Os bons vi sempre passar, / no mundo graves tormentos; / e para mais me espantar, / os maus vi sempre nadar, / em mar de contentamentos.(i)
1. Tantas vezes fui à guerra… que só sei é guerrear. (ii)
A pandemia deixará marcas que dificilmente esqueceremos. Também não esqueceremos o esforço que foi feito para que rapidamente tudo passasse ao digital; o acentuar das desigualdades para quem não domina a língua, nem tem condições de habitabilidade onde possam coexistir o espaço de trabalho, o espaço familiar, o espaço escolar; as dificuldades para quem não tem recursos tecnológicos; a incerteza para
quem não tem capacidade de superação dos problemas.
A “capacitação” digital da maior parte das escolas veio “fora de tempo”, numa corrida imposta que se revelou não ser suficiente nem adequada. Desde o plano tecnológico (cujo lançamento foi feito em 2006/2007) que não havia um investimento sério nas escolas, o que provocou alguns dos problemas por que passaram os alunos e as famílias. No entanto, não é possível compreender ou analisar as desigualdades tendo unicamente em conta as carências tecnológicas. Acreditar na escola enquanto “elevador social” é olhar apenas para uma parte do processo; se a escola “presencial” esconde a pobreza, a escola online expõe outras pobrezas, que se evidenciam, acentuam e envergonham, numa economia que não responde de forma adequada às migrações, ao desemprego, às qualificações, aos salários dignos. Acreditar na escola enquanto “elevador social” é um olhar que perdeu atualidade – hoje a escola devia ser um “elevador nacional”. Quando conseguiremos aceitar que um maior número de cidadãos mais escolarizados irá contribuir para um País melhor?
No ensino online não é possível fazer uma abordagem do currículo com o mesmo ritmo de um ambiente presencial. Ainda assim, continuamos com os mesmos programas (se é que ainda existem), orientações curriculares (se é que ainda existem), metas curriculares (se é que ainda existem), aprendizagens essenciais (o que atualmente parece ser o menor dos males), um perfil do aluno longe de se cumprir neste ziguezague educacional, e planos, muitos planos de ação estratégica, como se de remendos se tratasse para tapar todos os buracos de um currículo que se vai
alargando em múltiplas áreas, num verbo de encher assustador e sem efeitos visíveis nas aprendizagens. E claro, sempre os habituais exames para aferir todas as aprendizagens e validar todas as classificações.
Tantas vezes fui à guerra… assim é que se vai, / assim é que são, / as gentes que farão / que os dias maus já lá vão…
2. O novo normal (iii)
Ninguém sabe se sabe, / nem que acaso ou que destino nos cabe, / o novo normal é terreno minado / de acasos; / no novo normal, nunca nada vai ser nunca igual.
A educação online foi uma resposta de emergência, mas não é nem será uma resposta fácil. Todas as atividades, ou quase todas, se conseguiram fazer com recurso ao digital, mantendo o contacto através do ecrã e, aparentemente, todos ganhámos competências. Somos quase “especialistas” nas plataformas Teams, Zoom, Classroom, Canvas, Padlet, multiplicam-se webinars, tutoriais, esclarecimentos sobre as melhores técnicas do ensino online, remoto ou a distância com a perda da privacidade individual e familiar já que estamos a trabalhar em casa, em horário “coincidente e contínuo”.
Mas estamos de regresso, e vamos mudar de novo, várias vezes, num só ano, nos ritmos, nas rotinas, nos processos, nas aprendizagens. Da distância ao presencial, microfones, câmaras, cliques e partilhas dão lugar a sorrisos, expressões, vozes, passos… a um “estar” na sala de aula, com manias, conflitos, convívios, cumplicidades, reforçando o mote de que aprender não é só adquirir conhecimento, mas também conviver com o ritual que anima cada escola, o seu ambiente, a sua cultura, a sua diversidade e a sua capacidade de integração.
Voltamos com medos, novos medos, incertezas, mas também esperança, sabendo que
no novo normal, / nunca nada vai ser / nunca igual.
3. E com um búzio nos olhos claros…(iv)
Vinham prá escola, a novidade!
O plano de transição do ensino a distância para o ensino presencial deve ser centrado na premissa de que a escola deve ser sentida como um lugar cuidador, de apoio ao desenvolvimento dos jovens. Neste novo regresso é importante manter uma postura tranquila, com rotinas tanto quanto possível normalizadas, proporcionando momentos de informação e de autocuidado, assim como de descontração dos jovens apesar da
escassez temporal de preparação para os exames nacionais.
É natural que alguns jovens e alguns professores regressem com sentimentos de medo, de ansiedade e de frustração. É igualmente natural que sintam dificuldade em adaptar-se e integrar-se, devido a todas as alterações provocadas pela situação de isolamento, da mudança das rotinas, do corte da convivência presencial com os amigos, das novas modalidades de ensino/aprendizagem e da incerteza face ao futuro. A maioria dos jovens manifesta vontade de voltar à escola, porque esta não é só um local de desenvolvimento de competências cognitivas, é também um local de socialização, de desenvolvimento afetivo e social.
No entanto, a falta de liberdade e a saturação associada à pandemia COVID-19 criaram sentimentos de indiferença e alguma despreocupação no cumprimento de regras. Nos jovens, devido às próprias características da adolescência, tudo isto se agudiza. A necessidade de estar com os amigos, de socializar, acrescida da necessidade de estimulação sensorial e do sentimento de intocabilidade, leva-os a não estar motivados para cumprir regras e, consequentemente, a ter comportamentos de risco. O apoio e aconselhamento psicológico poderão ter um papel muito importante nesta fase e contribuir para a adoção de comportamentos promotores da socialização e da saúde.
Ainda se sabe pouco sobre os efeitos da pandemia COVID 19, na saúde mental das crianças e jovens, apesar de alguns estudos estarem a ser feitos. O futuro o dirá!
E com um búzio nos olhos claros, / ali chegaram para aprender, / o sonho, a vida, a poesia.
4. Somos filhos da madrugada…(v)
Navegamos de vaga em vaga /… pelas praias do mar nos vamos / à procura da manhã clara…
A Escola mudou na forma de ser, de estar, e este “tempo” poderá ser uma oportunidade de repensar o modelo de Escola que queremos e os paradigmas educacionais em que nos movemos. No discurso atual, lidamos com documentos perfeitos, mas práticas seculares; palavras certeiras, mas concretizações nulas; ideais de massas, mas ideias vazias, e, ainda assim, acreditamos ser possível encontrar um equilíbrio entre o ensino online e o ensino presencial, porque parece ser este o “desenho curricular” mais viável no presente e no futuro. É preciso aprender a tirar partido do melhor destes “dois mundos” e colocá-los ao serviço de uma Escola melhor,
de aprendizagens significativas, de currículos flexíveis no espaço e no tempo, em sintonia com a sociedade atual; um novo regresso deve ter por alicerces propostas concretas e coerentes dos grupos de trabalho governamentais, para que a Escola, enquanto espaço de conhecimento, mas também de relação, de cultura, de lazer e de memória, possa ser um lugar de transformação e de mudança para todos.
Que este abril seja o reflexo de um ano em que os filhos da madrugada façam da Escola o mapa sobre o qual a sua vida se desenrola, na esperança de que este seja o regresso a uma vida de afetos, a uma vida de corpos, a uma vida de públicos que, habitualmente encontram também na Escola Secundária de Camões, um lugar de acolhimento. Fica um convite de esperança no regresso, para nos acompanharem, nas comemorações dos 47 anos do 25 de Abril, com a liberdade de ir ou de estar, em presença ou online, nas atividades que organizamos em homenagem a Mário Cesariny, a Carlos de Oliveira, a Amândio Silva. Entre outros, contamos com a participação de Raquel Varela, Vasco Lourenço, Francisco Fanhais, Fernando Cabral Martins, Pedro Loureiro, António Carlos Cortez, Joaquim Vieira, Francisco Bethencourt e do Coro Camões.
Que nesta Liberdade do desconcerto se compreenda que há um mundo à espera de ser concertado.
i Camões, L. Esparsa ao desconcerto do mundo
ii Godinho, S. Tantas vezes fui à guerra. Coincidências, 1983 iii Godinho, S. O novo normal. O novo normal, 2020
iv Trovante. Outra margem. Baile no bosque, 1981
v Afonso, Z. Filhos da madrugada. Traz outro amigo também, 1970