MAIA, a abelha distópica que está a matar a escola

MAIA, a abelha distópica que está a matar a escola  

 

Domingos Fernandes e a sua rede de «cientistas» e tecnocratas – sincronizados com o ex-secretário de Estado da Educação, entretanto promovido a ministro da Educação – fez um diagnóstico inexorável (e bizarro) da educação portuguesa: as pedagogias e processos de avaliação usados pelos nossos professores remontam ao século XIX e lesam a educação inclusiva.

Perante tal diagnose, o Ministério da Educação (ME)iniciou uma cruzada que visa revolucionar as metodologias de ensino, aprendizagem e avaliação das escolas nacionais. Refiro-me, neste texto, ao projeto MAIA, Monitorização, Acompanhamento e Investigação em Avaliação Pedagógica, iniciado em 2019. Começou por ser um «projeto de âmbito nacional e de adesão voluntário» (Domingos Fernandes, Para uma AvaliaçãoPedagógica: Dinâmicas e Processos de Formação no Projeto MAIA, 2020, p. 10), para, entretanto, adquirir uma dimensão, tacitamente, obrigatória e totalitária.  

Multiplicaram-se as formações, os colóquios, os encontros, as comunicações presenciais ou digitais sobre o projeto. Os Centros de Formação de Associação de Escolas (CFAE) concentraram as suas preocupações prioritárias nos temas da avaliação/classificação (assim como nas tecnologias da informação e da comunicação) e passaram a desprezar ainda mais as ações de formação de professores dedicadas às áreas científicas específicas (História, Português, Matemática, Ciências Naturais, etc.)

Nestes «seminários» de formação de professores, o evangelho dos novos gurus da educação é propagado adnauseam. Recordemos o seu conteúdo: os professores afundaram-se há muitas décadas em práticas pedagógicas e avaliativas equívocas e perniciosas que têm desmotivado e lesado os alunos. Chegou, todavia, o momento de esses docentes reconheceram os seus atos falhados, saírem da caverna, enxergarem a luz da «verdade», edificarem a escola feliz e proporcionarem o sucesso educativo universal. Para isso, têm de optar exclusivamente por pedagogias ativas (discursar aos alunos sobre ciência tornou-se um pecado mortal), fundir conhecimentos com competências, avaliar de forma holística, distinguir avaliar de classificar, diferenciar práticas de avaliação formativa e sumativa (fazer testes escritos sumativos é outro pecadoimperdoável), definir objetivos, critérios, rubricas e indicadores de aprendizagem a partir das aprendizagens essenciais.

Este é o novo paradigma educativo, o alfa e o ómega da escola, onde os professores devem concentrar toda a sua energia. Aqueles que preferirem canalizar a sua energia para a preparação pedagógica e científica estruturada das suas aulas não têm lugar na «escola moderna», onde ensinar ciência atualizada tornou-se um detalhe de menor importância.

Esta teologia e pregação inovadoras concebidas de cima para baixo pelo ministro da Educação e a sua máquina de mentores, tecnocratas e burocratas — estão já a «revolucionar» a escola pública. Porém, tal evangelho desperta reflexões e problemas que quase todos preferem ignorar, olimpicamente.  

Há muito tempo que a maioria dos professores incorporaram várias das práticas atrás descritas no seu trabalho, pois enveredaram por aulas dialogadas, optaram por experimentar metodologias ativas (e afetivas) e abandonaram os antigos hábitos de avaliar os alunos exclusivamente através de testes escritos. Contudo, é justo reconhecer que a avaliação formativa e sumativa sistemática e o recurso contínuo a pedagogias ativas acarreta dificuldades, a saber: É possível elaborar e operacionalizar critérios de avaliação holísticos onde os domínios comportamentais se fundem com os domínios do conhecimento? Como conciliar o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória com a lecionação dos conteúdos vertidos nos programas das diversas disciplinas? Devemos avaliar as escolas, os seus alunos e professores segundo os critérios utilizados nas empresas e aplicados aos seus «colaboradores»? Estão os projetos pedagógicos «inovadores» inspirados no projetoMAIA, testados nas escolas públicas nacionais e tão aplaudidos pelo ME a ser avaliados através de critérios isentos e objetivos? Os professores do primeiro ciclo do ensino básico, que ensinam em regime de monodocência,têm turmas com cerca de 20 alunos, trabalham com os seus alunos todos os dias e acompanham-nos muitas vezes do início ao fim do ciclo, lá vão conseguindo, porventura, aplicar mais regularmente as intrincadas metodologias pedagógicas e avaliativas agora exigidas. Mas os professores dos ciclos subsequentes, que lecionam em regime de pluridocência, têm, na maioria dos casos, mais de 5 turmas (muitas vezes, 8, 9 ou mais turmas), mais de 100 alunos com quem estão apenas uma, duas ou três aulas semanais de 50 minutos. Como podem estes professores ensinar e avaliar com objetividade e transparência cada um dos seus alunos recorrendo, demodo sistemático, aos modelos pedagógicos e avaliativoscomplexos hoje impostos, os quais pressupõem, por exemplo, um feedback (como agora se diz em bom português) instantâneo e contínuo? Como conseguem fazê-lo sem cair na armadilha de reduzirem a educação e avaliação a um processo bur(r)ocrático kafkiano?(Recordo-me de uma professora a quem os alunos chamavam «Caixa Registadora», porque passava as suas aulas a registar em grelhas digitais e em papel as alegadas evidências demonstradas pelos alunos). Como logramestes professores ensinar ciência, através de praticas estruturadas, e cumprir os programas das suas disciplinasrecorrendo obsessivamente às pedagogias ativas? Programas longos que em várias disciplinas (onde, em certos casos, a carga horária tornou-se ainda maisreduzida) estão sujeitos a provas de aferição, provas finais de ciclo e exames nacionais que visam medir, com supostaassertividade e seriedade, o conhecimento científico e literário dos alunos.

Decerto que podemos já tirar uma ilação da alegada aplicação das «novas» pedagogias no domínio da avaliação: o sucesso educativo inflacionou e as percentagens de retenções diminuíram drasticamente. E tais cifras fazem a felicidade das direções das escolas, do ME, do seu ministro e inspetores, bem como de muitosalunos, pais e professores. Paradoxalmente, a maioria dos alunos chegam hoje ao ensino secundário e ao final do liceu pior preparados nos planos científico, literário e cívico. Trabalham menos, leem, interpretam e escrevempior, revelam conhecimentos menos consistentes e – problema que não é de somenos importância – exibemcomportamentos mais indisciplinados nas salas de aula. Isto é uma evidência que só escapa aos educadores românticos e aos tecnocratas da educação, que não pisam diariamente o chão das salas de aula, porquanto se escapuliram delas por falta de vocação e abnegação.

Está o ME disponível para debater estas questões? Não está. Neste momento, a ordem é arregimentar novos crentes, silenciar e marginalizar os descrentes e caminhar gloriosamente para o abismo. «Quem vier atrás que feche a porta!» E no futuro, a médio ou a longo prazo, quando se concluir que estas «políticas» pedagógicas não produziram melhores cidadãos, mas sim súbditos mais iletrados, amorfos e hedonistas, quem assumirá as responsabilidades? Obviamente, ninguém. Porque os portugueses já inscreveram no seu espírito a máxima de que em Portugal «a culpa [vive e] morre solteira»!

Luís Filipe Torgal

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2022/06/maia-a-abelha-distopica-que-esta-a-matar-a-escola/

9 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

    • maria on 3 de Junho de 2022 at 10:40
    • Responder

    10 de Junho – DIA DE PORTUGAL , DE CAMÕES E DAS COMUNIDADES

    Cá por Traseiras – por causa destas m…s e legitimados pela regionalização – em 2023 o feriado passará a ter outra tabuleta :” DIA DA PLANÍCIE, DO CARAÇA (S) E DAS COMODIDADES” .

    São as “adequações” à nossa moda, porra!

    • Carlos Moreira on 3 de Junho de 2022 at 10:44
    • Responder

    Retiro do artigo “…exibem comportamentos mais indisciplinados nas salas de aula.Isto é uma evidência que só escapa aos educadores românticos e aos tecnocratas da educação, que não pisam diariamente o chão das salas de aula, porquanto se escapuliram delas por falta de…”, eu mudaria o resto por “por ninguém aguentar estas mesmas salas de aula”. Desta indisciplina é que ninguém fala, é estranho, parece que é abafado.
    E depois, como consequência da indisciplina e do facilitismo, vem então outras coisas importantes:
    “…a maioria dos alunos chegam hoje ao ensino secundário e ao final do liceu pior preparados nos planos científico, literário e cívico. Trabalham menos, leem, interpretam e escrevem pior, revelam conhecimentos menos consistentes…”

    • Falcão on 3 de Junho de 2022 at 17:09
    • Responder

    Esta análise é certeira, só quem não pisa uma sala de aula no 3º ciclo e Secundário pode dizer que não!
    O que se está a fazer com o MAIA e a coberto do MAIA é ASSASSINAR o futuro de uma geração de alunos.
    E isto ainda é só o começo, o passo final está aí ao virar da esquina… acabar com os “chumbos”! Desculpem… as retenções, não se pode dizer chumbos que é palavreado do século XIX!

    E perante o desastre que está a acontecer na Escola Pública, quem é que esfrega as mãos de contente com as políticas educativas do governo dito SOCIALISTA?
    Obviamente, os colégios privados! Um governo SOCIALISTA a destruir a Escola Pública e a encher os bolsos dos privados. Querem provas? Olhem para a manutenção dos rankings e, já agora, podem ir ver quantos filhos de professores saltaram do público para o privado nos últimos anos. Quem está lá dentro, sabe bem que tem de proteger os seus, por mais que pese no orçamento mensal. E não se trata de colocar em causa a competência de quem leciona no público, o problema é a falta de professores, as condições de trabalho, o cansaço, a desmotivação, o envelhecimento da classe, o totalitarismo pedagógico, a falta de recursos técnicos e humanos, a INDISCIPLINA brutal, enfim… a escola pública está a implodir! E só não vê quem é cego, ou quem insiste em fazer de conta que estes problemas não existem! E o MAIA não resolve nada disto, só agrava, e só deixa os professores cada vez com mais vontade de fechar a porta e descer o pano!

    • Falcão on 3 de Junho de 2022 at 17:19
    • Responder

    E o mais lamentável disto tudo, é que a classe política acompanha estas caixas de comentários, lê tudo isto, não tenho a mais pequena dúvida que também andam por aqui a ler o que os professores escrevem, mas não se vê ninguém CONSISTENTEMENTE a chamar os bois pelos nomes e a defender mudanças, no sentido de devolver a palavra aos professores, de os deixarem trabalhar em paz, de haver CONFIANÇA no trabalho dos professores e PIADA DAS PIADAS, a defenderem para os professores aquilo que o governo diz que dá às escolas mas não garante de todo aos professores: REAL AUTONOMIA, sobretudo pedagógica e didática! Veja-se o TOTALITARISMO do MAIA!

    • Sr. Professor Zé on 3 de Junho de 2022 at 20:18
    • Responder

    O projeto MAIA é tão BOM que eu dou por mim a recordar a minha infância e a desenvolver novos projetos…
    Após o MAIA proponho um novo projeto:

    “Desenvolvimento de
    Aprendizagens
    Redundantes
    Transversais com
    Articulações e
    Capacitação de
    Análise
    Orgânica”

    Sim, o projeto DARTACÃO.
    E ainda:

    Dinâmicas de
    Recuperação
    Autónoma e
    Global na
    Organização da
    Nomenclatura com
    Balanço das
    Atividades
    Locais de
    Leitura com
    Zelo

    Adivinharam? Correto! DRAGON BALL Z
    Mas não é tudo!
    Estão para sair os projetos IPC e VPPQP.

    Adoro o cheiro a projetos pela manhã.

    Sr. Professor Zé

    • Mário Teixeira on 4 de Junho de 2022 at 1:00
    • Responder

    Via, há momentos, uma reportagem que me foi sugerida pelo Artur (estou a meio da coisa – não devo dizer “in medias res” para que todos entendam) e resolvi fazer uma pausa. E , aliviando a tensão gerada pela reportagem, fui ao «face» (os alunos esta entendem) ver se havia discussão… Acertei em cheio!
    MAIA (nem abelha, nem cidade).
    Leio o texto todo do Luís (como faço sempre com os textos dele). Neste caso, não poderíamos estar mais de acordo. Aliás, o que li faz parte das trocas de conversas tidas na nossa «sala da ESOH»… e, ao ir lendo o texto, senti-me como se deve ter sentido o Nito Alves e Sita Valles na sua pátria (protagonistas da reportagem que interrompi para vir aqui ler o Luís)… conspirador contra o «regime» da pátria em que me integro.
    Não acabaremos como esses heróis da luta do povo angolano, mas massacrar-nos-ão com mais um acto de experiencialismo vazio, que visa apenas a obtenção de dados estatisticamente honrosos para o País nas instâncias internacionais (como em tempos de outras senhoras – e refiro-me a duas: um salazar e uma lurdes): 0% de abandono escolar; 99,9% de sucesso em todas as disciplinas (na Educação para a Cidadania, na História, nas línguas, no Português, na Física…) em tudo 100%. Até no ensino superior (que o regime é como o de Neto… democrático).
    Professores exaustos, como eu hoje, não têm de ser cultos, nem devem formar cidadãos pensantes (e por isso diferenciados), tão somente dar corpo um modelo de cidadão (perfil de saída) sendo a Escola igual a uma fábrica de máquinas… daqui devem sair todas a saber fazer o que alguém lhes manda fazer.
    O MAIA manda fazer… nós, providos do perfil perfeito de saída, fazemos (os controleiros) ou faremos de conta que fazemos (estes últimos são os agitadores, revolucionários, contestatários).
    Ah!… evitemos não obter 100% de sucesso… o Big-Boss não vai gostar e… há a avaliação docente.
    Parabéns Luís, neste tema «tamu» juntos, né?!
    Mantenham-nos a sala da «ESOH» sem portas, para que possamos livremente pensar.

    • Mário Rodrigues on 4 de Junho de 2022 at 9:11
    • Responder

    Posso vir a passar mal, porque os pequenos rendimentos que tenho dependem do estado geral da economia, mas desta tal MAIA não provarei! No próximo dia 1 de Setembro entro de Licença sem vencimento de longa duração. Adeusinho!…

    • Pedro on 6 de Junho de 2022 at 10:31
    • Responder

    Nada a apontar ao artigo. Deparei-me este ano, pela primeira vez com este “modelo” de avaliação, que não é mais do que um capote sob o qual se permite tudo desde que os alunos transitem. Não sou melhor nem pior do que os meus colegas mas apenas um dos novos no agrupamento, pequeno e do interior, é que com eles sou visto como exigente e chato visto dar negativas.
    Logo na primeira reunião de departamento houve “atrito” mas que se minorou pela educação e respeito mútuo, como não poderia deixar de ser.. Diga-se que ao longo do ano fui percebendo que ele entende a virtude daquela frase: o bom é inimigo do perfeito, ou seja, aquele projecto pode estar “bem pensado” mas para o mundo cor de rosa. E acresce que deveria ser objecto de escrutínio exaustivo como refere o artigo. Não é.. Leccionei o programa dando atenção óbvia às malfadadas aprendizagens essenciais. Informei os alunos dos seus critérios de avaliação. E há algo que eles não me apontam: incoerência e falta de exigência. A minha vantagem é ser contratado e se não estou de acordo com esta fantochada, dentro do que a situação me permite, mantenho as coisas como deveria ser normal. Para o ano, nova escola.
    Diga-se, para finalizar e correndo o risco de ser injusto, que este projecto está mais disseminado a norte e faço, seja a norte ou centro ou a sul, um paralelismo com o acordo ortográfico: deveria ser mais difícil impor a uma classe com formação especializada como a nossa, alterações tão obtusas como este projecto ou, na minha opinião, o AO.

      • fernando on 18 de Junho de 2022 at 0:09
      • Responder

      Tudo certo, colega (em particular o último parágrafo, que acho que diz ainda mais daquilo que somos enquanto grupo profissional…)!

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Blog DeAr Lindo

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading