Andreas Schleicher: “Portugal é a maior história de sucesso da Europa no PISA”

O diretor de Educação e Competências da OCDE, que participa hoje, com vários ex-ministros da Educação portugueses, num debate no Liceu Camões dedicado à evolução do país nos testes PISA, não poupa elogios aos progressos nacionais desde 2000. Mas é igualmente acutilante a apontar as fragilidades que o país ainda tem de ultrapassar, a começar pelas elevadas taxas de retenção e o facto de estas afetarem sobretudo alunos oriundos de contextos mais carenciados, defendendo a mobilização dos professores.

 

Nos últimos testes PISA, pela primeira vez, os alunos portugueses ficaram acima da média da OCDE. Na sua opinião, o que levou a estes resultados?

 

Foi um longo progresso que Portugal fez. É a maior história de sucesso na Europa. Não é uma coisa que possamos associar a um período específico. Começou no ano 2000 e muitas coisas contribuíram. Podemos olhar para algumas reformas estruturais, a parte complexa de consolidar a rede escolar, que no passado tinha escolas antigas, muito pequenas e com poucos alunos, que não tinham as oportunidades que lhe são dadas hoje. Essa foi uma mudança difícil mas que seguramente contribuiu. Também o enfoque na qualidade do ensino. Não creio que a situação da profissão docente já seja aquela que se pretende mas Portugal deu mais atenção a formas de atrair pessoas talentosas para a profissão, a apoiá-las melhor. Há também mais enfoque, mais rigor e coerência nos currículos escolares, tornando mais claro o que significa uma boa prestação.

 

Outros países evoluíram com mais altos e baixos no processo…

 

Portugal tomou algumas decisões difíceis às quais outros países se esquivaram. A consolidação da rede escolar é uma coisa necessária em muitos países mas poucos têm a coragem e a liderança para a levar avante.

 

Em Portugal é frequente diferentes governos criticarem a política educativa dos antecessores. Até há quem defenda, por isso, a necessidade de um pacto na educação. Afinal, somos mais consistentes do que pensamos?

 

É verdade que houve algumas diferenças nas orientações mas muito menos do que em muitos outros países . De facto, penso que Portugal foi bastante mais coerente nesta evolução. Quando olhamos para a França ou para a Espanha, esses países foram muito mais voláteis em termos de politizar a educação. Julgo que Portugal resistiu a essa tendência. Houve coisas na margem – exame sim, exame não – , mas não houve mudanças que afetassem os pilares da educação. E a educação só pode progredir dentro dessa coerência. Exista a reforma pretendida, a implementada e a alcançada, e Portugal tem tido sucesso a alcançar o que pretende. É claro que faltam fazer mudanças importantes, sobre isso não há dúvidas.

 

A propósito de mudanças necessárias: continuamos com a retenção muito elevada. Este é um desafio que implica mudar mentalidades?

 

Sim, a percentagem de alunos com insucesso ainda é muito elevada e penso que a resposta passa por conseguir que os professores percebam melhor que os alunos aprendem de forma diferente, e que consigam apoiar os alunos de forma mais individualizada. A retenção baixou ligeiramente mas continua a ser muito alta. E retenção é um sintoma de que o professor não consegue ajudar o aluno, deixando-o fazer a mesma coisa outra vez. É caro, ineficaz e estigmatiza. E, no caso de Portugal, os alunos que repetem o ano nem sempre são os que têm mais dificuldades de aprendizagem, mas tendem a ser os mais desfavorecidos. O que se deve desejar é um sistema que diagnostica precocemente as fraquezas dos alunos – e os professores são muito bons a reconhecê-las – e intervém. No Vietname, os 10% de alunos mais pobres, que vêm de contextos muito difíceis, têm resultados tão bons como o aluno médio.

 

O sistema educativo português teve de massificar-se rapidamente, após a revolução de 1974. Isso pode explicar alguma falta de flexibilidade?

 

Sim, mas não estão sozinhos. Essa expansão aconteceu em muitos países. A Coreia, nos anos 1960, o Vietname, que nos últimos 20 anos triplicou a participação e, ainda assim, teve capacidade alcançarem sucesso com alunos carenciados. Em Portugal a influência desses fatores [de contexto] ainda é muito forte. É uma das áreas em que ainda não vimos muitos progressos.

 

Hoje, todos olham para o topo do PISA em busca de exemplos. Mas há filosofias quase antagónicas, como alguns estados asiáticos, que cultivam muitas horas de trabalho, e a Finlândia, que dá mais liberdade aos alunos. Qual é o denominador comum do sucesso?

 

Eu vejo muito mais pontos em comum do que diferenças. O primeiro tem a ver com o valor que a sociedade atribui à educação. Ninguém questiona o investimento na educação. Segundo, há uma crença muito enraizada de que todos os alunos podem ter sucesso. Não há tolerância para o insucesso. O professor pensa em como adaptar-se às dificuldades do aluno e não em chamar os educandos ao seu estilo de ensino. E em terceiro lugar a capacidade desses sistemas para tornarem o ensino atrativo. Não é só uma questão de salários, não é só tornar a profissão financeiramente compensadora, mas também intelectualmente atrativa.

 

Fora do tema: Betsy DeVos, conhecida como ativista da livre escolha da escola, foi nomeada ministra da Educação dos Estados Unidos. O que esperar?

 

É muito difícil de prever. A Educação dos Estados Unidos já está em muito má forma. Não temos visto os progressos desejados. Em Portugal, tendo em conta o contexto económico dos últimos 10 anos, podemos dizer que o país fez um milagre. Nos Estados Unidos têm todo o dinheiro que se imagine e os resultados em matemática são piores do que os portugueses. A livre escolha dificilmente será a resposta para todos os problemas, mas de que o sistema de escolas dos Estados Unidos precisa de uma reforma significativa, não há dúvida.

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