Com Especial Recado a Alguns Comentadores do Blog DeAr Lindo

Português açucarado, vómitos e invasão

 

Uma das muitas medidas apresentadas pelo governo foi a de simplificar os procedimentos necessários para a certificação de professores imigrantes.

Faltam 2228 professores. Isto de acordo com dados do conhecido blogue Arlindovsky, atualizados ontem. O número é volátil, mas tomemo-lo como referência.

Uma das muitas medidas apresentadas pelo governo foi a de simplificar os procedimentos necessários para a certificação de professores imigrantes. Na altura, o ministro da Educação referiu o objetivo de, por esta via, contar com mais 200 professores no sistema. O único partido da oposição que reagiu foi, naturalmente, o Chega, acusando Fernando Alexandre de “fraqueza”.

200. Não é determinante, mas também não é indiferente. Se este objetivo tivesse sido cabalmente cumprido, teríamos, neste momento, cerca de 9% da falta de professores resolvida.

A agilização desta certificação não parece, até agora, ter suscitado uma alteração normativa, já que as FAQ do Ministério continuam a referir legislação de 2005, que não aparenta ter sido alterada. Assim, o que por ora está em curso será mais uma aceleração processual prática do que uma modificação substancial dos próprios requisitos. Ora, nesse sentido, soube-se ontem, através de um depoimento de fonte anónima do ministério junto da imprensa, que foram já recebidos 129 pedidos desde o anúncio. Destes, 90 aguardam completamento da documentação por parte dos solicitantes e 39 foram apreciados. E, destes, 10 foram deferidos e 29 foram indeferidos.

Portanto, temos 10 novos professores imigrantes em Portugal. Ou seja, 5% do objetivo de colmatar 9% da falta de professores. Destaco, pois será importante para o que aí vem: mesmo que o objetivo de recrutar 200 novos professores estrangeiros seja totalmente alcançado, esses professores representarão cerca de uma milésima e meia parte face ao total de docentes no setor público (131?133, em dados de 2022).

O já referido blogue Arlindovsky é de um valor consensual não só na partilha de informações sobre a Escola Pública, mas também na própria produção de conhecimento sobre a alocação de docentes, com detalhados estudos quantitativos levados a cabo pela sua equipa. O que porventura será terreno mais polémico é a sua política de moderação, que parece estar baseada numa visão maximalista da liberdade de expressão, postura defensável e quiçá emblemática num tempo em que, com frequência, a mera ofensa subjetiva se tem tornado condição suficiente do silenciamento objetivo.

Uma das vantagens desta abertura é termos acesso não mediado a barbaridades.

No post em que o blogue divulga a notícia desta dezena de professores estrangeiros que entrou no sistema – sete do Brasil, dois de Espanha e um de Cabo Verde –, um comentário apela a “uma posição dos Encarregados de Educação, caso não aceitem que os seus filhos fiquem a falar português açucarado”.
Mantendo-nos na esfera digestiva, outro utilizador constata: “Agora facilitam os estrangeiros. Dá vómitos”.

E, num acesso de pânico, há ainda um terceiro que se interroga: “Já são dez? Daqui a algum tempo vão contar-se aos milhares”.

Serão realmente docentes, os autores destes comentários? Gostaria de achar que não, mas suspeito que sim. Há toda uma idiossincrasia de zanga e azedume numa parte das interações com este blogue, felizmente minoritárias, infelizmente recorrentes.

Por isso, lamento, mas só consigo terminar este texto assim: Deus nos proteja destes parasitas. Não me refiro aos imigrantes, mas a quem perdeu há já muito tempo o humanismo que deve nortear todos aqueles que trabalham numa escola.

Aos meus novos colegas brasileiros, espanhóis e cabo-verdiano: bem-vindos!

David Erlich, in Sábado

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2024/09/com-especial-recado-a-alguns-comentadores-do-blog-dear-lindo/

28 comentários

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    • Padre Marx on 11 de Setembro de 2024 at 17:41
    • Responder

    Não tenha contra os migrantes, mas meninos rabinos liberais betinhos com cabelo Playmobil tiram-me do sério

    • João Branco on 11 de Setembro de 2024 at 17:42
    • Responder

    5% ou 0,5%?

    • Clement Ina on 11 de Setembro de 2024 at 18:17
    • Responder

    É sempre de espantar como a malta mais inclusiva está sempre pronta para ‘moderar’ a liberdade de expressão em nome de ‘um mundo melhor’.Espanta também como este vómito tem destaque no blogue.

    • Anabela Coutinho on 11 de Setembro de 2024 at 18:24
    • Responder

    Lol é de rir,se não fosse tão sério. O Sócrates proibiu docentes com habilitação própria,o outro obrigava a licenciados,a fazerem prova para provarem que tinham capacidades, depois destes tirarem licenciatura,com estágio etc. Agora metem qualquer um. Podiam ir à Austrália buscar pigmeus em último caso. Olha um brasileiro ensinar português,ou de outra nacionalidade 🤣🤣🤣🤣🤣. Que caos isto virou. É o fim do país. O SNS uma vergonha. O melhor é bazar daqui. Que fiquem os estrangeiros a comandar Portugal. Para mim basta.

      • Maria on 11 de Setembro de 2024 at 20:34
      • Responder

      Devia retratar-se, a maior parte dos professores que lecionam português em universidades estrangeiras são brasileiros.

        • José on 11 de Setembro de 2024 at 21:28
        • Responder

        De acordo com um ideólogo e professor do Brasil, o brasileiro será reconhecido como uma nova língua, portanto em vez dizer às pessoas para se retratarem é melhor acompanhar a realidade:
        https://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/o-portugues-brasileiro-precisa-de-ser-181444

    • KT on 11 de Setembro de 2024 at 18:35
    • Responder

    👏👏👏👏👏👏.
    Parabéns, David Erlich!

    • maria on 11 de Setembro de 2024 at 18:37
    • Responder

    Alguém sabe o que aconteceu aos professores da norma travão que não ficaram colocados ?

    • José Silva on 11 de Setembro de 2024 at 18:40
    • Responder

    Especial recado a gente que envia textos para a Sábado: por acaso sabe quantos desses professores estrangeiros, que pediram o reconhecimento dos seus diplomas, são formados em áreas onde não há falta de professores? De Educação Física conheço vários, é preciso mais gente? Não. Na Música é necessário ir ao estrangeiro buscar professores? Não.

    Isto não é só fazer contas de somar. Caso contrário era fácil, víamos quantos professores estão sem trabalho nos diversos grupos e rapidamente esse senhor atingia mais de 2000 professores. Em vez de falar em 9% falava em 100%.

    Já agora, os professores nacionais foram afastados da profissão, com mais e mais requisitos e dificuldades, os mais resilientes tiveram que lutar muito para atingir os objetivos pretendidos e agora é este regabofe com a fasquia bem em baixo?

    • Luluzinha! on 11 de Setembro de 2024 at 18:44
    • Responder

    Sou absolutamente a favor dos comentadores do blog e identifico, nos seus comentários, a minha posição pessoal no que concerne a este assunto. Só um país subdesenvolvido resolveria a falta de professores recorrendo a mão de obra imigrante, com todas as trágicas implicações que tal medida suscitaria a longo/médio prazo. Essa não é, definitivamente, a solução para o problema. Valorizem a profissão, com todas as medidas inerentes a esse processo, e não será necessário recorrer a esse miserável e protético remendo dos imigrantes. Em suma: as críticas lavradas pelos comentadores do blog têm toda a minha compreensão.

      • Dino Meira on 12 de Setembro de 2024 at 2:33
      • Responder

      E acha que essa “mão de obra emigrante” conseguirá ser pior que o seu adorado Carlos Calixto e outros que andam por aí?

    • João on 11 de Setembro de 2024 at 18:45
    • Responder

    Olha mais um samaritano. É engraçado reparar como estes humanistas, do alto da sua superioridade moral, não hesitam em rotular os outros disto e daquilo. No caso em apreço chega a falar de “parasitas”, na boa tradição leninista e nacional socialista de rebaixar os adversários a um nível inferior. Mas sempre dentro de um espírito humanista e democrático.

    • Noname on 11 de Setembro de 2024 at 19:23
    • Responder

    Tenho dupla nacionalidade, concluí a minha formação académica, que abrange a licenciatura e o mestrado, em Portugal. Neste momento, sinto alguma apreensão, uma vez que recentemente comecei a acompanhar o blog e notei que ainda persiste uma aversão em relação aos estrangeiros. Não consigo encontrar a terminologia adequada para descrever essa realidade.
    Neste momento, ainda não fui colocada e a perspectiva de encontrar colegas que possam ser hostis à minha presença na escola gera em mim um certo receio.
    O meu único anseio é trabalhar e contribuir de forma construtiva para a comunidade educativa, sem a intenção de ocupar o lugar de nenhum cidadão português.

    1. Tenho a certeza que onde for colocada vai ser bem recebida.
      Boa sorte.

        • Noname on 11 de Setembro de 2024 at 19:46
        • Responder

        Caro Senhor Arlindo,

        Agradeço sinceramente as suas palavras.
        O que mais desejo é realmente ser bem recebida onde quer que vá.

          • José on 11 de Setembro de 2024 at 21:33

          Já agora se eu quiser ser professor no Brasil, também me aceitam… É que usualmente estes acordos bilaterais são sempre unilaterais, em que Portugal acaba por reconhecer o estrangeiro na esperança de ir lá passar umas férias, enquanto que o estrangeiro fecha as portas a qualquer intercâmbio. Houve em tempos políticos que mandaram os professores emigrar, muitos deles sem essa possibilidade acabaram por sair da carreira docente. Se calhar faziam agora falta… Digo eu…

      • Maria on 11 de Setembro de 2024 at 20:52
      • Responder

      @Noname, vai ser muito bem recebida, nem todos os professores agem pelas aparências, os mais sábios mantêm- se humildes, prestar- se- ão a ajudá-la , se necessário . Quanto aos outros, ignore- os, são uns frustados , insistem no supérfluo, não aprenderá nada com eles

    • AC on 11 de Setembro de 2024 at 20:27
    • Responder

    Onde estava este cromo quando, há uns anos atrás, milhões de portugueses se insurgiram contra o novo acordo ortográfico, recusando-se a adotá-lo, exatamente pela tentativa forçada de aproximação do português de Portugal ao português do Brasil? Onde estava ele para chamar xenófobos a todos esses portugueses?

      • Maria on 11 de Setembro de 2024 at 20:58
      • Responder

      @AC, milhões pronunciaram- se a favor do acordo ortográfico, para que o português europeu não caia em desuso.

    • Maria Faria on 11 de Setembro de 2024 at 21:03
    • Responder

    Noname, se vier para a minha escola, en Guimaraes, é bem recebida com certeza!!

    • José on 11 de Setembro de 2024 at 21:24
    • Responder

    Os processos administrativos de equivalência são sempre processos burocráticos que raramente tem em conta as especificidades dos candidatos, não estou por dentro do processo, mas deverá ser um processo de equivalências dado pelo Ministério. Isto não é uma questão de racismo ou xenofobia, até porque como estudante tive a oportunidade de pelo programa Erasmus viajar um pouco pela Europa e conhecer outras culturas, o problema aqui está na falta de equidade nos processos de formação dos professores.
    Ao abrigo desta emergência para a formação de novos professores, pode-se estar a criar processos de extrema injustiça que no final podem levar a termos mais “cheganos” no parlamento… Acho que seria uma boa medida colocar esses professores estrangeiros a fazer o mesmo exame de acesso à profissão que os professores de habilitação própria acabam por fazer… É uma mera questão de justiça.
    Quanto à introdução de professores estrangeiros no ensino português é preciso ter em atenção que os métodos de ensino são diferentes em cada país, a título de exemplo, eu como professor do grupo 500, já tive de lecionar a alunos ucranianos e reparei que muitos deles aprendem a Fórmulas de Vieta em vez da fórmula resolvente para a resolução de equações de 2ºgrau… E agora como fazemos… Temos aqui uma substancial divergência entre o programa de ensino português e o ucraniano (países de leste). Ou seja, acredito que um professor de matemática da Ucrania esteja mais habituado a dar Fórmulas de Vieta que a Fórmula Resolvente…
    Sabe eu gosto muito pouco de conversa lírica para encher jornais, palestras e para parecer bem na comunicação social, sou uma pessoa prática e neste momento acho um completo risco estar a dar equivalência à docência a professores que não estão habituados ao nosso sistema de ensino, se querem dar, então que se criem um plano de formação decente em vez de estar a fazer tudo em cima do joelho.

    Este comentário não vem na sábado, mas pelo menos tem aderência com a realidade.

    • S on 11 de Setembro de 2024 at 22:20
    • Responder

    “erlich” com nome assim não se pode esperar outra coisa se não a defesa dos interesses dos portugueses …,e não se percebe o destaque feito pelo arlindo@ pois o que foi comentado não é o que este senhor insinuou o que demonstra desonestidade intelectual mas deu para entender que são mais solidários com os estrangeiros quanto aos portugueses que se lixem ou emigrem… é o descalabro.

    • Des Mentes on 11 de Setembro de 2024 at 23:24
    • Responder

    Ui, ui, eles vêm aí… MEDU!!!
    https://persona-non-grata.webnode.pt/l/eles-vem-ai/

      • José on 12 de Setembro de 2024 at 0:31
      • Responder

      Já agora sabe qual é o processo de equivalências que existe para um professor de Portugal que queira dar aulas no Brasil?
      É que em tempos mandaram os professores emigrar, mas se calhar esqueceram que muitos países da CPLP só aceitam professores portugueses nas escolas portuguesas nesses países… Um pequeno pormenor que passa ao lado dos arautos daqueles que tudo fazem para integrar professores estrangeiros nas escolas em Portugal.

    • Miguel Pinheiro on 11 de Setembro de 2024 at 23:46
    • Responder

    Brasileiros a ensinar Português significa, a prazo, a adopção da norma brasileira. Queremos dizer Antônio e fenômeno? O afastamento entre ambas as normas já devia ter consagrado o brasileiro como língua, não só por ser diferente (( fonética, léxico, morfologia), como a variante portuguesa não entra no Brasil. Nem filmes, nem música, os escritores são traduzidos para brasileiro. O cúmulo foi o público ter uma edição em brasileiro para imigrantes em Portugal. É a prova de que se trata de 2 línguas diferentes!!

      • Sonhadora on 13 de Setembro de 2024 at 0:55
      • Responder

      Como se as variantes do Inglês ou mesmo do Espanhol não tivessem tantas diferenças como têm as variantes do Português. Mas acredito que a variante brasileira em breve se tornará um idioma próprio, não porque seja um idioma diferente, claramente não o é, mas porque os protagonistas (brasileiros) assim o querem. O desprestígio que a cultura portuguesa atinge nesse país e enorme preconceito relativamente à variante portuguesa levará a esse fim.

    • Maria Guedes on 12 de Setembro de 2024 at 6:18
    • Responder

    Bom dia!
    O blogue foi , é , espero que continue a ser uma Lufada de ar fresco na análise da Educação.
    Não há democracia sem opiniões divergentes.

    Mas as tabelas do Davide dão aos docentes uma visão objetiva do panorama docente, em tempo quase REAL !!!!!! Um país que foi pioneiro na emigração massiva , só pode acolher bem os imigrantes, porque tem o saber da experiência feita, como diria o Poeta.
    Os docentes têm mais com que se preocupar do que debitarem ideias sobre docentes imigrantes… mas se as debitam EXCELENTE, significa que vivemos num país com liberdade de opinião.

      • José on 12 de Setembro de 2024 at 7:28
      • Responder

      Existem coisas fantásticas e inexplicáveis neste país… Um docente de habilitação própria e português é um incompetente que precisa de ir para a universidade tirar um mestrado, já um docente estrangeiro com um mestrado (dificilmente acreditado numa faculdade europeia) já é um expert no sistema educativo português que deve ser elevado ao estatuto de peça fundamental no sistema de ensino português… Epa, já não sei o que se possa dizer mais sobre isto.

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