Entrevista ao Diretor do Agrupamento de Escolas de Carcavelos

Entrevista do site ComRegras ao Diretor do Agrupamento de Escolas de Carcavelos (A escola que não chumba), Adelino Calado.

Entrevista ao Diretor do Agrupamento de Escolas de Carcavelos – Adelino Calado

 

Arupamento Carcavelos

O Agrupamento de Escolas de Carcavelos, foi notícia num passado recente, sobre a aplicação de um projeto que visa a progressão do aluno como forma de combate ao insucesso e indisciplina. Este é um assunto que não é consensual na comunidade educativa, por essa razão o ComRegras quis ouvir o Diretor Adelino Calado para que possamos conhecer melhor o seu trabalho.

Como caracteriza o meio sócio-económico em que a escola está inserida?

O Agrupamento de Escolas de Carcavelos está inserido numa área em que predomina um meio médio alto, do ponto de vista sócio-económico. No entanto, é importante salientar que na área de influência das Escolas do Agrupamento, e falamos num raio de cerca de 2/3 km, existem três grandes Escolas Privadas com mais de 2000 alunos cada. Na prática o ensino privado recebe cerca de três quartos dos alunos da zona.

Antes da implementação do atual modelo de avaliação e aprendizagem, como caracterizava a vossa escola ao nível do aproveitamento e disciplina?

O aproveitamento das Escolas do Agrupamento era manifestamente baixo, sendo as dificuldades de aprendizagem um dos maiores problemas reflectido nas avaliações externas.

Disciplinarmente era uma Escola com muitos problemas, sendo que a maioria das ocorrências, cerca de 92%, se passavam com alunos repetentes.

Qualquer mudança tão significativa leva normalmente algum tempo a implementar e surgem sempre algumas resistências. Pode contar-nos como decorreu o processo de implementação do atual modelo?

Claro que qualquer alteração ao instituído, ao tradicional, ao dito “normal” é muito difícil.

Assim, a proposta de implementação de um projecto, lançado em 2003, tinha como objectivo temporal 12 anos!

Lançar um projecto na área da educação a doze anos é algo em que poucos acreditavam. Foi necessário muita teimosia e alguma coragem para iniciar o projecto.

As resistências apareceram de todos os quadrantes, docentes, encarregados de educação e alunos tendo em conta que o primeiro grande” momento” dizia respeito à forma de tentar encontrar soluções para os alunos que não conseguiam realizar as aprendizagens que todos queriam que os mesmos realizassem. A maior dificuldade foi procurar fazer com se aceitasse a diferença de momentos de aprendizagem entre os diferentes alunos.

Aceitar que nem todos apreendem as mesmas coisas nos mesmos momentos foi, e ainda hoje é, bastante difícil de aceitar.

A não retenção como medida fundamental foi a primeira grande decisão assumida pelo Conselho Pedagógico que veio despoletar todo o processo sequente.

A avaliação das aprendizagens, o encontrar de soluções alternativas ao processo e percurso escolar de cada aluno, foram elementos de um processo moroso, com grandes avanços e alguns recuos, muita formação interna, grande dedicação e muita motivação para o sucesso de todos.  

Em que consiste o vosso modelo?

Na realidade o “nosso modelo” nada tem de “modelo”, apenas reflecte o que toda a literatura e legislação aponta no que se refere a aprendizagem e educação.

Aliás se olharmos com alguma atenção para a Lei de Bases do Sistema Educativo – Lei 49/2005 de 30 de agosto:

“…O sistema educativo é o conjunto de meios pelo qual se concretiza o direito à educação, que se exprime pela garantia de uma permanente acção formativa orientada para favorecer o desenvolvimento global da personalidade, o progresso social e a democratização da sociedade…”

Constatamos que esse foi o mote para todo o desenvolvimento do nosso trabalho.

De facto não acreditamos que a retenção é a melhor forma de recuperar alunos, ou de lhes proporcionar as condições necessárias para o desenvolvimento da sua personalidade e das suas capacidades, nem tão pouco garantia para o sucesso individual de cada jovem.

Procuramos diagnosticar, a cada momento, as aprendizagens face aos conteúdos e competências que se pretendem desenvolver, utilizando vários instrumentos de avaliação (consensualizámos a utilização de 13 instrumentos), tentando perceber quais as dificuldades sentidas por cada aluno. Esta informação constitui elemento base para a definição de todas as estratégias de recuperação, e de planeamento do futuro.

A utilização de todas as modalidades de formação – CEF – PCAs – Vocacionais – Profissionais, para além do ensino regular tem sido exploradas sempre com uma orientação e acompanhamento dos Serviços de Psicologia e Orientação da Escola, e das várias parcerias que estabelecemos.

Sei que abdicaram dos toques de entrada e que os alunos são obrigados a preencher um relatório sempre que chegam atrasados. Essa medida não aumentou a burocracia dentro da escola? Qual o destino dos relatórios?

Uma das áreas em que entendemos ter que interferir decisivamente tem a ver com a “autonomia” e a “responsabilidade”, que julgamos que os alunos não têm.

O acabar com os sinais sonoros de aviso leva a uma maior atenção de todos face à responsabilidade que lhes é incutida no sentido de não se atrasarem. E tem resultado.

Quanto aos atrasos e aos relatórios, mais do que trabalho acrescido eles têm-se revelado como elementos fundamentais no aumentar do “tempo letivo” inicial que estava a ser muito prejudicado pela entrada fora de tempo de vários alunos.

Os relatórios são preenchidos pelos alunos, e lidos ao telefone pelos mesmos, aos seus EE na presença dos elementos do gabinete de acompanhamento disciplinar. É no âmbito deste gabinete “GAD” que esses documentos são tratados e comunicados aos Diretores de Turma respectivos, sem mais tarefas burocráticas.

Consegue quantificar a diminuição nos atrasos?

Cerca de 12% dos 2570 alunos chegavam atrasados – neste momento esse valor desceu para cerca de 0,7% !

Ao consentir a passagem administrativa nos anos intermédios, é natural que se pense em facilitismo. Como é que conseguiram manter os alunos responsáveis e aplicados?

De facto a Escola “não consente”, a Escola “obriga” os alunos a acompanhar os seus colegas, independentemente das classificações obtidas, se o Conselho de Turma considerar que essa é a medida mais adequada para aquele aluno.

Tradicionalmente consideramos que chumbar um aluno tal corresponde a um “castigo”, daí a sua frase de “…consente a passagem…” e se fale em “…facilitismo.”

No entanto será interessante analisar um pouco melhor e logo verificamos que ao transitar um aluno irá ter um ano muito mais trabalhoso, pois tem que para além do trabalho comum a todos os colegas, que proceder à recuperação do que ficou por apreender. Quanto ao aluno que “chumba”, no ano seguinte o que de facto se passa é que vai ter menos trabalho, “já deu o que vai ouvir outra vez”, é mais velho que os restantes colegas de turma, enfim passa a ser um “líder”, normalmente da indisciplina.

Com a implementação do modelo, houve alterações ao nível disciplinar?

Claro que este foi um dos problemas que levaram também ao olhar para a indisciplina. Quando iniciámos o projecto, os problemas disciplinares que ocorriam correspondiam a cerca de 90% de casos com alunos repetentes ! Ora a não existência de repetentes veio eliminar essas situações. Assim, os problemas disciplinares atuais revelam-se no “…não está sossegado na aula…”, “…levantou-se sem autorização…”, “… avisado para não conversar, não acatou a instrução…”, enfim problemas menores, o que nos leva a afirmar que a disciplina melhorou. Este ano ainda não houve lugar a nenhum processo disciplinar, com cerca de 2500 alunos.

A que se devem essas alterações?

Julgo que em grande medida, a maior aproximação com a família, e a não existência de repetentes, são os pontos fundamentais, aliados à maior autonomia e responsabilidade assacada aos alunos.

Acha que o vosso modelo pode ser aplicado em escolas com elevados níveis de indisciplina?

Quando iniciámos o projecto, em 2003/2004, a Escola Sede tinha cerca de 480 alunos e teve trinta e tal processos disciplinares !

Julgo que o primeiro passo é mesmo o envolvimento das famílias, só assim é possível tratar os problemas disciplinares.

Não é um bocadinho utópico pensar que os alunos com elevados índices de indisciplina vão ficar mais responsáveis, assíduos e pontuais ao saberem que dificilmente ficam retidos?

De facto a pergunta elaborada como está, descontextualizada tem toda a razão de ser, e reflecte bem a nossa forma de estar e viver o ensino e a aprendizagem, que tradicionalmente considera que a retenção é um “castigo” !

Mas como tudo na vida, o acreditar que é possível é elemento fundamental para a alteração de processos e acima de tudo de mentalidades.

Claro que o trabalho de envolvimento de todos os elementos do processo é imprescindível, e são funcionários, professores e família que desenvolvem e acompanham todas as facetas dos alunos que têm que em conjunto encontrar as motivações necessárias à alteração de atitudes e comportamentos.

Muito obrigado Sr. Diretor pela sua disponibilidade.

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