Um país inteiro a arrastar os pés na Educação
As eleições legislativas de 10 de março já estiveram mais longe.
Com sonsa permissividade – até nestes detalhes se nota a falta de exigência coletiva – a comunicação social consentiu o início dos debates televisivos sem a divulgação prévia de todos os programas eleitorais.
O panorama não é animador. Parece que a maioria das forças partidárias, copiosamente encerradas sobre si mesmas, com poucos independentes, nada têm para oferecer que levante do chão um país a precisar de carinho e ânimo.
Na Educação, como aqui alertei, os partidos estão esvaziados de quadros que tragam ou signifiquem efetivas mais-valias para o futuro do setor. Tudo se resumirá a uma coleção de cromos ou de um punhado de especialistas de pacotilha, que nos últimos anos se dedicaram ao populismo ou à demagogia de quem se presta a patrocinar interesses (muito) pouco confessáveis.
Há quem proponha a devolução faseada, mas sem adiantar os seus exatos termos. Os professores não estão em condições de passar cheques em branco. Assim, a devolução, mais ou menos acelerada, não pode estar sujeita a qualquer condicionalismo. A devolução só deve ter uma consequência: o reposicionamento, sem outras condicionalidades acopladas. Ponto.
Vou arriscar uma “lapalissada” e prever que, para os professores portugueses, neste sufrágio de março de 2024, colocar-se-á uma de três possibilidades:
- não votar;
- votar branco ou nulo;
- votar no menos mau.
E, quando o eleitor se vê atirado para este leque de alternativas, somos obrigados a reconhecer que a (nossa) democracia está perigosamente em risco de se vulgarizar, abrindo alas a toda a sorte de extremismos.
Numa análise comparativa das propostas partidárias, percebe-se que a Educação já não é uma prioridade. Não se conhece uma força, com assento parlamentar, que coloque, como linha vermelha, a valorização da Educação. Até dos debates foi afastada. Nem sequer uma tão fogosa quanto passageira paixão. É tudo muito pobre, sem uma visão integrada que aporte a consistência de uma verdadeira estratégia mobilizadora.
Desde o início deste século, amontoaram-se, em Portugal, os ataques que os políticos, os partidos e muitos governantes desferiram contra a dignidade socioprofissional dos professores. A classe docente saiu deste processo fragilizada, depreciada e ferida no seu orgulho. Está (compreensivelmente) zangada e descrente. O mais desconcertante é que a classe política ainda não terá percebido este contexto, em que perdeu o estatuto de acusação para assumir o de réu. Mantém-se no limiar daquela soberba que antecede a insolência menosprezadora. Mesmo em tempo de eleições, não consegue encontrar mediadores que falem a linguagem do terreno, dos professores que, apesar de numerosos desmandos governativos, continua(ra)m a dar a cara e o melhor de si pela Escola Pública. Repito, o poder político precisa de recrutar quem fale a linguagem dos professores porque, deixemo-nos de tretas, não houve, não há nem haverá futuro para a Educação contra os professores.
Como em devido tempo antecipei, aconteceu a sul-americanização da carreira docente. Desvalorizada. Proletarizada. Empobrecida.
Daí que, para início de conversa, importe resolver, sem mais demoras, a questão da devolução do tempo de serviço. Sem isso, não teremos paz nas nossas escolas.
Há quem proponha a devolução faseada, mas sem adiantar os seus exatos termos. Os professores não estão em condições de passar cheques em branco. Assim, a devolução, mais ou menos acelerada, não pode estar sujeita a qualquer condicionalismo. A devolução só deve ter uma consequência: o reposicionamento, sem outras condicionalidades acopladas. Ponto.
Em complemento, cumprirá concatenar a resolução de outros dossiês prementes:
- revisão do Regime Geral de Avaliação do Desempenho Docente, extirpando os garrotes das quotas e das vagas de acesso aos 5.º e 7.º escalões, que subvertem a progressão na carreira;
- revisão do o regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário, conferindo-lhe maior transparência, equilíbrio e, acima de tudo, democraticidade, apurando a lógica de checks and balances;
- revisão do regime de monodocência, versando, em concreto, o racional vigente de fragmentação organizacional e de compartimentação institucional do 1.º Ciclo. Urge, por isso, reparar, compensando, o esbulho generalizado de que têm sido vítimas os monodocentes;
- implementação de um robusto plano de desburocratização da ação docente, perseguindo, pela penalização, quem obstaculizar, ou torpedear, a simplificação que se impõe.
Esforço-me por ser um otimista bem informado. Por isso, não creio que a situação venha a conhecer melhorias substantivas. A aposentação (prevista) de milhares de professores, conjugada com o abandono de outros tantos, vai deixar as famílias e as futuras gerações num agonizante beco sem saída. Ao contrário dos médicos e de outras classes profissionais, igualmente vergastadas por políticas que promoveram uma descarada e brutal transferência de rendimentos do trabalho para os rendimentos do capital, no setor privado e no setor público, o poder de chantagem dos professores mede-se em gerações. E, com esta casta de políticos, a Educação estará condenada ao derradeiro sacrifício.
Temo que continuemos a ter um país inteiro a arrastar os pés na Educação.
José Manuel Alho




14 comentários
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Opção 1 claramente.
Ir votar em branco é gastar gasolina e perder tempo na fila para a secção de voto…
Como escolher o menos mau?
Artigo muito bom.
Na mouche.
A nossa democracia já abriu alas a toda a sorte de extremismos há muito tempo: pcp, pcp(m-l), udp, aoc, mrpp, lci, mes, psr, fup, be… é suficiente?
Ena pá! Eis-nos de volta a 1975. Pode acrescentar Fec (ml), Ocmlp, Prp (br) e, para estarmos mais atualizados, o excelente Chega.
Lá está a cartada do Chega… O bicho papão!
Mas, ao menos, têm propostas concretas: devolução de todo o tempo de serviço em 4 anos e eliminar as vagas ou barreiras de acesso aos escalões…
E o fim da escola pública!
Se ganhar a esquerda não haverá nada a dizer do português que reclama, mas só respeita quem o maltrata… Ficará tudo na mesma ou pior!
Depois venham pedir manifs e greves…
Votar no menos mau, porque não votar ou votar branco ou nulo significa continuar tudo na mesma, ou seja, uma m*.
A- a opção 3 de voto significa escolher o mal menor entre 2 (PS e PSD). Um fatalismo constrangedor que não existiria numa democracia genuína…
B- a devolução do tempo de serviço tem de ser simplesmente reposicionar: colocar no escalão correspondente ao tempo de serviço. E mesmo assim são perdidos dezenas de milhares de euros…
C- repor o ECD pré-2005.
Com estas 3 ações simples, motivam os que estão e talvez atraiam a geração mais nova.
Nem mais.
Até que enfim que é dito o que deveria ser.
O grande problema começou com o ECD de 2007 de Maria de Lurdes Rodrigues.
Para acabar com o problema é repor o ECD que havia antes de 2005!
Querem motivar jovens? Querem segurar que cá está? Então façam por isso.
Deixem de promover ultrapassagens. Coloquem as pessoas nos escalões remuneratórios onde deveriam estar!
Quem entrou em 2005 foi roubado em quase 3 anos de remuneração por não ter sido reposicionado no índice correto com as alterações ao ECD de 2007! Foram 3 anos de roubo puro de ordenado! Nada tem a ver com o congelamento. É simplesmente roubo!
Acabem com a avaliação de desempenho que é um nojo!
Reponham o ECD de 1998 que, esse sim, promovia a justiça!
Por amor da santa! Não votar não pode ser opção para os professores mas é exatamente o que os nossos carrascos socialistas (desde 2005, lembrem-se!) esperam de nós! Nestas eleições, um professor abstencionista é, indiretamente, um votante no PS!
Ide votar. Votem no menos mau, se for caso disso, mas votem, porra!
Esta leitura remete para votar no menos maus. E os menos maus, são os que defendem o reposicionamento imediato dos docentes no escalão devido sem ser reposicionamento faseado. E mesmo assim ficam a dever milhares de euros aos professores que ficarão nos cofres do estado, para serem gastos em mordomias pelo governo.
Tenham vergonha.
Votarei não no menos mau, mas no menos horrível.
Eles são todos horríveis, mesquinhos, hipócritas, incompetentes e só têm esperteza para serem diligentes em causa própria.
Faltou referir o estabelecimento do rigor na avaliação, da ordem nas escolas e da disciplina nas salas.