Às quatro da manhã não é manhã e manhã é apenas uma palavra no meio da noite cerrada quando o mundo dorme, a luz do dia é uma miragem impossível e o Luís sai para a escola a fugir deste céu inglês de chumbo à procura de cair a qualquer instante ao melhor estilo gaulês quando o céu nos cai em cima da cabeça.
Na escola do Luís, os corredores iluminados por lâmpadas fluorescentes ecoavam os passos arrastados dos professores e o ruído abafado das folhas de papel. Não se ouvia riso nem vozes, nem o zumbido habitual das crianças. Era um silêncio pesado, mas eléctrico, o tipo de silêncio a anunciar uma tempestade.
A tempestade tinha nome: Ofsted.
A chefia, com o peito cheio de uma hipocrisia tranquila, sempre lhes disse como “aqui ninguém trabalha para as inspeções” e se uma afirmação repetida mil vezes talvez passe por verdadeira, toda a gente sabe ser uma má inspeção não apenas um contratempo mas uma sentença, as escolas não se levantam de um mau relatório e os professores não se escapam de um despedimento.
Assim, quando a notificação chegou – dois dias de aviso –, a escola inteira entrou em modo de guerra. Dois dias. Foi o tempo dado para uma equipa já exausta comprimir semanas de trabalho num par de madrugadas e noites.
O Luís, tal como os colegas, estava lá, às quatro da manhã quando a escola é suposto abrir às oito. Quinze horas de trabalho por dia e o equivalente à semana inteira em apenas dois dias sem tempo para pausas, sem tempo para comer, sem tempo para dormir, sem tempo.
Cada aula planeada ao milissegundo e todos os relatórios revistos neste imenso campo de batalha e os professores a fazer as vezes dos soldados e em cada caneta uma bala, uma baioneta.
A dois dias da inspeção, a chefia chegou atrasada na confiança de quem sabe serem os outros a fazer o trabalho e às quatro da tarde, quando a escola ainda fervilhava, foram os primeiros a sair para no segundo dia repetirem a mesma proeza: chegar tarde e sair cedo.
E talvez seja esse o privilégio da Direção, um desprendimento difícil de compreender para quem tem o luxo de delegar.
Mas quando os inspectores atravessaram os portões no primeiro dia da inspeção, a confiança evaporou-se e ali estavam eles num pranto discreto, perdidos entre papéis e palavras: “O que é que eles querem?”, perguntavam, como se ninguém tivesse a resposta.
Os professores, por outro lado, não perguntavam nada, tinham todas as respostas e apesar do cansaço e da tensão, estavam preparados, porque sempre estão e enfrentaram a inspeção como enfrentam os dias num profissionalismo quase natural fruto da sua constância.
E se cada aula foi dada com o seu melhor, os inspectores não estavam lá para ver o esforço mas para medir, para analisar, para passar tudo a pente fino – desde as presenças dos alunos aos murmúrios em cada sala e não pouparam nada.
Observaram aulas, folhearam relatórios, reuniram com alunos, professores e Direção, dissecando a escola numa frieza científica à procura de falhas, fraquezas, qualquer coisa passível de caber num relatório.
E no entanto, independentemente do rigor e do pente fino, a sensação de absurdo persiste pois uma escola não se avalia em dois dias, as estatística de pouco importam e a educação não se mede em gráficos.
No fim, a escola passou. Os inspectores saíram diante do veredicto de “cumprir os critérios” para alívio geral.
Alívio mas nem por isso celebração quando o Luís olha em redor e só vê exaustão na ausência de euforia e onde está a euforia se um rolo compressor acabou de passar por cima de vidas já espremidas de todo e qualquer sumo.
E porque, no fundo, todos sabem ser a inspeção apenas um teatro, um espetáculo montado para cumprir regras, uma encenação onde nada muda realmente.
E se a chefia talvez durma tranquila na certeza do resultado mais a garantia de tranquilidade, já os professores sabem como o verdadeiro trabalho não termina com uma inspeção, começa antes e continua depois e no fundo, ser professor é isto: continuar.
No dia seguinte há sempre mais aulas para dar, mais crianças para ouvir, mais vidas na ponta dos dedos e o brilho nos olhos de uma criança não se traduz em números.
Não importa se alguém está a observar ou a avaliar, importa apenas a certeza do trabalho feito e do seu valor, mesmo se não reconhecido e porque não é reconhecido, um valor invisível para os inspectores e incapaz de caber em tabelas ou gráficos.
E, por isso, a vitória não está no resultado, mas na dignidade dos professores no meio da tempestade cientes do dia seguinte, cientes de mais crianças, de mais lições, a Terra continua a girar e as suas vidas também e isso nenhuma inspeção da Ofsted consegue medir.




8 comentários
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P* que pariu as inpeções.
Hipócritas. Nojentos e aldrabões.
Gostam de ver festas, comer bolinhos e beber uns chazinhos, às vezes gotejados com cheirinho (que é suposto não existir nas escolas).
E depois de estarem amaciados, gostam de ver o festival da hipocrisia e da mentira.
As escolas vivem para os agradar.
O vómito no seu mais alto grau.
Eu até já vi uma inspeção pedir “um espetáculo de miúdos” para verem as atividades que a escola faz.
Uma coisa louca.
É isto uma inspeção?!
Infelizmente, o senhor está cheio de razão…atualmente aquilo a que chamam inspeção não passa de uma fantochada.
Se a inspeção deixasse de ver a papelada inútil que é criada, meses e anos a fio, apenas para o belo prazer da sua visão, e vigiasse o vergonhoso facilitismo que impera no sistema de ensino português e realmente acabasse com ele de uma vez por todas, sob pena de, se tal não acontecer, condicionar todas as gerações futuras…
A inspecção tem é de “inspetar “:
.Critérios de Avaliação (cortes na autonomia do professor na obrigatoriedade de entregar grelhas aos coordenadores/diretores; facilitismo sem determinação de % para instrumentos de testagem, desresponsabilização dos alunos sem definição de % para participação pertinente, etc)
.Assédio laboral e mobbing por parte de alunos, encarregados de educação , coordenação e direção ( direto e indiretamente)
.estado material dos estabelecimentos e prazos de obras e reparações de avarias e actos de vandalismo
.estado dos meios informáticos e controlo da excessiva digitalização do ensino com definição de regras para limitar número de horas nos ecrans e proibição de uso de telemóvel até ao 9 ano
.verificação de ligações familiares nos cargos e distribuição de serviço, exames e leccionação
.verificação das justificações de faltas apresentadas pelos encarregados de educação relativamente ao absentismo dos educandos
.verificação de horários e distribuição de serviço comparando pessoas e serviços ao longo dos anos
.verificação de material e cumprimento de regras por parte dos alunos, tal como indisciplina
.análise de concursos de serviços e pessoal
.verbas e distribuição
.
Não vejo o interesse desta situação.
O professor”Luís” em vez de colocar em causa o sistema inglês, fazer a sua dissecação com espírito crítico e desfazê lo, faz descrições do terror infantil que a inspeção lhe provoca e provoca na escola .
Está satisfeito por viver aterrorizado e levantar se as 4 da manhã no dia em que a inspeção vasculha a escola? Faz a apologia do sistema que vos aterroriza? Deve ser do perfil sofredor.
As verdades têm de vir ao de cima.
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