Não se ensina uma criança a andar cortando-lhe as pernas

 

A incidência e influência do smartphone e da Internet na geração Z são inegáveis, como demonstra à exaustão Jonathan Haidt n’ A Geração Ansiosa (D. Quixote, 2024). A melhor solução será retirar os telemóveis da escola? Impedir as crianças e adolescentes de os usarem? Não estaremos a tentar resolver um problema – que é real – com um problema ainda maior?
A indústria e o mercado acabarão, mais cedo ou mais tarde, por decidir pela escola. Os grandes problemas nunca são criados nem resolvidos no seu interior. As grandes soluções vêm de fora. A escola, em todo o mundo, é hoje um dos mercados mais apetecíveis. É o espaço onde passa e permanece toda humanidade. As soluções erradas são muitas vezes um excelente negócio. O caso dos surdos é um bom exemplo. No fundo é um problema de mercado.
Por um lado, as novíssimas tecnologias e a IA são a resposta mais poderosa para o crónico e grave problema de um ensino igual e uniforme para pessoas tão diferentes. Por outro lado, o saber, todo o saber, outrora privilégio exclusivo dos professores, está hoje todo online e à distância de um clique, o que permite libertar o professor de repetir vezes sem conta as mesmas lições para se concentrar mais nas pessoas dos alunos, respondendo mais e melhor aos problemas de cada um. Estão criadas as condições para a maior autonomia dos alunos, a iniciativa, a curiosidade, o espírito crítico. Os aprendentes têm agora a oportunidade de deixar de ser meros gravadores de som, meros discos de memória, sempre limitada, para assumirem o papel de autofalantes e altifalantes, com voz própria. As motivações e talentos de cada um encontram agora respostas e descobertas que o ensino tradicional não podia oferecer.
Retirar da escola o acesso direto ao saber disponível online é estimular o regresso ao ensino oral, expositivo, repetitivo, enfadonho e pouco eficaz da escola tradicional. É voltar ao séc. XIX. É verdade, as crianças precisam de brincar, de jogar, de exercitar o corpo; de relações pessoais que estimulem os afetos, o sentido de cooperação e de solidariedade; precisam de amigos verdadeiros, de carne e osso, e não apenas de amigos virtuais, desconhecidos e voláteis, como defende Haidt na obra referida. O diagnóstico de Haidt é perfeito, mas o “Guia de tratamento” está errado. É preciso promover e programar a escola como espaço para o crescimento saudável, física e mentalmente, de relações humanas saudáveis e permanentes, mas não pode ser à custa do sacrifício e do desprezo da maior fonte de enriquecimento que conheceu até hoje. Como refere insistentemente o mesmo autor, a criança tem de aprender a enfrentar e a superar os problemas. Este é apenas mais um. É aí que devem centrar-se as apostas do presente.

 

José Afonso Baptista

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6 comentários

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    • Francisco on 21 de Setembro de 2024 at 14:19
    • Responder

    Até concordo. Como tudo na vida, é ensinando a lidar com os problemas que eles se evitam junto dos jovens e das crianças.
    Mas acho que se está a generalizar demais a proibição.
    Ninguém proíbe o professor de pedir aos alunos para que no dia x ou na semana x tragam o telemóvel para se usado nas aulas como recurso.
    Só quem nunca foi professor no tempo dos telemóveis não sabe a praga que eles são nas escolas: fonte de distração e conflitos nas aulas, de bullying e isolamento nos recreios. De alienação geral e consumo de pornografia sem supervisão parental. Etc. Etc.

      • ECCT on 21 de Setembro de 2024 at 17:18
      • Responder

      👏🏻👍🏻

    • Ulme on 21 de Setembro de 2024 at 16:09
    • Responder

    Uma coisa é usar o smartphone,tablet ou computador na aula para produtividade.

    Outra é usar na escola para lazer.

    Quer lazer digital use na TV rua ou em casa.

    Mas será que ninguém percebe isso?

    • PF on 21 de Setembro de 2024 at 16:20
    • Responder

    Mais um idiota que não faz a mínima ideia sobre o que está a falar. Mais um alienado da realidade escolar.

    • Tui on 21 de Setembro de 2024 at 18:08
    • Responder

    Por todo o lado emergem estudos sobre os efeitos quer dos smartphones quer das redes sociais, nas aptidões mentais e sociais das pessoas. Depois vem um pobre de espírito saudosista dos anos 90 onde se gabava o futuro digital que lá vinha. O espaço mediático está cheio de imbecis deste quilate, panglossianos sem ideia do que falam.

    • Luís Miguel Cravo on 24 de Setembro de 2024 at 0:10
    • Responder

    A estultícia deste indivíduo é dolorosa….. Dá pena o grau de obtusidade que corre na verborreia que, a todo o custo, cheira àquele modernaço novo rico, com citações manhosas da net e quezandos. Causa – lhe espécie que os países mais ricos do planeta estejam a marimbar – se para a sua apologia das multinacionais high tech? Está um pouco assustado, não? Isto estava a correr tão bem, não era? Um belo caminho para a Desumanização? Não perde por esperar. Haverá de engolir o fel que este freakshow lhe permite verbalizar. Haveremos de o ver. Não se esqueça. Escreva sobre bordados, entretanto. Percebe melhor disso, seguramente, do que Educação.

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