Podia já aqui estar, longe de tudo e de todos, há 40 anos, mas não estou, estou há 14.
Infelizmente, entre 14 e 40 não há diferença alguma quando a percepção de quem fica para trás é uma e sempre a mesma: emigrar é um capricho, uma aventura, uma criancice, uma brincadeira, teimosia, para não dizer birra.
Porque só assim se explica o porquê de deixar tudo para trás quando, e já toda a gente sabe, em Portugal bastam meia dúzia de anos para entrar para o quadro de uma escola seguido de uma carreira célere e bem remunerada a toda a brida até ao topo.
Sarcasmos à parte, concentremo-nos nos factos:
1) findo o estágio profissionalizante, fui colocado durante o ano lectivo de 2001/2002 em Tomar;
2) findo o ano em Tomar, não mais fui colocado;
3) antevendo o futuro de precariedade e desemprego ainda bem presente entre os professores da minha idade e que tantas notícias faz nos telejornais, inscrevi-me em enfermagem e em Setembro de 2003 voltei à universidade;
4) sim, enfermagem era o plano B para não ter de emigrar. Infelizmente, no 3° ano do curso chumbei num ensino clínico, pediatra, imagine-se, e como quem chumba uma só cadeira de ensino clínico tem de repetir o ano por inteiro, rapidamente fiz contas à vida e desisti do curso por falta de fundo de maneio;
5) a 5 de Setembro de 2007, depois de um ano e meio entre call-centres e centros de explicações, deixei a minha irmã e a Ana lavadas em lágrimas nos braços uma da outra no meio do aeroporto de Lisboa e rumei a terras de Sua Majestade.
A minha irmã e a Ana? Ainda lá estão, a 5 de Setembro de 2007 e sempre que lá volto e por mais que faça o fim é o mesmo e a promessa de nunca mais voltar quando o bilhete é só de ida e ninguém sabe o que nos espera do lado de lá.
Se pedimos ajuda a outros professores? Pedimos, e a resposta, peremptória, ainda hoje na ponta da língua: “Eu já sou do quadro” enquanto desvia o olhar com ar de enfado. E sim, se nos portássemos bem nas AECs, talvez nos deixassem ir à festa de Natal da escola.
Diante de tamanha solidariedade, empatia e união de classe, o que esperar de um futuro onde estamos sempre de passagem por uma escola e tantas vezes nem isso?
Já aqui o disse, em 2007 o país tinha um total de 30000 professores desempregados, os mesmos agora em falta. Para onde foram, não sei, mas que tiveram uma birra lá isso tiveram quando não há nada como passar a vida à espera de algumas migalhas conquanto se vote no sítio certo, como também me disseram, aliás.
Logo por azar, ou teimosia, lá está, quiçá princípios ideológicos tão em falta hoje em dia quando o que não falta é demagogia, insisti, e insisto, em votar sempre no sítio errado.
E se com o Brexit não posso deixar de apontar o dedo a um mundo em mudança e no qual se legitimam atitudes e acções supostamente erradicadas, a verdade para a qual a educação, e a administração pública em geral em Portugal, ainda não está preparada, fruto de décadas de compadrio e nepotismo é esta: em 2007, como professor em Inglaterra, auferia mensalmente 2000 libras. Nada mau, para começar. E em três anos subi de professor de substituição a director de uma escola.
E sim, entrei para o quadro.
E a enfermagem? Se em 2005 o mundo perdeu um péssimo enfermeiro, ao mesmo tempo perdeu um excelente médico, de investigação provavelmente. Futurismos, e modéstia, à parte, o saber não ocupa lugar e acabei a coordenar o ensino de alunos enfermos de um município inteiro de Londres.
Portanto, e enumerando, uma remuneração justa, nunca inferior a 2000 euros de base, estabilidade, carreira e mérito são os quatro princípios que há 14 anos (podiam ser 40 mas vão ser mais, muito mais) difundo e defendo por terras lusas.
Infelizmente, há ainda quem pense ser o contrário. Ou quem não queira saber. Porque as realidades de cada país, por mais individuais, podem assentar nos mesmos pilares, e em Portugal dar tiros no pé da educação é o desporto de sucessivos governos culminando numa classe docente desunida e à deriva.
Com o acréscimo de já nem podermos emigrar depois da saída do Reino Unido da União Europeia. Mentira, podemos, mas com o inglês ainda como língua franca, as alternativas estão por demais restringidas.
João André Costa




12 comentários
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Quando vamos para fora… reconhecem o nosso valor… O que será que se passa em Portugal que não se reconhece o verdadeiro valor dos trabalhadores? É uma tristeza.
Às vezes penso que deveríamos todos fugir de Portugal…
Torna-se insuportável este discurso simultaneamente miserabilista e narcisista, cheio de lugares comuns e de generalizações, em lugar de uma verdadeira reflexão sobre os problemas que assolam o nosso país, mas também outros países, na área da educação. 2000 libras em Londres é um valor ridículo; tendo em conta o custo de vida, é bem menos que os 1200 euros líquidos que se aufere por aqui. O nível de abandono da profissão docente no UK é gigantesco e ninguém quer cargos de direção porque a burocracia é simplesmente brutal. Mas pronto, há sempre aquele que quer todos os cargos, só para justificar a sua ida para outro país e dizer aos seus compatriotas: ” sou diretor de escola”. Nem tudo é mau aqui, nem bom lá. As simplificações conduzem apenas ao preconceito.
2007 foi ha 15 anos
Outra vez este texto? Isto não tinha sido já aqui publicado? Ainda por cima, sem nada de novo, de original, mas antes, sempre o mesmo discurso enjoativamente subjetivista, repleto de chavões tão repisados, de expressões falaciosas ad misericordiam… Oh, meu Deus, haja paciência!
Para resolver um problema, cada um encontra o caminho que melhor lhe serve dentro das suas possibilidades.
Eu compreendo e louvo as iniciativas do João. Fico contente por ele ter encontrado a solução que o satisfaz.
Mas tenho que o contradizer num “piqueno” detalhe: há quem “emigre” porque quer.
Estou neste caso. Depois de 6 anos a contratos incertos, numa altura em que nem havia subsídio de desemprego, efetivei -me num calhau no meio do Atlântico. O que me valeu experimentar andar de avião… E outras descobertas bem mais enriquecedoras.
Hoje, com 35 anos de trabalho no pelo, efetiva numa escola em Lisboa, trabalho e vivo em França desde 2013. Porque assim o escolhi.
Sinto-me a viver no estrangeiro a maior parte do ano, sou uma estrangeira nesta terra, mas não uma emigrante.
Testo chato.
2000 euros em Londres equivale a 600/700 euros em Portugal.
Basta olhar para a qualidade dos comentários e do vocabulário destes textos para dizer: “Viva o Reino Unido!”
Os piores inimigos dos professores são os próprios professores. É o que se depreende pelo comportamento de muitos nas escolas, a começar pelas chefias intermédias (coordenadores e outros do género), e por vários comentários a este e a outros posts.
Falta de ética, sem-vergonhice e baixeza.
Aí Karamba, chegou o ressabiado do Karamba e outros ressabiados. Com a treta da conversa da mama. Onde mamará o Karamba??? Nas tetas da cabritinha ou da vaca???? Os karambas acham que as pessoas devem perder tempo e dinheiro a tirar cursos para ganhar o salário mínimo. Para os Karambas os professores, médicos, enfermeiros, polícias, são todos uns mamões. Esquecem os Karambas que os verdadeiros mamões – banqueiros, políticos, taps, ppps, corrupção, etc, não param. Espero que os Karambas um dia não tenham um familiar a precisar de serviços e eles estejam fechados. Agora vão morrendo nos hospitais por falta de pessoal. Para os nazistas Karambas todos devem receber o salário mínimo, deve ser isso. Depois querem médicos e segurança e têm de ir pedir ao “Tota”. Saiba o Karambas que nos anos oitenta houve um país que ficou dois anos sem professores e não foi Portugal. Os Karambas devem saber que os que se esgadanham já não concorrem para muito longe da localidade onde moram. Estando noutros empregos perto de casa enquanto vão dando aulas. Cada um escolher a escola que prefere??? Os Karambas deviam saber que isso é impossível e que a maior parte das escolas não quer arruaceiros. Mas os Karambas podem ir tirar os cursos e depois concorrer. Só espero que os Karambas trabalhem por salários mínimos. Chamo a atenção aos Karambas para uma notícia francesa sobre as creches. Estão com problemas em arranjar pessoal. Se calhar podem ir para lá Os Karambas pelo salário mínimo francês. Penso eu de quê.