Em 10 anos 40.000 novos “escravos” de uma ideia de vinculação

 

Segundo este ensaio de Alexandre Homem de Cristo, nos próximos dez anos as vagas possíveis de “quadro” poderão ser superiores a 10.000. Uma visão “animadora” para quem tem a esperança de algum dia ser professor do quadro. Resta-nos saber em que condições isso pode vir a acontecer. Será que a municipalização em curso não terá nada a dizer? Será que a aposta na precariedade docente em relação a outros funcionários públicos continuará? Em que carreira serão esses “novos” docentes integrados? Há muitas questões por responder…  Mas isso serão outras lutas e pelo que tenho visto, ouvido e lido, ninguém está disposto a ir à luta por condições de trabalho. Têm a esperança que um lugar de quadro ou ao lado de casa tudo possa resolver. Enganam-se!!! Neste campo é o tudo ou nada, se assim não for continuarão escravos da incerteza, mas contentes e infelizes por serem Quadro de qualquer coisa.

 

So what? Cinco ideias a reter sobre o número de professores nas escolas

Primeiro: a redução do número de professores nos últimos anos, em particular sob o Programa de Assistência Económica e Financeira, foi muito elevada e não tem paralelo na administração pública. Em pouco mais de 10 anos, as escolas perderam 40 mil professores, forçando-as à adaptação a uma nova realidade de gestão de recursos e de organização interna. O que nem sempre se conseguiu alcançar em tempo útil, prejudicando as condições de trabalho dos professores e o ambiente nas escolas.

Segundo: a demografia conta, mas a redução do número de professores foi, antes de tudo, uma opção política de redimensionamento da administração pública da Educação. As contas são simples de fazer: a diminuição do número de professores superou (e muito) a diminuição de alunos, pelo que não é possível justificar uma coisa com a outra. O debate é, portanto, se essa opção política fez ou não sentido. Os dados comparados, a partir de rácios alunos/professor, sugerem que sim, mas não são suficientemente fiáveis para avaliações definitivas.

Terceiro: apesar da contestação de que foi alvo, a redução do número de professores no sistema educativo consolidou-se. Em queda há mais de 10 anos, com particular incidência nos anos da troika, os últimos anos foram de consolidação (e não de inversão da tendência) dessa redução de quadros da Educação. Ou seja, face à tendência actual de contratação e às políticas educativas em curso, a opção política não passa por regressar ao passado (i.e., recuperar os 40 mil postos de trabalho que desapareceram), mas sim por consolidar a redução que se aplicou, estabilizando-a.

Quarto: uma das consequências da menor contratação e redução dos quadros na Educação foi o crescente envelhecimento da classe docente. A situação actual é particularmente aguda, com cerca de um terço de professores em vias de se reformar no espaço de 10 anos. É uma realidade que se sentirá sobretudo ao nível do 2.º ciclo, do 3.º ciclo e do ensino secundário, com ênfase nas disciplinas principais (nomeadamente português).

Cinco: vai ser necessário vincular muitos novos professores aos quadros, para compensar as saídas de professores para a reforma – um número que, em 10 anos, pode ascender aos 40 mil professores. A situação é extremamente previsível e, no entanto, não parece existir uma estratégia para assegurar uma adequada substituição – em número e em qualidade da formação – dos professores que saírem do sistema educativo.

 

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5 comentários

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  1. Por mim isto resolvia-se facilmente, os contratados ameaçavam não concorrer ao próximo concurso, se todos o fizessem seria o caos nas escolas, mesmo que alguns “furassem” essa greve… o problema é “reunir as tropas” e perceber que percentagem estava disposto a fazê-lo, por mim já se devia ter feito isso há muitos anos… ou pelo menos colocar esse cenário em cima da mesa de negociações. Estes políticos só lá vão assim, nem com o Bloco e o PCP na geringonça as políticas se alteram, qual é então a esperança que resta? Nenhuma… nem o presidente fala disso… e a sociedade está mais que fora do assunto, é coisa que não lhes interessa, cada um está preocupado com o seu próprio umbigo!

    1. Há mais de 10 anos chegou a falar-se dessa sugestão (eu fui uma). Se, nessa altura, isso tivesse acontecido, não teríamos professores com 20 anos de serviço ainda a contrato, mas os sindicatos sempre assobiaram para o lado no que toca a lutas de contratados. Essa proposta agora é extemporânea e não faz sentido nenhum por causa da avalanche do amarelos. Os contratados não concorrem era o que eles queriam. E mais uma vez quem sofria as consequências eram os contratados da escola pública.

    • Joel Sousa on 3 de Maio de 2017 at 8:38
    • Responder

    Ai as “disciplinas principais”, como se a diversidade curricular não fosse fundamental para o completo desenvolvimento dos nossos alunos…

    • Joana Sousa on 3 de Maio de 2017 at 17:40
    • Responder

    Existe um enorme envelhecimento no Corpo Docente que ocupa os quadros dos diferentes Agrupamentos Escolares. Este envelhecimento é mais notório nas Grandes Áreas Urbanas de Lisboa e Porto.

    Isto constitui um problema muito sério que urge resolver. Não é desejável, nem possível manter este estado de coisas nas Escolas.

    Mas se isto é verdade, também o é o facto de existirem mais de 30.000 professores contratados que ano após ano andam a tapar buracos sem qualquer tipo de estabilidade profissional e pessoal.

    Não é possível continuar a adiar a resolução deste problema da Escola actual.

    Os professores mais novos são levados ao desencorajamento e a desistir de prosseguir a via profissional do ensino e começam a optar por outras soluções profissionais. Por outro lado, os docentes mais velhos com 60 e mais Anos de Idade encontram-se agastados, exaustos, desmotivados e à espera de uma saída com dignidade do sistema de ensino.

    Cabe ao Governo olhar urgentemente para esta realidade.

    • António on 3 de Maio de 2017 at 17:47
    • Responder

    A solução para o problema do envelhecimento dos professores é a existência de um Regime Especial de Aposentação para os docentes.

    Na função pública já existem alguns regimes especiais para os Militares, GNR, PSP, Policia Marítima, Policia Judiciária…..em que aos 60 anos Reformam-se. No caso dos Militares e da GNR aos 55 Anos de Idade passam à Reserva (isto é, vão para casa) e aguardam o momento da aposentação (60 Anos de Idade).

    No sector privado também existem regimes especiais de aposentação de que são exemplo as Bordadeiras da Madeira, controladores de Tráfego Aéreo…..

    Qual a razão dos professores não terem um Regime Especial de Aposentação??????

    http://www.spn.pt/Media/Default/_Profiles/4876592e/e26936e7/40anos.JPG?v=636111063806084844

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