Educar os Filhos, por Agostinho Silva

EDUCAR OS FILHOS

(muita sorte, mesmo para os que sabem como)

Abraçou-me e a chorar disse: pai, eu sou muito novo, não sei lidar com a vida. (já não falo aqui da forma como “colocou” o olhar e entoou as palavras, nem sequer da forma como eu as ouvi e sobre elas reflecti no imediato.

Cabe-me dizer que os nossos filhos (falando genéricamente), não mostram mais educação que aquela que receberam em casa. Quero dizer mais: mesmo os pais achando que lha deram; se eles não a assimilaram, não deram.

Trata-se de uma verdade estranha, pois todos nós achamos que os nossos filhos seriam bons se não fossem as companhias (O Inferno são os outros – SARTRE). Tão verdadeira a situação, que nenhum de nós a quer admitir (principalmente em sua vida).

Por vezes dou comigo a reflectir sobre a forma como educamos a geração que nos segue. Demos por ventura tudo de forma tão leviana, como leviano foi o modo como eles absorveram.

Os nossos filhos são bons corações e crueis ao mesmo tempo. Negoceiam connosco uma parte significativa das nossas decisões e das suas vontades.

Estou convencido que por mais méritos que tenhamos, o que mais influencia os nossos filhos é a SORTE. Não digo com isto que os educamos “à sorte” (de qualquer modo)… mas que esse é certamente um dos factores que mais vai pesar no modo como eles vão tomar um rumo no futuro.

A minha geração, ouvia algumas coisas em casa, ia-as absorvendo, tentando delas fazer uma normativa de vida, sendo que uma boa parte, a isso acrescentava o que (mais) recebia noutros momentos da vida, ensinamentos e experiências. Os avós davam-nos bons conselhos, nós ouviamos, o povo (comunidade) participava da construção de cada um, com tal preocupação de que nenhum dos “nossos” se perdesse.

Os nossos filhos já tiveram mais bolas num ano que muitos de nós em toda a vida. Já viram mais “bonecos” num fim de semana, que os que passavam na televisão num ano na nossa geração; já comeram mais gelados, gomas e pastilhas; tiveram mais “smartphones/supercleverphones” que nós piões; já viajaram mais num ano que nós até à idade adulta.

Mas não guardaram vacas na “Folha”, nem enregelaram as mãos a apanhar nabos; não jogaram á bola nos lameiros, nem ataram uns cordeis à roda da bicicleta porque o pneu estava rebentado… as sapatilhas deles nunca cheiraram a novas, mais que cinco minutos… os brinquedos.. nem sabem quem lhos deu.

O que não nos mata, fortalece-nos! será que lhes faz falta o que nós (alguns claro – e disso só guardo fantásticos momentos e recordações) tivemos a mais?

 

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4 comentários

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    • Karin on 30 de Outubro de 2019 at 17:45
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    Bom, muito bom.

    • Vanda Maria de Bragança Serrão on 30 de Outubro de 2019 at 18:13
    • Responder

    Esquecem – se da questão do divórcio, que leva a que o pai e a mãe tenham companheiros intermináveis e às duas por três, as crianças já nem sabem quem é o pai ou mãe. Não estará na hora dos serem mais compreensíveis para com eles e tentarem manter a família?

    • Marta on 30 de Outubro de 2019 at 22:28
    • Responder

    Efetivamente, o problema da Escola, são “os problemas” que os alunos trazem das famílias e da sociedade para dentro da escola. A Escola resolveria os seus problemas se não tivesse alunos sem educação, sem regras, sem limites, habituados a ter tudo o que desejam, na hora, a manipular (para não dizes mandar) nos pais, a satisfazer todos os seus desejos, a nunca ouvir um não….Porque hoje, os pais pensam que educar é dar tudo , esquecendo que educar precisa de tempo, acompanhamento, regras, negociações, prémios, mas também castigos. E educar para o trabalho, para o esforço.
    E, já agora, restituam à Escola e aos seus agentes o estatuto de dignidade e respeitabilidade que sociedades civilizadas lhes conferem. Uma sociedade que não educa para os valores, desde logo tendo o respeito como um dos seus pilares, é uma sociedade que, aos poucos, começará a desmoronar-se.

    • Diretor de Turma on 12 de Novembro de 2019 at 15:10
    • Responder

    Sim, aturar o filho do Sr. professor Agostinho Silva é pior que pegar um bezerro pelos cornos…

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