No Guia para a Realização das Provas-Ensaio (Ano Lectivo 2024/2025), lê-se no Ponto 9, relativo à Bolsa de Classificadores das Provas-Ensaio e Procedimentos, o seguinte:
– “A classificação dos itens das provas-ensaio compete à bolsa solidária de professores classificadores, organizada em cada agrupamento do JNE e constituída pelos professores previamente indicados pelos diretores dos agrupamentos de escolas…”
O que poderá significar “bolsa solidária de professores classificadores”?
O significado da palavra “solidária” remete-nos para a ideia de altruísmo, caridade e piedade, o que não pode deixar de causar apreensão e estranheza, tratando-se de um acto oficial como a correcção de Provas…
Por outras palavras, parece que se apela aos Professores para que sejam “solidários”, “caridosos” e “piedosos”, o que não faz qualquer sentido no âmbito do desempenho de uma tarefa formal, onde não deveriam entrar considerações de carácter subjectivo como o altruísmo ou a solidariedade…
Não sendo possível compatibilizar um acto formal com apelos “sentimentalistas” “melosos” ou “piegas”, restará a conclusão de que se espera dos Professores a realização de trabalho pro bono, no sentido de não se prever qualquer compensação, mas não terá havido a coragem de o assumir frontalmente…
O resultado disso acaba por ser uma bizarria, onde se misturam aspectos formais com apelos bacocos à bondade e à benfeitoria, tentando convencer os Professores a corrigir Provas-Ensaio, sem serem retribuídos ou remunerados por isso…
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Apesar de poder parecer muito benigna, a referida “bolsa solidária de professores classificadores” poderá comportar um risco sério e grave:
– Contribuir para que algumas vertentes do exercício da função docente possam ser vistas como algo que pode dispensar remuneração ou algum tipo de compensações, bastando para isso apelar ao espírito “solidário”, à “caridade” ou à “piedade” dos Professores…
E tudo isto parece quase anedótico, em particular quando, alegadamente, se pretende o respeito e a valorização do trabalho docente…
Esta medida da Tutela, iminentemente ardilosa, acabará por fazer dos Professores uma espécie de “voluntários à força” e, assim sendo, dificilmente contribuirá para a credibilização do próprio trabalho docente…
Além disso, decorrente dessa “bolsa solidária”, a ideia de uma posterior catalogação dicotómica “Professores solidários”, por oposição a “Professores egoístas ou insensíveis”, poderá criar mais uma cisão no interior da Classe Docente, já tão agastada por divisões e quezílias internas…
Fica-se com a sensação de que se tentou disfarçar o trabalho pro bono através de um apelo grotesco, desarrazoado, à solidariedade dos Professores…
Abrindo-se este precedente, que outras bizarrias ou excentricidades poderão vir no futuro?
O exercício da solidariedade, seja de que natureza for, deverá ser sempre uma escolha pessoal e cada um deve poder decidir livremente de que forma(s) a pretende praticar…
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Além do mais, a “solidariedade” impingida, ainda por cima praticamente imposta pela própria Tutela, soa sempre a algo falso e hipócrita, mas também patético…
Paula Dias




7 comentários
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Ser Solidário, um disco de José Mário Branco 🙂
Depois de corrigir solidariamente as provas, vou experimentar ir à mercearia e pagar a conta com solidariedade 🙂
Pois…
solidária: Que tem interesses e responsabilidades recíprocos.
“solidária”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2025, https://dicionario.priberam.org/solid%C3%A1ria.
Estes eufemismos ainda são pior! Se não nos tomam por lorpas, ou incultos, continuam no mínimo a gozar com a nossa cara. O tempo que gastam a inventar estas formulação linguísticas estapafúrdias podia ter sido usado em qualquer coisa minimamente útil para a sociedade.
Muito bem, Paula. Olha, também ofereço este presentinho ao senhor ministro
https://escolapublicablog5.com/2025/01/23/solidaria-e-a-sua-tia-senhor-ministro-da-educacao/
Acho que é isso, sim.
Tenho uma conta bancária solidária (o termo é mesmo esse). Isto é, partilhada com a minha mulher (dois titulares).
Nos cheques até aparece “CS” (conta solidária) após o nome do primeiro titular.
Isto significa simplesmente que os professores que integrarem a bolsa são solidariamente responsáveis pela classificação das provas.
Este apelo “pulha”, da parte do MECI, só vem trazer a lume uma ideia que paira há uns bons anos na mente do poder: a de que os professores não deviam receber pelo trabalho que fazem.
A de que o trabalho docente devia ser pro Bono.
A ideia de que o docente é um missionário.
É uma ideia que provavelmente radica no tempo ancestral em que o clero ensinava nos conventos pro Bono, e os missionários ensinavam nas missões ultramarinas.
Sr. Ministro já não somos missionários. Temos casas e quartos para pagar, filhos para sustentar e gastos normais de um cidadão europeu.