O silêncio dos culpados.
É interessante verificar como há dois pesos e duas medidas quando o assunto versa sobre professores. Se for para opinar a respeito de reivindicações, greves ou manifestações, são aos milhares os que surgem de imediato para criticar os que “poucas horas trabalham”, que “recebem mais do que a maioria”, os “privilegiados que têm não sei quantos meses de férias” e que, pela lógica de tais criaturas, “deveriam ir procurar outra profissão se não estão satisfeitos”. Se o assunto for sobre avaliação, progressão na carreira e mérito, aí aparecem de imediato os “especialistas em Educação”, os que sabem tudo e mais alguma coisa sobre a profissão docente. Em cerca de dez anos, milhares tornarem-se “doutorados” no Estatuto da Carreira Docente, profundos conhecedores da legislação laboral, das Ciências Educacionais, Físicas, Metafísicas e outras além, sempre prontos para opinar sobre o que dizem conhecer ao pormenor e sem qualquer réstia ou sombra de dúvida. No entanto, quando surgem estas notícias (cada vez mais frequentes) sobre violência física ou verbal em recintos escolares, bem… aí o silêncio torna-se ensurdecedor. A esmagadora maioria dos tais especialistas cala-se de imediato, enquanto que alguns poucos optam por “relativizar” as coisas, dizendo que nada está pior hoje do que no passado. Isso é falso e é importante referir que o que lemos ou ouvimos é apenas uma ínfima parte do que se vai passando (e ampliando), ano após ano, nas escolas do nosso país.
Resumindo, em dez anos, graças ao inicial trabalho de um primeiro-ministro (acusado, entre outras coisas, de corrupção) e de uma ministra (acusada de prevaricação), ao discurso dos governantes seguintes e à enorme prestabilidade de algumas figuras de certos OCS, que serviram de eco à propaganda pretendida, a maior parte das pessoas passou a achar-se “expert” em assuntos que envolvam docentes e educação.
O problema é que os resultados dessa contaminação, desse vírus da ignorância que se espalhou na nossa sociedade graças ao trabalho de alguns, tem um preço. E ele é enorme: a condenação do nosso futuro enquanto indivíduos de uma sociedade que se pretenda evoluída, fundamentalmente no que concerne aos princípios e valores que assentam na consideração pelo próximo. A elevação do desrespeito, do achincalhamento e do menosprezo à classe docente, aos profissionais responsáveis por semear a sabedoria e por envolver os jovens que representarão o nosso amanhã, é sentenciar uma sociedade ao fracasso.
Quem serão o culpados por este destino? É fácil encontrá-los. Basta reparar no silêncio dos que sempre criticam ou na relativização de certas almas, nestas alturas em que começamos a vislumbrar o precipício bem à nossa frente.




2 comentários
Tudo o que escreveu é real.
A maioria dos votantes portugueses, nas últimas eleições, terem votado no partido dos políticos medíocres incompetentes e corruptos, culpados de toda essa realidade, não é menos verdade, ou seja, parece-me que há uma franja considerável de eleitores que ficam contentes com a falta de respeito pelos professores que, diga-se começou com os xuxas no tempo do preso 44.
Mas também o “silêncio dos inocentes”. Afinal, nada ou pouco vai entrar como queixa…