Mulheres em flor

Minha mãe nasceu numa aldeia tão pequena que, durante anos, não teve direito a ser inscrita num mapa. Era um lugar perdido, onde a pobreza tinha o rosto da fome e as mulheres entretinham os nascituros deixando-os chupar as mamas secas de leite, enquanto carregavam à cabeça a bilha desde a fonte.

Cada nascimento era um milagre, pois a sobrevivência começava logo com a queda no chão de terra, normalmente junto à lareira tosca, onde se ferviam panos e água, enquanto o marido raspava, contrafeito, os restos do jantar.

As mulheres ajudavam-se como podiam, criando uma cumplicidade firmada pela dor e pelo desespero. Havia ladainhas e espíritos santos soprados nas entrelinhas dos dias intermináveis e uma idosa que eternamente contava histórias surpreendentes e anedóticas aos mais jovens, perpetuando uma tradição que se viria, mais tarde, a esfumar num sopro.

Os filhos, à dúzia bem contados, iam crescendo na luz de candeias ténues, correndo de pé descalço para uma escola que apenas os ensinava a ler, escrever e contar. Era quanto bastava para se fazerem à vida.

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Muitos, como minha mãe, partiram, cansados da desesperança e da terra tantos meses infértil.

Inúmeras dessas mulheres de outrora despediram-se de seus maridos, crescendo o luto e diminuindo o espaçamento no cemitério, e a aldeia mergulhou, também, no esquecimento.

Hoje observo, nas ruas da minha cidade, as mulheres com quem me cruzo – umas de rostos alvos, agarrando a esperança de frente, destemidas e audaciosas na forma como caminham; outras de cabeça baixa, a desgraça ainda a servir-lhes de manto, costas arquejadas de medos e limites.

Apesar disso, estamos tão distantes desse tempo ancestral e somos tão maravilhosamente diferentes dessas mulheres que povoaram a memória de minha mãe… Algumas tão poderosas, outras tão fragilizadas por esta vida.

E, apesar disso, é importante recordar que se aqui chegámos, mesmo a infelicidade que exibimos como direito, foi porque um dia, houve uma mulher, algures perdida nesse mundo fora, que disse não, que bradou aos céus que fazia e fez.

Mesmo que isso lhe tenha custado a vida.

As vozes distantes de todas essas mulheres longínquas e maravilhosas ecoam dentro de cada uma de nós.

Saibamos nós ouvi-las e fazer do seu esforço secular a nossa esperança.

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6 comentários

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    • Cielita on 8 de Março de 2016 at 17:40
    • Responder

    Que mais acrescentar?
    Tenha um dia cheio de esplendor…

    • Fafe on 8 de Março de 2016 at 20:29
    • Responder

    Concordo com a acusação; mas não, nunca, que o que seja escrito seja boçal.
    Escrever sem respirar é complicado, pior será o “fazia”.
    E a Língua soluça sempre que se soluça numa língua apropriada.

      • Ana Lima on 8 de Março de 2016 at 22:22
      • Responder

      Ó Fafe, seria possível colocar um tradutor por bx dos seus posts?? É q anda mesmo lost whithout translation…

        • Fafe on 9 de Março de 2016 at 20:14
        • Responder

        Seria. Mas para que precisaríamos de tais necessidades?
        E o modo de eu andar não é tão precioso quanto quem escreve e reescreve e, ainda assim, é aplaudido por quem não sabe ler.

      • Cielita on 8 de Março de 2016 at 23:38
      • Responder

      Obviamente, haverá sempre algo a acrescentar… Nem que sejam retalhos.
      Redimo-me da pergunta que deixei a pairar… Entendidos? 🙂

    • Fafe on 8 de Março de 2016 at 20:40
    • Responder

    O “mulheres em flor” não vai lá com gays, lamento.

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