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O SNS já rebentou, segue-se a Educação

 

O SNS já rebentou, segue-se a Educação

Dois terços das crianças do 2.º ano erraram ou nem sequer conseguiram responder ao que lhes perguntavam. Até podem saber juntar as letras e ver ali palavras, mas pouco entendem do que estão a ler e as dificuldades que têm para se exprimir por escrito são dramáticas. É apenas a ponta de um imensamente destrutivo icebergue, que representa (também) os estragos de dois anos de covid numa área fundamental para o futuro do país. E que nem toda a boa vontade dos professores pôde impedir, entre escolhos antigos e a flagrante falta de meios para tentar evitar novo naufrágio: os computadores que ainda vão chegar, a internet que não é certa, o desprezo a que quem ensina foi votado por um governo que ainda finge acreditar que atribuir mais uns milhões no orçamento (que nunca chegam) resolve problemas. Mas poucochinhos, que as contas têm de se manter certas e os tempos não estão para brincar, como ainda ontem avisou Christine Lagarde.

Nas escolas, tenta-se remediar o que se vai mantendo miraculosamente de pé, mas a Educação continuará para lá de remédio possível enquanto a solução passar por meros remendos de ocasião, sem visão, sem plano de fundo, sem estratégia para recuperar um ensino público esgotado e anacrónico.

Repito, a responsabilidade não é dos professores, a quem tantas vezes é apontado o dedo pelas falhas que tentam constantemente contornar e ultrapassar. Mas a degradação que já vinha acontecendo, fruto do desinvestimento de quem julga que ter uma escola pública é um bem imutável, acelerou a fundo. E cavou muito mais fundo o fosso entre os que têm – dinheiro, acesso, suporte, apoio, cultura, estrutura – e os que não têm.

O ensino das cada vez mais raras crianças em Portugal foi perdendo exigência e meios a cada mudança bianual, sem que alguma vez se medisse os resultados do que se foi (des)fazendo. Os professores foram abandonados à sua sorte com incompreensíveis programas curriculares ao colo e uma quantidade de tarefas burocráticas a cargo, que nada têm que ver com educação. A avaliação tornou-se opressiva – para alunos e para professores – e proscrita. Uma negativa deixou de ser sinal de que era preciso investir no aluno para se tornar estigma de professor incompetente; e chumbar é tarefa impossível exceto quando se entra em braço-de-ferro por causa da Educação Cívica.

No atual sistema, é mais importante passar aos alunos a ideia de que a Biologia não é uma ciência do que perceber (e resolver) porque há ainda tantas crianças e adolescentes que não entendem o que leem, que não sabem filtrar, relacionar ou interpretar a informação que lhes despejam em cima sem preocupação de quanto é verdadeiramente aprendido, não decorado.

O pré-escolar tornou-se obrigatório, como a educação física e a artística e os psicólogos escolares, mas raras vezes qualquer deles é mais do que uma anedota contada a quem pergunta o que se faz nessas horas letivas, que somam mais umas notas à pauta (que já não se pode afixar para proteger os dados e os sentimentos dos meninos e das respetivas famílias).

Perante o desastre iminente, qual é a maior preocupação do governo? Acabar com a balda dos professores que fingem estar doentes só para não serem colocados a 200 km de casa – mas para esses aldrabões os dias estão contados, graças às novas regras de mobilidade. Isso sim, uma medida urgente, por oposição à ordem, à lógica e à justiça que nunca chegaram às colocações. Isso sim, muito mais relevante do que garantir que, mais do que livros de graça só para quem está no público, há ensino de qualidade e adaptado à era digital. Isso sim, verdadeiramente relevante, quando comparado com garantir condições para as nossas crianças terem de facto acesso a atividades desportivas, culturais, artísticas de qualidade. E apoio na medida em que dele necessitem.

Só falta mesmo ouvirmos ao ministro algo semelhante ao que escutámos, em plena pandemia, à colega que tutela a Saúde: nisto da Educação, é preciso é resiliência. Depois de o colapso do SNS ter sido desvalorizado como “um problema específico das urgências obstétricas”, ainda vão tentar convencer-nos que a destruição na educação foi só um professor com uma crise de soluços.

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15 comentários

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    • Lucinda Pereira on 29 de Junho de 2022 at 13:43
    • Responder

    Num sistema que promove o facilitismo e a transição de ano quase obrigatória, empenho e estudo para que servem? Sair de um 2º ciclo a saber preencher um formulário de uma instituição, já é um milagre e acabar o 3º ciclo a conseguir fazer e diferenciar uma descrição física de uma psicológica é um digno de um quadro de honra!

    • zabka on 29 de Junho de 2022 at 13:54
    • Responder

    O sr Director não sabe que copiar textos de jornais e sem atribuir a autoria e de onde o roubou é crime de usurpação de direitos de autor?
    Olhe que se o facho Galináceo e a facha Petiza descobrem ainda lhe metem um processo.
    Desde que este badameco tomou conta do tasco que isto tem ido de mal a pior…

      • Troll on 29 de Junho de 2022 at 14:48
      • Responder

      És muito limitado.
      Mais uma vez digo-te que deverás clicar no link … ou pergunta a um aluno teu como se faz uma pesquisa.

        • Zabka on 30 de Junho de 2022 at 15:53
        • Responder

        Ó caramelo, carregar na ligação não iliba copiar um texto de um jornal para um blogue sem atribuição. É crime de usurpação de direitos de autor e se não sabes a lei não te armes em esperto.
        Quanto ao texto é mais uma diarreia mental da Petiza que não percebe nada do que fala e que só estará bem quando for tudo privatizado a eito para os Galináceos desta vida encherem ainda mais os bolso.

    • John Doe on 29 de Junho de 2022 at 14:13
    • Responder

    “McGoey define a ‘ignorância estratégica’ como a ‘habilidade de explorar o desconhecimento para ganhar mais poder'”.

    Por outras palavras…

    “Quanto mais ignorante é uma população, mais facil é de controlar”.


    1. E tem sido!
      Corre-lhes de feição.
      Incrível é a desresponsabilização que os políticos atribuem a si mesmos! Uns porque falam de cor e não estudam (seguem apenas superficialidades populistas), outros porque governam e decidem mas depois não sabem nem querem saber das consequências nefastas daquilo que fizeram.
      Isto já é uma ditadura mediática, virtual e de fakes.
      Mudar é preciso e isso faz-se com gente consciente e escrupulosa.


  1. Na verdade a prova de aferição do 2ºano era bastante difícil. Por acaso fui aplicá-la e presumi logo que pouco miúdos se iam safar. Se aplicasse a mesma prova a alunos do 6ºano, alguns deles n conseguiriam.
    A interpretação oral era horrível…uma confusão. Se puderem, antes de opinir, vão ver como era a prova.

    • Joãozinho on 29 de Junho de 2022 at 16:40
    • Responder

    Os políticos querem um povo ignorante. Agora não podem ficar doentes em Agosto. Assim podem roubar mais dinheiro com negociatas e para offshores. Já por isso lhes deram a maioria. Pela ignorância. Estamos a caminho da quarta bancarrota. Se agora emigram para a Suiça a seguir ainda vão emigrar mais. E estes políticos nem precisam mandar emigrar criam condições para as pessoas emigrarem. Com a treta dos projetos e clubes da treta que não servem para nada mais trabalho burocrático, não deixam os professores ensinar. O resultado é cada vez mais analfabetismo com o certificado do ano em que abandonam os estudos.


    1. E depois num país tão pequenino, tão antigo e tão estável há gente que se mantém à tona em todos os regimes. São quase sempre “gajos do poder oculto do meio”, sempre prontos a executar, sempre na posse de todos os segredos, sempre dispostos a dizer amém, mas sempre a segurar bem o respectivo quinhão.
      Esses são até os governantinhos. Estão quase sempre em presidências disto e daquilo e não primam pela transparência, nem pelo bem de todos.
      No caso da edução, por este país, são mesmo meia dúzia os que percebem do assunto. E entre essa meia dúzia não estão nem sindicalistas, nem diretores, nem o ministro da educação e toda a trupe dos suborganismos ministeriais. Não sabem filosofia, não sabem história, não têm bases teóricas e epistemológicas, não tem experiência do terreno, não conhecem contextos, não conhecem públicos, não se aconselham com quem sabe, não lêem relatórios, nem estudos, nem sabem educar. Falta-lhes quase tudo, menos status à respectiva escala e feudo. É um underground que em nada contribui para depurar vícios.
      Depois há sempre arrivistas de aviário que são catequisados e escolhidos para continuar as sendas.
      Parecemos pois condenados a emigrar porque não se fazem as coisas com seriedade, a pensar no futuro e no bem comum.


      1. O Senhor Presidente do Quénia está Lisboa:
        http://www.president.go.ke/2022/06/29/make-nairobi-the-base-of-your-african-interests-president-kenyatta-woos-portuguese-investors/
        O “Corner of Hope” é um orgulho para os Educateurs sans Frontières:
        http://www.youtube.com/watch?v=fkELYcRLPQk&t=7s
        cornerofhope-esf.org
        archive.org/details/absorbentmind031961mbp/page/n439/mode/2up
        Aceita a proposta de um intercâmbio de educadores e alunos?

    • Pinto on 29 de Junho de 2022 at 17:36
    • Responder

    Agora vão fazer 2 aeroportos ao lado de um do outro… Já vi para onde vai o €€€€€€

    • John Doe on 29 de Junho de 2022 at 18:31
    • Responder

    “A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão.”
    – Desconhecido

    • Mário Rodrigues on 29 de Junho de 2022 at 19:39
    • Responder

    Há quem não acredite que Sócrates e Costa são siameses ou uma espécie de gémeos separados à nascença.
    Um roubava, alegadamente, para si. O outro rouba, alegadamente, para a Organização e para o Partido!…

    • EUZINHO on 29 de Junho de 2022 at 20:05
    • Responder

    Até assino por baixo se disserem que a actual legislação vai destruir a Escola Pública… Agora a prova de Aferição de Português do 2º ano é inenarrável ! A articulista ou não leu a prova ou, se a leu, devia tirar outras ilações… A minha filha realizou a prova e tanto a oralidade, como os txtos, como o tempo para a execução não são, de todo, para crianças do 2º ano de escolaridade. Era capaz de apostar um docinho que uma boa parte dos alunos do 4º ano não a conseguia fazer em condições!

    • Quando chega o Karamba? on 29 de Junho de 2022 at 23:36
    • Responder

    Texto fraco.
    Acompanhei dois grupos de alunos do 2º ano, fizeram relativamente à vontade a prova de matemática, tiveram dificuldades na prova de português, que era bastante difícil.
    O COVID está a ter impacto na aprendizagens, mas não considero que sejam os atuais alunos do 2º ano os mais prejudicados.

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