O crédito malparado da Educação – Rui Correia

“Não sou rico porque não quero. Uma vez li nos astros que iria haver muito azeite e comprei uma grande quantidade de lagares que, depois, aluguei a muito bom preço”. Quem conta esta história é Aristóteles no seu “Política”, acerca de um outro filósofo, Tales de Mileto (620-546 a.C.). Pretendia com ela demonstrar que aquilo que interessa verdadeiramente no estudo é o puro saber e a curiosidade desinteressada. Temos coisas a aprender com este relato.

O crédito malparado da Educação

O problema maior que a escola pública enfrenta hoje não é a insegurança ou a superficialidade curricular, fenómenos atmosféricos cíclicos que nenhum sistema escolar alguma vez erradicou nem erradicará, e que, por isso mesmo, não devem ser subestimados.

O maior de todos os males é, porém, a indiferença. Desconhecer o lugar que o saber ocupa é o maior adversário do professor e o mais potente inimigo dos miúdos. Estas são as verdadeiras más companhias.

Permanece uma visão romântica do que é uma escola e do que é um professor. E todos dizem tudo. Ao mesmo tempo que ouvimos dizer que as escolas não evoluíram, também ouvimos que está tudo muito diferente. É o que dá darmos ouvidos a pessoas que já não entram numa sala de aula há anos mas que arengam – e receitam – sobre Educação.

Que fique claro: dantes é que era mau. A escola tem hoje uma relação incomparavelmente mais produtiva e activa com os miúdos; não se reclama de um aluno a passividade e a apatia.

Durante décadas, ninguém se ralou com o contexto de aprendizagem, as dificuldades familiares. Entendia-se estes calvários pessoais como irremediáveis, o que atirou milhões de jovens para longe da escola. A verificação formal do conhecimento e um comportamento acrítico eram recompensados. A passividade e a obediência garantiam o sucesso.

A maior angústia de um professor contemporâneo é justamente essa passividade. O que lhe interessa hoje é garantir que os jovens beneficiam de uma atmosfera certa, dentro e fora de uma sala de aula, que lhes permita desejar a procura do saber. E esse é o seu maior problema.

Um problema que cresce fora da escola. Apesar da escola. Existe hoje uma verdadeira pandemia de conformismo que é diariamente combatida pelos professores, e um conformismo graniticamente preguiçoso do lado de fora das grades das escolas.

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2 comentários

    • Parabéns! on 6 de Julho de 2024 at 12:37
    • Responder

    Este é um texto espetacular . Muito bem escrito. Muito bem pensado. Cativante. Com muitas ideias. Diz coisas espetaculares sobre o papel da educação na vida dos povos, sobre o excesso de funções das escolas, sobre o currículo, sobre as novas relações entre professores e alunos, sobre como se devem processar as aprendizagens dentro e fora da escola, etc.
    Um texto que deve ser lido várias vezes. E devia ser lido por todos os profissionais de educação.
    Um texto que devia ser estudado e debatido na formação de professores. Inicial e ao longo da vida.
    Não podia estar mais de acordo com o que é dito. Muitos parabéns por ser tão bom pensador.
    Rui correia revela ser uma pessoa sagaz e atualizada.
    Só não sei o que faz e quem é.
    O MECi devia recruta ló como assessor.

  1. Mais um texto sobre a educação.
    Mais uma opinião sem rumo.
    Não é que o autor esteja errado na sua asserção, refere o que deveria estar na génese da construção do saber, de um ponto de vista filosófico.
    Mas perante um problema concreto, não tem uma solução concreta.
    Mais um romântico, que não faz a mínima ideia sobre como resolver os problemas que aponta e que no fundo acredita que a escola tem de facto a obrigação de assumir funções sociais que não lhe deveriam ser acometidas.

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