Fortaleza (in)expugnável

Às vezes atravesso estes corredores e questiono-me quantas pessoas o fizeram antes de mim e quantas mais se seguirão.

A escola é, na verdade, não mais do que um lugar de passagem efémero, ainda que o que de lá trazemos possa perdurar uma vida inteira.

Existem, contudo, algumas pessoas que consideram este espaço sagrado como a sua fortaleza pessoal, inexpugnável e inacessível para tantos.

O senhor diretor decidiu exatamente isso. Que esta casa é exclusivamente sua e, por isso, as regras são as que decide.

É possível que o senhor diretor tenha um bigodinho à moda antiga, daqueles que promovem tiques e criam impérios sanguinolentos, ou é possível que seja um bigodinho simplesmente psicológico, revelado por gestos impositivos e palavras grandiosas.

Também é tremendamente provável que esta caixa forte nada mais seja do que a sua oportunidade de saltar para outro lado, a avaliar pelo beija-mão que se adivinha a qualquer momento.

Ultimamente, porém, o senhor diretor decidiu criar e impor uma regra brilhantemente inusitada. Escudado pela vinda da IGEC que fez a avaliação externa, reuniu o rebanho próximo do matadouro e selecionou os cabritos mais tenros.

Avizinhava-se a Páscoa, está visto, os sacrifícios em prol do sucesso são sempre justificáveis.

Enquanto cofiava o bigodinho, provavelmente psicológico, proclamou, então, que iria ele próprio, em pessoa, assistir às aulas dos professores contratados. Exclusivamente estes, pois a prata da casa já tem o cabresto apertado e de nada vale rebaixar quem já anda com o focinho rente ao chão.

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O rebanho ainda uivou descontentamento, porém, o senhor diretor, homem vil e pequenino de altura espiritual, ergueu-se nos biquinhos do pés e apontou para a Bíblia da avaliação externa cujas orientações da IGEC são letra de lei e proclamou terminada a reunião. Silenciou a audiência e qualquer questão que houvesse no Pedagógico ou no Conselho Geral.

Tem grande poder de interpretação e de persuasão, o homenzinho, não haja qualquer dúvida.

Inevitavelmente, a bicharada prossegue esperançada que Cristo ressuscitado os socorra neste momento de aflição. Estão ainda à espera, e esperarão muito mais tempo, pois a autonomia desta casa é um inexpugnável forte.

E o senhor diretor sabe exatamente o que faz, pois no lugar a que ascendeu não há quem o atormente que não seja logo perseguido e silenciado.

Uma pessoazita sábia, este senhor diretor, está bem de ver. Ataca o flanco dos mais fracos para assegurar cedo o sucesso do ano que vem.

Afinal, há que pensar de forma antecipadamente visionária, há que escutar quem sabe tornar forte a fraca gente.

Sorte grande saiu a estes cabritinhos contratados que, no próximo ano letivo, serão todos louvados pelo seu sacrifício e reconduzidos de volta à casa forte…

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1 comentário

    • Jose F M Bernardo on 30 de Março de 2016 at 19:56
    • Responder

    …felizmente conheci bons diretores de escola que não têm nada haver com estes atuais tipo maizena – quanto mais se mexem, mais cresce o carreirismo pessoal que atrofia a liberdade de ser um melhor professor!

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