Admito e confesso a ignorância de crescer numa cultura, num país e num sistema educativo onde o uso de uniforme nas escolas era (e ainda é) privilégio das classes altas e a minha ignorância é a ignorância de todos nós.
Fala por ti, dizem, e eu falarei de uma escola pública onde infelizmente a ausência de uniforme não foi senão a constatação diária ao longo de seis anos de como uma família se sacrifica para vestir os filhos dados ao mundo sem um vislumbre, o sonho ou a possibilidade de uma roupa de marca sequer.
E se por um lado não é preciso vestir roupas de marca para se sobreviver à escola, por outro o uso do termo sobreviver já é errado de princípio e a exposição de crianças à iniquidade social na sua casa ao longo de anos não é senão o reflexo da iniquidade de um país e com um país a sua cultura.
Fala por ti, e eu falarei sobre a experiência de chegar a terras de Sua Majestade onde as crianças vestem todas de igual e de acordo com os preceitos de cada escola sem o necessário custo acrescido para as famílias em caso de dificuldade financeira.
Se por um lado os uniformes não são baratos, e aqui a regra é infelizmente a mesma se comparada com Portugal, por outro todas as escolas, incluindo a minha, têm uma bateria de peças de vestuário fruto de décadas de ensino para empréstimo sendo a premissa elementar: uma criança nunca deixará de ir à escola e aceder a uma educação de direito pela falta de uniforme.
E perguntam vocês, quais os componentes de um uniforme e será o mesmo obrigatoriamente inacessível em termos económicos?
Um uniforme escolar não é senão um padrão de vestuário instituído pela escola ou sistema educativo e ao qual o aluno deve aderir através do simples uso de calças pretas ou saia preta até aos joelhos, camisa branca, sapatos ou sapatilhas de cor preta e uma sweatshirt preta sem estampados.
Fim da conversa e não é preciso incluir nem gravatas ou blazers, estes sim oneroso acrescento quando o orçamento familiar não o permite.
E não, não são permitidas camisolas com capuz, as famosas camisolas com capuz, ainda procurei a tradução em português e acabei no mesmo hoodie dos miúdos destas ruas e destes gangues, pardais à solta mas de uniforme à mesma e o seu uniforme é a cara tapada num acto de desafio quando o desafio é a segurança destas crianças e a responsabilidade obviamente nossa, os pais e adultos, as crianças de ontem ainda hoje a aprender.
O resultado prático do uniforme escolar? O imediato esbatimento das diferenças sociais. Já não há ostentação nem opulência mas pertença a um grupo, a uma tradição, um desígnio e um símbolo.
Sem a pressão da moda deixamo-nos de nos comparar uns aos outros, há menos atrito, há inclusão e aceitação e, inevitavelmente, mais atenção para a aprendizagem.
E com o uniforme a expectativa da escola, a regra e a conduta e na escola, na minha escola e nas escolas em geral, não se permitem nem decotes ou calções, ensina-se para a sexualidade sem sexualizar e até perfazerem 18 anos estamos a falar de crianças e depois dos 18 anos e dada a nossa idade, já provecta, também.
Dado o uniforme, tais ocorrências são mínimas, tendo o aluno a opção de vestir uma das peças de vestuário presentes na escola e o problema de imediato resolvido.
Compreensão e expectativa, relacionamento e preparação.
O uniforme não é exclusividade das classes altas, o seu estatuto inexistente se todos iguais e na minha limitada experiência verifiquei a presença do mesmo no Reino Unido e em Cuba, dois sistemas políticos opostos e as crianças igualmente felizes.
João André Costa




7 comentários
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Concordo! O bullyng à volta das marcas de roupa é enorme. …
Já há muito que neste blog contei a minha história e “defendi” o uso de bata, uniforme, traje o que seja a fim de terminar com o dito bulling que na escola acontece em termos de vestuário. No presente, mais do que nunca, o defendo uma vez que há EE que não sabem nem querem educar os seus filhos para o saber estar, levando a que alunos apareçam vestidos ou quase despidosno espaço escolar.
Enfim!
Soluções simplistas para questões complexas!
Não, uniformes ou fardas ou qq ourra imposição que não seja o respeito pelo outro, não deve ser admissível.
Não, não e não!
Temos todos direito a oportunidades iguais, mas não somos todos iguais e é bom que saibamos disso, desde pequeninos.
Quais soluções simplistas? Quando não convém dá-se logo o desprezo intelo….São soluções e ponto! Talvez para si não dá muito jeito, deixa de ver os decotes e a subtileza de algumas formas de algumas alunas …entre outros cenários que teriam de pagar para ver noutro local ou internet e na escola é gratuito.
Concordo com o Luís Braga e choca-me a sua insinuação perversa, que diz tudo de si e nada dele.
Nem mais, Totalmente de acordo.
Há alunos que usam as calças no fundo do rabo… Mas, devido à liberdade de cada um andar como quer, eu tenho de desviar a cara para não lhe ver o rabo… ou na melhor das hipóteses as cuecas…
Celebro o 25 de abril sim, mas cairmos nestes e noutros extremos 🥴 entristece -me.