A descida dos salários dos Professores

A descida dos salários dos Professores

 

Com a discussão centrada na reposição do tempo de serviço, o país carece de vontade política capaz de tornar a carreira docente mais atrativa e colmatar a escassez de professores recém-formados.

 

Compensa Ser Professor em Portugal?

De 2009 a 2023 o salário líquido real dos professores diminuiu 21.1% para o 1º escalão e 23.4% para o 9º escalão, como se vê na Figura 1. Esta descida não se deveu só aos anos da Troika. Durante o período 2015-2023, que compreende os Governos de António Costa, o salário líquido real dos professores desceu 5.8% para o 1º escalão e 1.6% para o 9º escalão.

 

Subsídios em Duodécimos

A Figura 1 inclui os subsídios de Natal e de férias. Caso contrário, não seriam visíveis os cortes em 2011 e 2012, em que foram pagos 13.5 e 12 meses, respetivamente.

Além da descida dos salários, nos últimos 15 anos houve também uma compressão dos salários dos professores com o salário mínimo (Figura 1). Enquanto em 2006 um professor em início de carreira recebia um salário 174% acima do salário mínimo, hoje em dia ganha apenas 61.8% mais. A compressão não só retira prestígio à carreira docente, como também diminui o valor relativo do diploma de um mestrado de ensino. Ou seja, o retorno que um estudante obtém do mestrado é menor comparativamente a outras opções.

Tanto a descida dos salários por escalão quanto a aproximação destes ao salário mínimo contribuem para a descida da atratividade da carreira docente. Por sua vez, a baixa atratividade reflete-se no baixo número de professores formados nos últimos anos.

Um Sistema em Apuros

O sistema de ensino português enfrenta uma situação crítica de renovação. O índice de envelhecimento dos docentes atinge recordes (DGEEC e DSEE 2022). Nunes et al. (2021) estimam que 39% dos docentes empregues em 2018/19 reformar-se-ão até 2030/31. O mesmo estudo projeta que, durante o mesmo período, o número de alunos matriculados nas escolas públicas reduzirá cerca de 15%.

 

Logo, há uma clara necessidade de contratação de professores. Nunes et al. (2021) estimam que terão de ser contratados 3450 novos docentes por ano até 2030/31, em média. No entanto, no ano letivo 2019/20 foram formados 1674 professores, um número muito aquém da meta (Figura 2).

É verdade que a evolução do número total de recém-formados é pouco animadora. Porém, o problema vai além deste indicador. O número total é a soma de todos os cursos. Se desagregarmos, vemos que há ramos do ensino que são mais afetados pela falta de professores.

Por exemplo, dos 1674 diplomados em 2022 só 299 tinham habilitações para dar aulas ao ensino secundário e 3.º ciclo. Desses 299 quase metade são habilitados para história e Geografia (Figura 3). Logo, há áreas como Matemática, Português e Física e Química onde a situação é particularmente grave, como é visível na Figura 3. A falta de professores nessas disciplinas não pode ser colmatada com professores de outras áreas.

Esta ideia é reforçada pela Tabela 1, que expõe os casos mais alarmantes ilustrados na Figura 3.  O mais chocante é o de Física e Química, disciplina para a qual, nos últimos quatro anos, Portugal só formou 27 professores.

Tempo de Agir?

Perante uma escassez de oferta, os mercados tendem a ajustar através da subida de preços. Neste caso, o preço é o salário pago aos professores. No entanto, conforme revela a Figura 1, não tem sido essa a decisão tomada pelos últimos Governos.

Mais ainda, o foco da discussão nacional não está em aumentar a atratividade da carreira docente. A proposta mais discutida é a reposição integral do tempo de serviço dos professores. Na verdade, todos os partidos com representação parlamentar já sinalizaram algum tipo de apoio a esta medida, diferindo apenas no horizonte temporal da reposição.

A proposta é apresentada como um contributo para aumentar a atratividade da carreira docente. No entanto, não aumenta o salário de novos entrantes, nem acelera a sua progressão na carreira. Ao invés disso, a reposição simplesmente promove professores já docentes. Portanto, é esperado que tenha um impacto quase nulo na atratividade da carreira. Se as mesmas verbas fossem alocadas a um aumento de salários por escalão haveria um maior incentivo para os jovens que querem ser professores em Portugal ingressarem nessa carreira.

Além disso, como a Figura 3 demonstra, o problema da futura falta de professores é heterogéneo: não afeta todas as áreas de forma igual. Fica claro que a disciplina de Física e Química irá passar por uma maior crise do que História e Geografia. No entanto, nenhum partido político em Portugal defende que os salários (ou outras condições) variem consoante a área de especialização do docente.

Perante estes factos, e com a discussão política centrada na reposição do tempo de serviço perdido durante os anos da Troika (uma medida que não afeta o salário de novos entrantes), o país carece de vontade política capaz de tornar a carreira docente mais atrativa e colmatar a escassez de professores recém-formados.

Clique para aceder ao anexo técnico

Referências
DGEEC, e DSEE. 2022. «Perfil do Docente 2020/2021».
https://www.dgeec.mec.pt/np4/98/%7B$clientServletPath%7D/?newsId=148&fileName=D
GEEC_DSEE_2022_PerfilDocente202021.pdf.
Nunes, LC, AB Reis, P Freitas, M Nunes, e JM Gabriel. 2021. «Estudo de diagnóstico de
necessidades docentes de 2021 a 2030». Lisboa: NOVA-SBE.
OECD. 2023. Education at a Glance 2023. https://doi.org/10.1787/e13bef63-en.

 

 

 

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12 comentários

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  1. Não importa a qualificação… que importa ter mestrados em ensino e/ou doutoramentos?… se o que conta é o tempo de serviço para ser-se efetivado, wow que motivação para estudar..
    Puff….de mal a pior tomara sair já.

      • Zé Tone on 5 de Abril de 2024 at 21:32
      • Responder

      Calado estavas melhor idiota. Vê se que a tua motivação era ultrapassar os outros todos, mais velhos e com mais anos de experiência por sinal, com o teu mestrado ou doutoramento de porcaria.
      Por aqui percebemos a índole que te corre nas veias.

        • Relvas, o licenciado com tempo de serviço on 6 de Abril de 2024 at 9:16
        • Responder

        E a tua licenciatura de vão de escada?
        Vai estudar, relvinhas, em vez de esperares que o tempo passe.

      • Pedro on 7 de Abril de 2024 at 13:09
      • Responder

      Doutoramentos para dar aulas? É por estas que o país não produz nada. Gastam-se milhares em euros, em horas, em recursos para quê? Para acabarem a dar umas aulinhas. Não conseguem produzir nada? Não conseguem empreender? Assim não vamos lá – habilitações a mais para aturarem os filhos dos outros. Já para não falar no caráter da pessoa… que só porque não sabe fazer mais nada para além de estudar coisas inúteis, pensa que é melhor que os outros.

    • Peace Alho on 5 de Abril de 2024 at 22:01
    • Responder

    Aí está um estudo que desmente o mantra xuxalista…

    • Zé Manel on 5 de Abril de 2024 at 22:09
    • Responder

    Até era uma carreira interessante, antes de os governos do PS a transformarem num emprego de m3rda que ninguém quer… Ora aí está uma boa oportunidade para todos aqueles que diziam que isto é só direitos e férias. Aproveitem! Estudem e concorram para esta carreira de sonho porque não faltam vagas.

    • andrelara on 6 de Abril de 2024 at 1:40
    • Responder

    Chutar para canto…resolvam o problema atual (afinal a atrabilidade de uma carreia também passa muito pela credibilidade do que é assumido pelo “patrão”) e depois pensem na atrabilidade para os possíveis “newcombers”…ou a politica educativa é um trator que arrasa quem está, a pensar nos “amanhãs que cantam (neoliberais)”..?

      • Atrabilio on 6 de Abril de 2024 at 19:34
      • Responder

      Pois…

    • Teresa on 6 de Abril de 2024 at 9:30
    • Responder

    Em suma estou no 7° escalão desde Janeiro de 2023, mas só o soube este ano e recebi retroativos em Fevereiro.
    Daqui a uns dias faço 64 anos, sem qualquer esperança de uma reforma no topo da carreira, algo que lutei toda a vida. Estou farta de lutas e já não acredito em nada. Reforma é o que quero, porque não tenho condições para morrer em serviço.

      • Alberto Madeira on 7 de Abril de 2024 at 22:43
      • Responder

      Coitado! É uma das excluídas da sociedade mundial!!! Tenha vergonha! Seja solidária! Não veja apenas o seu umbigo!

    • Gardner on 6 de Abril de 2024 at 12:08
    • Responder

    Apesar das razões factuais do texto – é mesmo preciso subir os ordenados de pessoas especializadas em paridade com as competências adquiridas.
    Não deixa de ser verdade que a reposição do tempo de serviço repõe a moralidade no sistema, embora sem retroativos. É preciso terminar imediatamente com os bloqueios ao acesso aos 5 e 7 escalões… Outra grande imoralidade!

    • eeKSAHD on 7 de Abril de 2024 at 22:45
    • Responder

    MERDOSA! TEM VERGONHA, PALERMA!

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