«Tenha em mente que tudo que você aprende na escola é trabalho de muitas gerações (…); receba essa herança, honre-a, acrescente a ela e, um dia, fielmente, deposite-a nas mãos de seus filhos». (Albert Einstein)
É função da escola humanizar, ensinar às crianças e jovens estudantes o conhecimento, o caminho, como o mundo é, preparando os alunos para o amanhã que os espera e no qual vão ser decisores, enquanto futuros adultos em plenitude e exercício de uma cidadania responsável e interventiva.
A educação, o ensino, a aprendizagem e os valores transmitidos, partilhados e descobertos na escola, são a súmula do trabalho e parceria família-escola, casa-escola, governo-sistema educativo, professor-aluno. Para resultar, tem de haver o ambiente contextualizado do princípio colaborativo, senão falha, mesmo com professores «embriagados de amor» (Nildo Lage) pela arte de ensinar o património intelectual e o saber inter-geracional humano.
A escola invertida está nas antípodas da escola tradicional; inverte a dinâmica rotino-costumada da sala de aula, assumindo a premissa do trabalho motivacional pessoal, responsável e colaborativo do aluno. É uma inversão (i)lógica do modelo de aula, de metodologia activa, em que se passa do modelo tradicional de aula expositiva centrada no professor, para o modelo de sala de aula invertida, «flipped classroom», focada no educando, o que implica trabalho de casa dos alunos, com auto-aprendizagem de conteúdos e conceitos, sem acompanhamento do professor, recursos virtuais e salvatério da ferramenta de trabalho que é a tutoria digital. As dúvidas são tiradas nas aulas pelos docentes. Uma utopia teórico-pedagógica de disfunção prática provada, pela simples razão da não disponibilidade dos alunos para trabalhar, na actualidade presente, hoje.
Paradigma, filosofia e cânone de escola apenas explicado por um absoluto desfasamento da realidade escolar hoje, por parte das iluminárias do Ministério da Educação (ME) e desconhecimento ignaro ficcionado do público-alvo em dessintonia e negação hiperbolizante – os educandos.
Num modelo de escola a tempo inteiro, supor a veleidade de trabalho de casa acrescido com materiais, leituras, pesquisa e visionamento web, tutoria digital aprofundada, etc., é de comportamento sistémico néscio e imprudência política gritante. Mais o fantasiar depois na sala de aula de práticas e habilidades alternativas, apresentação (in)cumpridora dos trabalhos «caseiros» discentes, com debates, discussão e avaliação inter-pares, é no mínimo um exercício de ingenuidade, pensamento simplório, fé e milagre. Para mais com o grave problema da (não) inclusão educativa e do crescente número de alunos não lentes nem escreventes, frequentadores da escola-ensino básico obrigatório; com certificado de frequência e não com validação certificada de aproveitamento e competências. E não há motivação lúdica e on-line, jogos e gamificação, vídeo-aulas, webquests, quizzes e podcasts que o valha. Tendo como resultado o falhanço clamoroso deste tipo de ensino híbrido, em que o professor é um mediador da aprendizagem, aplicando dinâmicas, tirando dúvidas, estimulando o aluno à busca e descoberta, questionamento e mergulho no mundi scientia. Só que não resulta mesmo. Os resultados axio-humanos negativos e escolares reais do pedagogismo-didactismo da escola invertida, são uma infeliz realidade demonstrada à saciedade. É esta a triste realidade. Não o admitir é estar-viver em estado de negação.
A escola ao contrário, descurou a dimensão humana docente da educação e valorou-enveredou por um ensino esco-digital-tech desumanizado. Trocou a dialéctica humana (caminho entre as ideias – do grego dialektiké) pelo interface tecnológico humanóide. Abjurou a humanista díade dialéctica professor-aluno, em perda para a escola IA Gen. Permutou a re-humanização da escola tradicional natural, agora minimizada e minimalista, pela escola criptonizada do professor-algoritmo maximus. Donde, só poderia resultar toxicidade e desconexão, leia-se insucesso escolar real à vista de todos nós. É nefasta a ideia-filosofia errada da abordagem sistémica vigente do trabalho dos alunos e de uma escola sem esforço, de satisfação permanente, adaptação a vontades e felicidade hilariante. Ora, o paradigma de escola é o contrário de tudo isto. A escola é igual a trabalho, estudo, esforço e dedicação.
Para a posteridade, a talhe de foice, sublinhamos dois dos graves problemas que atormentam a escola pública invertida neste presente e difícil momentum: tendo a ver com o problema-modelo de aprendizagem, e com a felicidade permanente e em permanência dos alunos. A percentagem elevada da numerologia do pseudo-sucesso educativo milagreiro das iluminadas medidas de recuperação e suporte às aprendizagens, a nada cooperante, (in)activa e (es)forçada não dedicação estudantil à causa da aprendizagem escolar, finalizam na meta-felicidade do estrondoso sucesso burocrático-estatístico da escola-digi-tech IA Gen do consulado socialista. É que ninguém ensina quem obstaculiza nem quer aprender.
Ficam as seguintes citações que falam por si mesmas, para reflexão, introspecção, interiorização e decisão do poder político.
«Contrariamente a outros profissionais, o trabalho do professor depende da colaboração do aluno: “um cirurgião opera com o doente anestesiado e um advogado pode defender um cliente silencioso, mas o sucesso do professor depende da cooperação activa do aluno” (Labaree, 2000). Ninguém ensina quem não quer aprender. Em 1933, John Dewey sugeriu, numa comparação provocatória, que do mesmo modo que não é possível ser bom vendedor se não existir alguém que compre, também não é possível ser bom professor se não houver alguém que aprenda». (António Nóvoa, Espaços de educação, Tempos de formação, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, pp.237-263)
«A missão da escola não é fazer os alunos felizes, mas sim (…) dar-lhe instrumentos para a construção da sua própria felicidade, além de, como citava T. S. Eliott, fornecer-lhes os meios para ganharem honestamente a vida e equipá-los para desempenhar o seu papel como cidadãos plenos numa democracia. Para isso a escola deve desenvolver o necessário equipamento cognitivo e muscular as qualidades indispensáveis para estas tarefas, preparando-os assim para a luta do mundo. A minha tese é, pois muito simples: a escola fácil não cumpre a missão de preparar os alunos para a vida difícil» (João Lobo Antunes, 1944-2016, neurocirurgião, professor universitário, escritor)
A escola protótipo de padrão invertido, mais aumenta a frustração docente decorrente do facto avesso da tutela interverter o real papel, sentido e logicidade da escola, não deixando os professores serem profissionais e adulterando negativamente a ideia de uma pseudo-escola que (im)prepara para a vida. Na vida nem tudo são rosas; as rosas têm espinhos. As dificuldades e o difícil fazem parte da vida; e a escola, pela sua intrínseca natureza, não se coaduna com o fácil, as facilidades e o facilitismo – fazê-lo é o abastardamento de negá-la e matá-la.
Esta escola invertida do digital virtual e da inteligência artificial de atrofia cerebral e entropia neuronal e das sinapses – no sentido figurado da desordem, contingência acrítica e irreversibilidade de um processo rasante de pensamento, com ausência humana e sem naturalidade, ensina a pensar? E, aonde pára a dimensão cérebro-mental, de capital importância e principal tarefa do professor que é ensinar a cogitar e despertar os seus alunos para a reflexão e o questionamento? Em suma, a leccionação e a cumplicidade pessoal-dual para motivar e incutir no aluno a necessidade para o pensamento e raciocínio crítico, ler em papel, escrever manualmente, treino intelectivo e interacção humanizante.
A construção política da infelicidade e disfuncionalidade professoral e a crio-invenção da felicidade discente na escola invertida, contribuiu decisivamente para a fragilização e queda de uma escola pública que perdeu qualidade por culpa ministerial. A inversão negativa identitária da escola e desconstrutora da idiossincrasia docente, fere de morte o desempenho dos professores, com políticas e reformas educativas contrárias e ao arrepio das boas e eficientes práticas. «Negando» o recurso do professor a uma miríade de métodos e abordagens. E não, não está esgotado o modelo do professor emissor e do aluno receptor – é intemporal. E o sistema deixa o professor ser professor?! (…)
As ferramentas para a construção de uma «happy school», que eduque para a «science of happiness» da «non-flipped public school», só é possível com a postura de um ME ao lado e não contra os trabalhadores didactas que tutela. Não interferindo no modus operandi pedagógico-didáctico dos professores, trabalhadores profissionais especialistas de e em educação.
«Escola é, sobretudo, gente, gente que trabalha, que estuda, que se alegra, se conhece, se estima». (Paulo Freire)
Disse.
Carlos Almeida




12 comentários
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Excelente texto que deveria ser estudado e alvo de reflexão pelos idiotas que, no ME, impõem aos trabalhadores docentes certas ideias peregrinas tão idiotas como eles próprios.
Eu não estudei para animador cultural. Impõem-me definitivamente este tipo de metodologias e, passados dois meses, outro melhor que eu que me substitua.
Pergunto: mas o que é que aprenderam na formação inicial no ensino superior? Ou na profissionalização em exercicio ou serviço?
Conheceram ou conhecem outros autores que sustentem cientificamente os vossos comentários ou textos retrógrados, como este?
Apresentem nos.
Ou apetece- vos dizer baboseiras que não estão alicerçadas em nada? Impressões. Experiências mal sucedidas.
Lá porque a democracia nem sempre funciona bem, isso não retira legitimidade ao modelo ou as leis básicas de um estado democrático.
Vão estudar, refletir e deixem se de lérias ultrapassadas que não preparam os alunos para o futuro.
Já observaram o trabalho da NASA ou das equipas do Elen Musk. Alguém ali faz discursos aos outros ou trabalha sozinho?
Vão estudar, ler. E estejam calados.
Boa tarde
Em democracia damos a palavra; não tiramos o verbo nem mandamos calar.
Faz sempre falta ler e estudar mais, uma boa recomendação que deve aplicar a si próprio.
Obrigado pela crítica.
Excelente texto que coloca o dedo na ferida no estado de educação.
Sinto na minha experiência que o facilitismo piora de ano para ano.
Atualmente não consigo fazer com os alunos o que fazia 10 anos atrás.
O que sempre me surpreendeu e ainda me surpreende são aqueles professores que acreditam nas tretas do facilitismo, aqueles que nas reuniões dizem:
-“Coitadinho.”
Lembro-me numa reunião , um destes professores, Diretor de Turma, defender a passagem de um aluno do 8ºano, com 11 níveis negativo.
O Vão estudar, ler! e o Duarte Gomes, não sei se são professores, mas sendo ou não, são uma espécie especial de idiotas.
Sendo que o amigo Duarte, do nada, resolve politizar este assunto.
Muito bom. Tudo o que nos vai na cabeça e que nos consome a alma. Ou deveria. Sejamos nós professores, e assom será.
-«só é possível com a postura de um ME ao lado e não contra os trabalhadores didactas que tutela. Não interferindo no modus operandi pedagógico-didáctico dos professores, trabalhadores profissionais especialistas de e em educação.»
Quando um docente é prejudicado pela tutela na sua honra e não só, dificilmente ele volta a ter aquele brilhozinho nos olhos (só se for lágrimas..), nada será igual, pois este foi humilhado e este sentimente de vencido e de desconsideração, se reflete no seu trabalho, não é de admirar, ver cada vez mais docentes sem vontade nenhuma de continuar nesta profissão…até que um dia largam de vez!
Mais um excelente e excecional artigo.Tudo o que está dito,reflete a opinião de umaclasse que continua desencantadace desgastada.
Um texto cheio de afirmações desconexas e sem fundamentação. Como é que se defende a escola tradicional e simultaneamente se cita Paulo Freire e António Nóvoa como referências? O autor fazia bem em aprofundar o seu conhecimento sobre modelos pedagógicos e adotar uma atitude de maior humidade e mais questionadora, ao invés de querer passar a sua ideologia e opiniões estáticas sobre o ensino, o que não contribui nada para a sua compreensão e transformação, antes pelo contrário.
Freire tem a ver com a valorização da pessoa humana, citado nesse sentido.
A citação de Nóvoa fala por si própria.
A escola modernaça que pelos vistos defende, os resultados falhados falam por si mesmos.
A escola do algoritmo desumaniza.
Quanto ao seu comentário, devolvo-lho. Se incomudou é bom sinal.
Obrigado.
O que está mais que provado é que o modelo tradicional deixa normalmente metade dos alunos de fora. As alternativas sejam elas quais forem são bem vindas.
A democracia também tem a particularidade de permitir derrubar os sistemas democráticos. A minha solidariedade vai para os professores preocupados que utilizaram metodologias ativas para inverter a situação com que se confrontaram.
O negacionismo e o estado de negação do ensino, pelo que defende, passa pela ficção do sucesso escolar ( não educativo), negando a essência e a razão de ser da escola pública. Os resultados das não aprendizagens falan por si à saciedade.
Obrigado.