram aquilo que conheciam acerca do funcionamento de uma parte significativa das escolas…

Sobretudo as fragilidades existentes em termos de união docente, que geralmente começam e se enraízam dentro da própria escola, foram, com certeza, tidas em consideração pela Tutela quando se tomaram decisões altamente lesivas para os Professores, enquanto classe profissional…

Por muito que custe, talvez valha a pena pensar um bocadinho sobre isso…

Por outro lado, ainda, não pode deixar de se referir que a eventual existência de lobbies na escola, conhecidos como “grupos de pressão” mais ou menos explícitos, também costuma estar directamente relacionada com a forma como o Poder é exercido pelos titulares dos cargos aí presentes…

A maior parte do dia de um profissional de Educação é, comummente, passada dentro de uma escola, pelo que o que aí se passa dificilmente poderá ser considerado como irrelevante…

A propósito do ambiente que se vive em muitas escolas, frequentemente reportado por quem aí trabalha, quantas vezes se ouve, entre profissionais de Educação, a malfadada e detestável expressão: “Se queres ver o vilão, põe-lhe um pau na mão”?

Pois…

Haverá mesmo quem queira ser “o vilão”?

Paula Dias

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11 comentários

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    • Cláudia Costa on 8 de Setembro de 2024 at 9:20
    • Responder

    Muito bem escrito. Senti cada palavra. Obrigada

    • AEA on 8 de Setembro de 2024 at 11:13
    • Responder

    Palhaçada. Os manuais digitais servem apenas para os alunos navegarem enquanto deviam estar a trabalhar. Esta politiquice educativa apenas beneficia os interesses económicos ligados ao digital. Mudou o governo mas a realidade continua a mesma…

    • Maria on 8 de Setembro de 2024 at 15:30
    • Responder

    Para quando considerar o devido suplemento remuneratório para os coordenadores de estabelecimento nos estabelecimentos / escolas com menos de 100 crianças/alunos?

      • Fui on 8 de Setembro de 2024 at 18:20
      • Responder

      Se não estás satisfeita, demite-te.

    • idealuminex on 8 de Setembro de 2024 at 16:13
    • Responder

    Para quando uma verdadeira Democracia a aprender/ensinar nas Escolas.

    Os tachos e os tachinhos são a escolinha dos marrecos.

    • Anónimo on 8 de Setembro de 2024 at 17:16
    • Responder

    “Haverá mesmo quem queira ser “o vilão”“.
    Sim, e lutam desesperadamente para manter as perseguições.
    Esta manchete é vergonhosa e nada foi feito!!!!!

    https://capasjornais.pt/Capa-Jornal-Publico-dia-12-Agosto-2018-9909.html

    Escandaloso!
    Querem manter este estado de coisas?

      • idealuminex on 8 de Setembro de 2024 at 17:50
      • Responder

      Tenho 67 anos, estou a um ano da minha aposentação (completar os 40anos de serviço), sou completamente desconsiderado por um vilão . Demonstra “à plebe” a sua descriminação desconsiderando o meu estado psíquico e agredindo-me moral e cinicamente.

    • joão on 8 de Setembro de 2024 at 20:12
    • Responder

    Palhaços.

    • Teresa on 8 de Setembro de 2024 at 21:16
    • Responder

    Também me revi neste texto. E também fui agredida psicológicamente por 2 vilões na minha carreira. Os últimos 2 anos foram massacrantes até ser obrigada a entrar de baixa médica. Mudei e infelizmente aos 64 anos e já depois de ter pedido reforma por incapacidade, que me foi negada, fui colocada pela primeira vez em QA a 45m de viagem de carro, o que se torna muito doloroso. Quanto ao novo líder veremos se será líder ou vilão.

    • DF on 8 de Setembro de 2024 at 21:43
    • Responder

    Fui massacrado com trabalho até à implosão e depois de eu não estar bem ainda levei com chantagem e bullying orquestrado pelas vilãs!

    • Paulo Gomes on 9 de Setembro de 2024 at 10:58
    • Responder

    Tenho uma pós graduação com especialização em Gestão de Estabelecimentos de Ensino no âmbito da Administração Escolar e Educacional desde 2004. Até hoje, nunca fui chamado, nomeado ou tido sequer em consideração para exercer quaisquer cargos dentro e fora da Escola, mas tenho visto muitos menos capacitados academicamente e relacionalmente a desempenharem esses cargos e por tempos muitos prolongados com nefastas consequências para as escolas e as pessoas que lá trabalham. Não é por habilitações nem por capacidades relacionais excecionais que muitos do que estão nas direções das escolas ou nas direções gerais são escolhidos, mas por mero nepotismo ou por terem cartão do partido ou mesmo ligações com a maçonaria. Essa é a realidade.

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