Ó XIIIIIICO! – Carlos Santos

 

Nada como ir a um restaurante para se poder desfrutar do prazer infinito de saborear uma refeição em tranquilidade, bebendo da satisfação de, durante um curto espaço de tempo, poder sentir-me habitar o monte do Olimpo no meio das divindades gregas.
Mas, o único defeito dos sonhos é serem tão vaporosos como a bruma da manhã que se dissipa aos primeiros raios de sol. Ou, como costuma dizer a dona Trindade, beata do rés-do-chão que sabe tudo sobre a vida alheia e dos mistérios do divino, «foi sol de pouca dura».
Ainda o ponteiro dos segundos não tinha completado uma volta, quando uma voz feminina gritava – Ó Xico, senta-te!
Nada incomum, até essa frase começar a repetir-se insistentemente na mesa atrás de mim. Na impossibilidade de me virar para trás, tendo de abandonar o meu trono e descer da morada dos deuses com vista para o mar Egeu, dando por terminado o sonho romântico de um etéreo repasto, a minha esposa trata de pintar a cena. Em pinceladas breves, descreveu que uma mãe, que não tirava as mãos nem os olhos do telemóvel, estava a advertir o seu rebento que não parava quieto de um lado para o outro e à volta da mesa procurando atenção.

Tal como um disco que tive na minha juventude que, de tanto tocar, ficou arranhado e girava sem sair do mesmo registo, o pregão “Senta-te Xico!” ia-se repetindo até se alojar nos mais recônditos recantos dos meus ouvidos.

Quando aquela melodia se preparava para desafiar as leis da física quântica e se perpetuar até à eternidade, eis que, sem nenhuma explicação cientificamente aceitável, simplesmente extinguiu-se e fez-se silêncio.
Desta vez nem esperei pelo relato da minha mulher – que esboçava um sorriso enigmático e indecifrável – e, dissimuladamente, ou talvez nem tanto, virei-me para trás para tentar desvendar qual teria sido o fenómeno prodigioso que conseguira fazer calar aquela criatura.

A mãe amuada, exibindo umas trombas de meio metro, cruzara os braços. O seu brinquedo preferido, sabe-se lá por que obra e graça do espírito santo, estava agora nas mãos do petit que, hipnotizado, replicava o mesmo comportamento que a sua progenitora tinha tido durante todo o tempo da sagrada refeição.

Acabei por não perceber quem era mais criança e infantil, se a mãe, se o filho. Como professores, percebemos perfeitamente o motivo de as crianças apresentarem certos comportamentos na escola.
Mas, para bem da minha saúde mental, lá acabei por terminar a experiência da minha refeição em paz, desfrutando do prazer de ser servido, para, assim, poder tentar convencer-me de que valeu a pena o dinheiro gasto em ir «comer fora», em vez de ficar em casa.

Carlos Santos

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