Viva “la vida loca”…

 As aulas terminaram oficialmente, mas o frenesim e a vertigem continuarão, incessantemente, em cada escola…

As aulas terminaram, mas começou, entretanto, uma corrida verdadeiramente desenfreada, frenética e vertiginosa, tendo como meta um derradeiro clímax, atingido pela prescrição de inúmeras e, muitas vezes, incompreensíveis tarefas. Tarefas sempre imperiosas, urgentes e prioritárias, como se isso fosse lógico ou possível…

Bateladas de solicitações, muitas vezes redundantes e absolutamente irrealistas, sem fim à vista e sem um propósito claro ou definido, mas impossíveis de ignorar…

E o mais certo é ficar-se preso num círculo vicioso de trabalho insano e de automatismos comportamentais, repetindo-se até à exaustão todos os vícios e erros de funcionamento, sem que surja algum tipo de pensamento crítico, contestatário ou inconformado, capaz de interromper esse movimento errático e ecolálico…

Age-se, frequentemente, em modo de “piloto automático”, empreendendo a maior parte das acções sem verdadeira intencionalidade e sem plena consciência… Na condição de “adormecidos e entorpecidos”, tende a aceitar-se todas as decisões tomadas por terceiros e a deixar-se de procurar soluções para os problemas, como se se tivesse abdicado da capacidade de pensar por si próprio…

O mais importante parece ser continuar a cumprir todas as “orientações”, mesmo que o absurdo seja notório ou até embaraçoso…

Aparecem, assim, e como que por uma inverosímil geração espontânea, convocatórias para inúmeras reuniões, disto, daquilo e daqueloutro; catadupas de pedidos de elaboração de registos e relatórios, da mais variada ordem e natureza: estratégias, procedimentos, metodologias, para tudo e para todos; análises de resultados por disciplinas, por turma, por ano, por altura e peso dos alunos e pela cor dos respectivos olhos; pareceres sobre tutorias, cidadanias, mentorias, articulações várias, entre muitos outros; estratégias de remediação por aluno, por turma ou pelo que se queira…

Acresce-se que o que está enunciado nessa panóplia de documentos e de registos nem sempre corresponde ao que na prática foi realizado, servindo apenas como adorno ou como tentativa de mostrar uma “realidade” que efectivamente não existe…  

Tudo isto, muitas vezes, sem nexo e sem “fio condutor”, mas com muita fantasia, traduzida por uma enorme capacidade inventiva e criativa…

Tanta pretensa proactividade, tanto suposto trabalho colaborativo e tanto dinamismo ilusório! E é simplesmente assim, porque sim…

A alucinação, o desvario e o frenesim são notórios:  formulam-se exigências, seguidas de mais exigências, muitas vezes, inconsistentes e atabalhoadas, sem se saber para que efectivamente servem ou que eficácia ou pertinência têm…

No fundo, espera-se que outros demonstrem um elevado “espírito de missão” (raios partam o “espírito de missão”!)  e confia-se no seu expectável conformismo e silêncio, que certamente os levará a cumprir um número infindo de tarefas, ainda que desnorteadas e absurdas…

E não pode deixar de se perguntar:

– Que diabo andam a fazer alguns órgãos de coordenação e de supervisão pedagógica de muitos Agrupamentos? Terão plena consciência das orientações por si emanadas?

– Não são esses órgãos que apreciam e validam a maior parte das decisões e orientações pedagógicas? Não querem, não sabem ou têm medo de agir e de contrariar esta insuportável “normalidade”?

E todo o frenesim, entropia e vertigem, gerados por esta espécie de delírio, assentes em percepções alteradas da realidade e traduzidos por inúmeras medidas avulsas e “mantas de retalhos”, vão sendo aceites e interiorizados, como se fossem uma “fatalidade irreversível” ou uma “realidade normal”…

Durante o próximo mês, viver-se-ão dias de muita “vida loca” em praticamente todas as escolas… E não será, por certo, no sentido da diversão, da folia ou da farra (antes fosse!), mas antes da insanidade, alienação e desvario…

As reclamações ou contestações, essas, obviamente, poderão esperar e ficar para depois, como quase sempre ficam… Agora não há tempo, agora estão todos demasiado ocupados a cumprir um sem número de tarefas iminentemente insanas…

Num Agrupamento de Escolas, quantas reclamações ou protestos são formalmente endereçados ao Conselho Pedagógico ou ao Conselho Geral, quer por Grupos de Recrutamento, Departamentos ou por alguém em termos individuais?

Havia duas maneiras de partir: uma era ir embora, outra era enlouquecer” (Mia Couto, “Terra Sonâmbula”).

Nas escolas não faltam motivos para “enlouquecer”: desde o confronto com insanáveis injustiças (ADD, mecanismos de progressão na Carreira, entre outras), até atitudes déspotas e ditatoriais por parte de alguns superiores hierárquicos, passando pela insustentável carga burocrática, pela “roleta russa” dos Concursos ou pela obrigação de satisfazer algumas pretensões fantasiosas e devaneios alheios, de que é exemplo paradigmático a execução do Projecto MAIA…

Vamos embora ou enlouquecemos? Ou fazemos alguma coisa para não ir embora, nem enlouquecer?

No pior dos cenários, e ainda que não se tenha ido embora, talvez alguns já tenham “partido” há muito, desistindo de si próprios e dos outros, sem se darem conta disso…

Quem pára esta alucinação?

(Matilde)

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13 comentários

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    • Sérgio Dantas on 18 de Junho de 2022 at 9:37
    • Responder

    Concordando na forma e conteúdo… mas estas reflexões feitas todos os anos”ad nauseam” já nada interessam… e respondendo à questão de qdo se para esta loucura?…basta ver e ouvir os professores nas salas de professores….refilam, barafustam, insurgem-se violentamente contra tudo e todos…qdo entra o diretor calam-se, alguns até se levantam e na altura das lutas … a conversa da treta…pq as greves? … o dinheiro faz falta…prejudicam-se os alunos…não consigo cumprir as planificações… enfim…temos o que muitos merecem.

      • Luluzinha! on 18 de Junho de 2022 at 13:15
      • Responder

      Precisamente. Comentário incisivo. Esse continuará a ser o cerne da questão. Perpetuar o lamento, permanecer no domínio oco, inconsequente das palavras e não agir, jamais conduzirá ao que, realmente, importa.

    • República das bananas. on 18 de Junho de 2022 at 9:41
    • Responder

    Projeto MAIA, uma aberração!

    Construir uma casa pelo telhado!

    Um autêntico massacre dos professores e alunos!

    Só quem sente na pele é que se apercebe do absurdo deste projeto!

    Instalou-se o CAOS e o que está para vir…

    Preparem-se para a machadada final no ensino!

    • Big Brother Watching You on 18 de Junho de 2022 at 9:46
    • Responder

    Excelente retrato!
    O delírio zombie para camuflar a realidade de exaustão profissional em piloto automático.
    O delírio zombie de produção de falso sucesso escolar de arquitectura institucional para promover estatísticas nacionais, internacionais, mundiais,planetárias, galácticas, intragalácticas e extragalácticas de sucesso.
    O delírio zombie de fogueiras de vaidades para impressionar avaliadores, avaliadores de avaliadores, avaliadores de avaliadores de avaliadores, avaliadores de avaliadores de avaliadores de avaliadores, diretores, directores de directores, inspectores, inspectores de inspectores de inspectores que nem sequer existem ou não estão nem aí! Tal como não estão todas as entidades, miasmas e fantasmas inventados pela cabeça de cada paranóico, nem a matriz das matrizes de matriz da cada computador!

    Solução simples, rápida e eficaz: devolver a coluna vertebral aos professores!

    Como? Apagando o 54, 55, 75, 41, 26,12567… toda a “Burda” M*rda que se fez a partir do livre e cofristico engenheiro das Beiras e Trás os Montes!

    • Panike Way of Living on 18 de Junho de 2022 at 9:51
    • Responder

    Existe de há uns tempos para cá uma nova forma de fazer política. É a chamada empolação de imediatismo imediato com apaga fogos de pânico instantâneo!

    • Carago on 18 de Junho de 2022 at 10:07
    • Responder

    E os representantes dos professores, fazem alguma coisa relativamente a isto?

    • Carlos Moreira on 18 de Junho de 2022 at 10:11
    • Responder

    É a chamada “produtividade” que grassa no ensino, neste país pequenino!

    • Floyd on 18 de Junho de 2022 at 10:11
    • Responder

    Eih, people leave us teachers alone!
    We are not another brick in the wall!

    • Matilde on 18 de Junho de 2022 at 11:46
    • Responder

    “As aulas terminaram oficialmente…”

    Peço desculpa a todos os Docentes e Alunos do 1º Ciclo e do Pré-Escolar pela afirmação anterior, uma vez que, e na verdade, as aulas nesses níveis de ensino ainda se encontram a decorrer…

    Lapso meu, cometido sem qualquer intenção de menosprezar ou de desvalorizar tais níveis de ensino…

    Lamentando o sucedido, não posso, contudo, deixar de referir que a principal mensagem deste texto não se prende com as datas exactas em que terminaram ou terminarão as aulas em todos os níveis de ensino…

    1. Na realidade, quando qualquer professor passa por um conhecido na rua, a primeira coisa que ouve é: ” Então, as aulas já acabaram, não !
      Ainda me aconteceu hoje. É horrível. Nem sonham com o que na realidade se faz nas escolas.

    • AntonioP on 18 de Junho de 2022 at 12:44
    • Responder

    AS aulas terminaram oficialmente???? Só para os alunos do ensino regular. Muitos alunos dos cursos Profissionais continuam as suas aulas, sabe-se lá até quando. O nº de horas de cada disciplina tem que ser lecionado e muitas turmas tiveram meses sem professor (ou por que não havia, ou porque meteu baixa e foi difícil substituir). Isto sem falar dos alunos que estão em estágio!

    • Alice on 18 de Junho de 2022 at 13:15
    • Responder

    Parabéns Matilde, por mais uma reflexão sobre a “vida loca” no sentido de insanidade, desvio, loucura que se vive na escola pública. Com os colegas a olhar para o seu umbigo, a classe dividida, muito dificilmente sairemos desta situação desesperante e desesperada.

    • Pedro on 18 de Junho de 2022 at 20:44
    • Responder

    ando louco tão louco vou bazar daqui 😂😂

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