Se houve momentos em que tivemos esperança, hoje, má fortuna nossa, temos a pior das certezas. Falo de quê? Da Educação, dessa mesma Educação que nunca conhecerá a sua redenção no nosso país, atolada num calvário que perdura há já 40 anos mas que, nestes últimos três, assumiu proporções inimagináveis. Haverá quem diga que já não é um calvário, mas sim um Cratário. Na realidade, aquilo a que assistimos este ano em mais um arranque do ano letivo ultrapassa as fronteiras mais recônditas do absurdo, da incompetência, do desrespeito por toda a comunidade educativa. É verdade que a Educação em Portugal é um monstro e que pouco ou nada se tem feito, do ponto de vista das reformas estruturais, para o mudar. Também é verdade que o monstro não é filho de Crato, mas este ministro e a sua equipa do Ministério da Educação acabaram por parir um bastardo, conseguindo por inércia, atropelo, incompetência e más decisões políticas, potenciar ao máximo a ineficácia e a inércia do sistema educativo. Aquilo a que assistimos este ano em matérias como vinculação e colocação de professores é inacreditável, chegando o ministério a atropelar a sua própria legislação, criando mecanismos artificiais – até na própria plataforma informática de gestão de todos estes processos – para, por exemplo, invalidar aquilo a que está obrigado por decisões judiciais europeias a fazer. É perverso… E em todo este processo nem os próprios sindicatos estão isentos de culpa, pois a crescente politização da “luta” que protagonizam na Educação pouco ou nada tem a ver com as legítimas aspirações dos professores e outros agentes educativos, mas sim com estratégias políticas mais subordinadas a afirmações partidárias. É verdade que todos sabemos que a raiz do problema na Educação vem de longe e é estrutural. Temos consciência de que existem professores a mais num sistema que não terá capacidade para os absorver. Todos sabemos que no final da década de 90 o paradigma tinha de ser alterado: abandonar a alfabetização dominante do pós-25 de Abril em prol da qualificação do ensino em Portugal. Também é verdade que assumimos os pressupostos e temos assistido a inúmeras tentativas de reforma na Educação. Mas, na verdade, mudámos na forma mas não na mecânica e continuámos a injetar no sistema milhares de professores que já não faziam falta, como se a primeira necessidade ainda fosse alfabetizar metade da população portuguesa. Na verdade, ninguém teve ainda coragem política para protagonizar a verdadeira reforma estrutural da Educação em Portugal. Com exceção, talvez, para Maria de Lourdes Rodrigues, que pelo menos ousou falar nela.
José Caria




7 comentários
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Quem quer ser bom que morra ou que se ausente, certo? Até a Dra. Mª da Lurdes parece uma santa ao pé das confusões criadas pelo atual ministério!!! Apesar de ter tentado dividir a classe (qual classe?), agora até parece que só fez coisas boas…. ESTÃO A GOZAR COMIGO?
NOTA: Quando o 1º ministro Cavaco Silva se demitiu para concorrer a Presidente, afirmei que era uma má jogada política – estava demasiado fresca a memória das restrições impostas enquanto chefe do governo. Passados 10 anos, já ninguém se lembrava desses erros e eis que o senhor ganha as eleições presidenciais. Por isso, chamo a atenção de todos os colegas – LEMBREM-SE DO QUE ACONTECEU NO TEMPO DA DRA. Mª DE LURDES RODRIGUES, OU, DAQUI A 10 ANOS, ESTAMOS A ATURAR NOVAMENTE ALGUÉM QUE PRETENDE DIVIDIR PARA REINAR (o colega até já a acha preferível, não é?)
A culpa é das universidades que continuam a formar professores. Parem com isso. Já é hora das universidades serem financiadas não pelo estado mas pelas empresas. Ou seja quanto mais empregabilidade mais dinheiro. Assim claro vai continuar o circo.
Discordo totalmente do autor quando diz que o sistema já não tem capacidade para absover professores, quando na verdade: , 1º- temos uma média etária de professores das mais envelhecidas da europa, pelo que em condições normais teríamos milhares de professores abaixo dos 35 anos a serem contratados ( basta ler o último relatório da OCDE sobre educação); 2º – A função dos professores é muitíssimo mais abragente do que alfabetizar a população, e com a explosão de conhecimento que houve nos últimos 40 anos são necessários muitos mais para difundir esse conhecimento junto da população; 3º – se não fossem as políticas económicas catastróficas dos últimos 20 anos, que expulsaram centenas de milhares de portugueses para o exterior, estaríamos neste momento com escolas lotadas e com falta de professores.
Ora ,nem mais!! Os professores que estão aí são todinhos necessários!! Com tantos/as bocas abertas calçudos/as e patudos/as com ignorância a sair-lhes pelos poros: é só tentarmos ter uma conversa mais abrangente e vê-se logo a inépcia à frente dos olhos e nariz!! Os mais jovens estão uma miséria a todos os níveis, (salvo raríssimas excepções)!!
Não concordo consigo. Há Professores excelentes, bons e medíocres como em qualquer profissão. O que não invalida que seja necessário contratar Professores mais jovens para renovar os quadros como aliás é prática comum em muitas empresas. Portugal tem uma taxa baixíssima de Professores abaixo dos 30 anos, entre 3% a 6%. Compare com o Reino Unido, por exemplo, que tem cerca de 22% de Professores abaixo do 30 anos. Está tudo no relatório da OCDE, que foi colocado aqui no blog num post anterior.
muita conversa da treta….compreender o fenómeno é que nada! Ai CARIA…
Toda a gente condena o MEC mas quem trabalha lá continua hirto e firme. 🙁
O problema é terem deixado de considerar a nossa profissão como de risco, obrigando colegas desgastados a trabalhar com turmas ENORMES até aos 65 anos!!!!
Além disso estas turmas nunca deveriam ter 26/30 alunos, mas sim 20 alunos no máximo…o que no JI/ 1.º ciclo já é dose.
Deveriam respeitar os alunos com NEE, e darem efetivamente as reduções de turma… tendo turma de 15 alunos…
Pois …a educação vai mal…os professores estão cansados porque perante turmas enormes não conseguem dar respostas às necessidades de cada aluno (seja ele excelente, bom ou com dificuldades)…pedem-lhes para que façam milagres….e nós professores lutamos desesperadamente para esse milagre …o resultado? O professor já não tem tempo para falar com os seus meninos, deixar-lhes esse tempo porque além de tudo isso, temos programas que não respeitam a faixa etárias deles, sendo cada vez mais exigentes, utópicos (tendo em conta a quantidade de alunos por turma!)….
Sim, sem dúvida, a educação vai mal….e por muito motivos…