O testemunho do Professor Sandro Gonçalves sobre o que se passou durante a sua agressão por parte de uma Encarregada de Educação.
Out 24 2019
«Hoje em dia passa-se de professor a palhaço num instante»
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2 comentários
O que o colega relata é a triste realidade em que vivemos. Todos deveriamos ser unidos e solidários nestas situações… infelizmente não é o que acontece na maioria das vezes.
Indisciplina, Ensino, Violência e Condições nas Escolas – Em defesa da Pedagogia e da Justiça Social e Educativa do Dr. Sandro Batista Gonçalves
Parabéns pela coragem e transparência em contar na primeira pessoa o que vivenciou numa escola. Infelizmente os casos de violência e de desrespeito pelos professores e também para com os assistentes operacionais (que são poucos e trabalham em triplicado) é uma factividade! As escolas, sobretudo os TEIP precisam urgente de policiamento. Muito haveria a dizer sobre esta matéria.
Mas que alívio de alguns encarregados de educação quando “depositam” todos os dias úteis os seus educandos na família-escola (o professor é pedagogo, pai, mãe, irmão, amigo, companheiro e muito mais).
Quanto mais o professor É como pessoa e na qualidade profissional e ética, quanto mais se dá deontologicamente, mais revoltado se sente com situações de injustiça e de passividade da tutela face à resolução de problemas de indisciplina. Leia-se por exemplo o estatuto de ética dos deveres dos alunos, obsoleto e incapaz de ditar soluções que, por exemplo, poderiam passar por multas/coimas dos E.E. sobre os atos de vandalismo e de violência de muitos alunos. Estou certa que iria resolver muitos “pá que podre e tásse bem e o que é que este gajo quer…” ditos dezenas de vezes num curto tempo em sala de aula, coibindo-me de escrever aqui o que li em 147 ocorrências de participações disciplinares que UMA TURMA teve no ano de 17/18 no TEIP da Trafaria. As blasfémias e o calão duro e outras ameaças dariam por si só uma tese. Formação para E.E. precisa-se também!
Os docentes estão bombardeados com formações pós laborais, após aulas com turmas lotadas, projetos, reuniões, papelada, relatórios e alguns ainda são contemplados com avaliações externas, implicando deslocações a outras escolas e burocracias sem ganharem mais por isso.
O tempo de serviço não letivo (escondidinho nos horários) acaba por ser tempo letivo e de alto desgaste. Tudo gira à volta dos custos e na sobrecarga dos docentes das escolas para não empregarem mais docentes que bem precisam de empregabilidade e chegam a ser avós/avôs e ainda não estabilizaram na carreira docente.
Os professores estão exauridos e foi-lhes (pelo abandono de tutelas, interesses financeiros) retirado o seu estatuto digno de uma profissão de grande valor mas e de alto desgaste.
Há escolas que são autênticos barracões, campos de concentração e de batalha constante e sem condições humanas e muitas delas cobertas com amianto.
A média de trabalho de um professor é a seguinte: entra às 8h e 30m e sai às 18h carregado de trabalho para casa ou escondido nos emails.
Em casos de indisciplina a Escola Segura remete para os tribunais, processo moroso na decisão.
Narro apenas um episódio que aconteceu comigo (e que não venham cá alguns teóricos falar em pedagogias baratas e de gabinete que já passei por 22 escolas, muitas TEIP, direção, coordenações, direções de turma e gabinetes e centenas de formações e pós graduação) e tenho, em geral, uma boa relação com os alunos. Tenho 57 anos e a vida dedicada ao ensino e ao teatro pedagógico e social.
Numa aula, fui abrir a porta para deixar entrar dois alunos que se tinham atrasado, mas nesse instante, outro aluno (de outra turma) deu um violento pontapé do lado de fora da porta de ferro, arremessando-a contra mim, fui embater contra a parede da sala e com assistência imediata da escola, ambulância, hospital, tratamentos dentários, idas à médica do tribunal de Almada, clínicas, etc. Passados 3 anos fui responder a tribunal levando 18 testemunhas, incluindo a Diretora e outros elementos da Direção, outros docentes e Assistentes Operacionais. A juíza do tribunal de Almada deu o caso por concluído ilibando o jovem que já tinha 18 anos, “porque estava arrependido” e ainda tive de pagar 102 euros, para além de todos os custos, taxas, medicação e nada de seguro escolar, nem fui ressarcida. Infelizmente esta é a situação retrato do estado da Educação e no meu caso, também, da Justiça, em Portugal.
Todos os dias testemunho o esforço de colegas (e não me venham falar em professores permissivos) que a maioria dos docentes fazem o pino para gerir casos destes e com muita pedagogia e educação no terreno! Professores permissivos estão em minoria.
Valorize-se a carreira dos professores! Há alunos que não têm educação de base familiar e os docentes não têm receitas mágicas para resolução de violência, que antes de tudo, é um problema social, agravando-se ainda mais com as chamadas turmas bomba, como alguns CEF, com excesso de alunos por turma, impossibilitando um acompanhamento individualizado em sala de aula. Isto é trágico, dramático e as vítimas são sempre os docentes e assistentes operacionais.
A tutela faz ouvidos “moucos” e convém que esteja cega…
Estão em causa os descongelamentos e as progressões, o faseamento foi um engodo para serenar as águas …Interesses financeiros e políticos.
Ai pois é! Congelado também está o senhor ministro, agora na sua (des) continuidade de governo que não dá a cara, não aparece. Por certo o gabinete tem boas condições e não terá amianto…Convido-o a “observar” comportamentos de alunos, até no recinto escolar. Estou certa que não voltará a aceder ao convite de volta! O terreno educativo é de guerra e é duro, mesmo!
A propósito desta polémica real e dura, conheço o Dr. Sandro Gonçalves, a sua pedagogia, o seu estar profissional, o seu sentido de justiça social e educativo.
Obrigada Sandro, estamos contigo. Terás sempre a nossa força!
Manuela Richter