MAIA (Monitorização, Acompanhamento e Investigação em Avaliação Pedagógica) – Luís Filipe Torgal

 

Nos dias 4 e 5 de junho, foi publicado no Observador, no Blog deAr Lindo e no site da Rádio Boa Nova (Oliveira do Hospital) um texto meu com apreciações críticas e interrogações sobre o projeto educativo MAIA. Pelas reações que recebi, nos dias seguintes à edição do texto, confirmei que muitíssimos colegas e outros cidadãos não docentes subscrevem as mesmas preocupações e dúvidas. A este propósito, leiam o artigo sério e clarividente de Paulo Guinote intitulado «Uma educação distópica», publicado no último número do Jornal de Letras (15-06-2022). Percebi também que o meu texto foi rececionado de forma virulenta pelos mentores do MAIA e por alguns dos seus discípulos, os quais preferiram injuriar aqueles que pensam como o autor, em vez de responderem às suas questões e contraditarem os seus argumentos. Nos sacrossantos grupúsculos do poder, os que questionam os enredos labirínticos destas pedagogias são acoimados de mentirosos, ignorantes e retrógrados. (Se vivêssemos no Estado Novo de Salazar ou Caetano, acusá-los-iam de «subversivos», «comunistas», perigosos «antissituacionistas» e haveriam de os sanear, prender ou degredar).

Os «cientistas» da educação instigadores do MAIA inculcaram nas suas mentes eruditas o dogma de que somente as suas teses educativas habilitam os alunos a pensarem e a desenvolverem o espírito crítico e que essas teorias têm a mesmíssima unanimidade e fiabilidade das leis produzidas pelas ciências exatas.

(Por exemplo, rejeitam que as suas práticas pedagógicas ampliem a burocratização da escola para níveis insuportáveis, corram sérios riscos de desvalorizarem o conhecimento científico estruturado e ousem transformar alunos e professores em «vendedores de banha da cobra», capazes de obrarem discursos persuasivos mas vazios e espúrios. E, num outro registo, não se pronunciam sobre as provas de aferição ou os exames nacionais dos últimos anos, cujas questões se tornaram demasiado básicas e, afinal, estão longe de apelar ao conhecimento e espírito crítico dos alunos, bem como à sua capacidade para produzirem textos bem escritos, fundamentados e estruturados).

Partindo desta premissa, concluíram que as teorias de avaliação / classificação que estão a impor, de modo estandardizado, aos professores de todos os cursos e níveis de ensino básico e secundário da escola de massas são tão absolutas e credíveis como as teses sobre a esfericidade da Terra.

Aos professores, alunos e pais resta aceitarem estas alegadas «verdades científicas» com servilismo, pois foram concebidas por luzeiros que (alegadamente) conhecem as comunidades educativas como ninguém e por isso engendraram ardilosos expedientes para erradicar o insucesso dos alunos.

Só lamento que apesar de tantas leis, portarias e circulares emitidas, apesar de tantas comunicações, congressos, centros de estudo e ações de formação realizados, apesar de tantos documentos de orientação elaborados, apesar das persistentes pressões exercidas sobre as direções dos agrupamentos, apesar de tanto dinheiro do erário público prodigalizado, estes «cientistas» e os seus apparatchiks ainda não tenham conseguido persuadir a maioria dos professores que as suas teses são puras, justas, inteligíveis, originais, infalíveis, imprescindíveis e exequíveis, e que estão a transformar a escola num lugar mais inclusivo, fraterno e promotor de uma formação e educação de excelência.

Felizmente para eles que a festa não terminou. Nos próximos quatro anos, o Ministério da Educação (cuja máquina está, talvez como nunca, capturada por estes «cientistas», que também já presidem ao «independente» Conselho Nacional da Educação) tutelado por um governo de maioria absoluta vai continuar a subestimar a formação científica dos professores e a «investir» ainda mais dinheiro em formações técnicas (catequizadoras) nas áreas da Avaliação, bem como da «Capacitação Digital» e, agora, dos «Mindfulness» (!). Ainda que mal pergunte: o que pensam os sindicatos e as associações de professores sobre o assunto?

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2022/06/maia-monitorizacao-acompanhamento-e-investigacao-em-avaliacao-pedagogica-luis-filipe-torgal/

14 comentários

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    • Tiago on 16 de Junho de 2022 at 16:12
    • Responder

    O processo de avaliação dos alunos deve abranger capacidades diferentes, continuo e sem diabolizar os testes, também não lhes concedendo um poder absoluto.
    É preciso um projeto MAIA pata concretizar estes pressupostos?

    • EUZINHO on 16 de Junho de 2022 at 16:15
    • Responder

    Muito bom! Tal e qual ! SENHORES DO MAIA: A MAIOR PARTE DOS PROFESSORES ESTÁ CONTRA; COOOONTRA! METAM ISSO NAS VOSSAS CABEÇAS! E não estão contra só porque sim, mas exactamente por serem a favor de uma Escola Pública de qualidade!
    RESPEITEM O ESTATUTO DA CARREIRA: EM METODOLOGIA OS SENHORES NÃO TÊM A AUTORIDADE PARA METER O BEDELHO! UMA DITADURAZINHA DE FANÁTICOS !
    OS PROFESSORES NÃO SE CALARÃO!

      • Falcão on 16 de Junho de 2022 at 23:07
      • Responder

      É isto tudo!!!
      Abraço

    • Brio português on 16 de Junho de 2022 at 16:18
    • Responder

    Mais um projeto abjeto e agonizante!
    Deixem-nos em PAZ com estas merdas!

  1. Só ficam deslumbrados com os maiatos os professores com fraca base abstrata, ou os que querem agradar aos chefes. Já se viu que o que está em curso é um processo de doutrinação ideológica com pés de barro do ponto de vista filosófico e perverso socialmente em nome de uma falsa inclusão e da fabricação de falso sucesso!
    Neste processo de doutrinação vale tudo. Iludem-se e alinham editoras, associações, centros de formação, sindicatos, etc.
    Até vale ser juíz em causa própria! Onde já se viu o mentor ser conselheiro e consultor?

    • Maria Vaz on 16 de Junho de 2022 at 17:42
    • Responder

    Respondendo – “inda que mal pergunte: o que pensam os sindicatos e as associações de professores sobre o assunto? Nada, porque são seguidistas e pouco ou nada democráticos e também eles estão presos à política. Recentemente perguntei porque é que um docente que não está a desempenhar essas funções de em qualquer escola, (comissões,…) tem o direito de ser avaliado na qualidade de professor , fazendo até outro tipo de relatório? Sendo que alguns ainda ficam fulos porque não têm excelente. Porque não é avaliado no desempenho das funções que tem? Resposta da delegada sindical : Tem de ser assim. Claro nos sindicatos passa-se o mesmo. Porque é que os sindicatos não lutam contra a foram como se elege um diretor?
    Pra mim o “Projeto Maia” é hediondo e promove a bandalheira e a incultura, tendo em atenção o modo como é aplicado. É do senso comum que a teoria pode ser muito interessante, mas a prática e os resultados são outro mundo. Porém, a verdade é que nas inúmeras formações que tenho estado, o que vejo é uma lavagem cerebral geral. Não há capacidade reflexiva??? Muitas teorias e piores resultados

      • EUZINHO on 16 de Junho de 2022 at 18:21
      • Responder

      Faça como eu não vá a nenhuma das formações! Eu não faço uma única! É bom que não sejam ovelhas e conheçam, pelo menos, o Estatuto da Carreira, cite-se:
      Artigo 5.º
      Direito de participação no processo educativo
      …..
      a) O direito a emitir opiniões e recomendações sobre as orientações e o funcionamento do estabelecimento de ensino e do sistema educativo;
      b) O direito a participar na definição das orientações pedagógicas ao nível do estabelecimento de ensino ou das suas estruturas de coordenação;
      c) O direito à autonomia técnica e científica e à liberdade de escolha dos métodos de ensino, das tecnologias e técnicas de educação e dos tipos de meios auxiliares de ensino mais adequados, no respeito pelo currículo nacional, pelos programas e pelas orientações programáticas curriculares ou pedagógicas em vigor;
      d) O direito a propor inovações e a participar em experiências pedagógicas, bem como nos respectivos processos de avaliação;
      ….

    • carlos moreira on 16 de Junho de 2022 at 18:01
    • Responder

    Não pensam nada! Seguem que nem cordeiros! Aceitam tudo!
    Estamos governados por “mentes brilhantes”.

    • Maria on 16 de Junho de 2022 at 21:31
    • Responder

    Essa gente devia sair dos gabinetes e vir para o terreno aplicar as suas teorias, banhas da cobra. Eu só farei formações e aplicarei as suas teorias apenas obrigada. Trabalho Há 30 anos e já percebi que o sistema de ensino está nas ruas da amargura em todas as dimensões e assim vai continuar, infelizmente. Já não há esperança numa mudança, por isso , é levar a Cruz ao Calvário como pudermos.

    • Falcão on 16 de Junho de 2022 at 22:11
    • Responder

    SE ALGUM JORNALISTA LER ISTO, seria bom que o divulgasse em letras gordas:

    Bem espremido, o MAIA é ZERO!!! e resumido mais não é do que dar um grande enfoque à avaliação formativa, avaliação criterial e feedback! Nada que os professores não façam há mais de 30 anos!

    E sobre o MAIA convinha ouvir o Domingos Fernandes a explicar a coisa… percebe-se muitíssimo bem que nem sonha, nem de longe, o que é dar aulas a 7, 8 e 9 e mais turmas!!! Cagar de alto e mandar fazer, sem ter dado o exemplo primeiro, é algo que me faz vomitar!

    Aquilo não tem como ser bem aplicado, ponto final! Não, nunca, com a enormidade de turmas e alunos que cada professor tem, sem falar do inferno burocrático que nos rodeia todos os dias! Mais insultuoso ainda é afirmarem que o MAIA veio dar autonomia e liberdade às escolas, que mentira mais rematada: não há liberdade nenhuma, aquilo é uma CARTILHA quase OBRIGATÓRIA e até as equipas de Avaliação Externa andam a reproduzir a CARTILHA DO MAIA nos seus relatórios, qual BÍBLIA do pós-modernismo educativo! Vão-se catar, vão-se encher de moscas!

    Deixem os professores em paz, confiem nos professores e no seu profissionalismo! Respeitem o seu direito a desenvolverem o currículo como bem entenderem. Foi para isso que estudaram e é para isso que são pagos!

    Querem mesmo ajudar? Entreguem meios e recursos às escolas: reforcem a internet (5G em força, banda larga a sério!!!); renovem computadores, tablets, portáteis, videoprojectores, ecrãs; disponibilizem acesso gratuito a todos os alunos e professores às plataformas digitais da Escola Virtual e da Aula Digital (independentemente das adoções de manuais); criem uma plataforma e software de gestão de alunos, sumários, faltas etc. que seja realmente funcional, rápida e intuitiva; dotem as escolas de recursos humanos tão necessários, professores de apoio por áreas disciplinares, psicólogos clínicos, mediadores sociais, etc.; limitem o número de turmas por professor e de alunos por turma; respeitem a redução do 79 sem carregarem a componente não letiva; valorizem com mais horas de redução a direção de turma; libertem a carga burocrática infernal que nos consome; reintroduzam a lei dos cônjuges para dar estabilidade às famílias de casais professores; resolvam as injustiças nos concursos de colocação de professores; voltem a abrir a CGA para quem já teve CGA (pois é imoral professores dos quadros estarem uns na CGA e outros na SS); ponham mão na ADSE (que já não serve para quase nada e para a qual descontamos bastante mais do que no passado e com muito menos cuidados de saúde); equiparem os cursos pré-Bolonha em via ensino a Mestrado, com a consequente bonificação de 2 anos na carreira (isto iria permitir uma reforma mais rápida para muitos professores e o rejuvenescimento da classe docente) e, por fim, acabem de vez com o regime de “carreira dupla” num único país (profs do Continente roubados face aos das regiões autónomas na recuperação do tempo de serviço congelado!!!)

    Isso sim, seria ajudar, iria motivar os professores em funções e atrair mais jovens à profissão! Entreguem isso e deixem-se de insultar os professores com esse paternalismo cartilheiro do MAIA e quejandos!

    E, de resto, vão pentear macacos e dar banho ao cão! E podem levar convosco os sindicatos da FENPROF e da FNE atrás, que não servem para NADA!!! De tudo o que escrevi atrás, o que é os sindicatos conseguiram conquistar? NADA!!!!! ZERO!!! BOLA!!!

      • Alexandra on 17 de Junho de 2022 at 9:27
      • Responder

      E os prof do quadro que nunca foram CGA?

    • A. Santos on 17 de Junho de 2022 at 10:04
    • Responder

    《[…] As imposturas intelectuais e as charlatanices na moda requerem habitualmente uma fraseologia prolixa e uma gíria obscura, ao passo que os valores essenciais podem geralmente definir-se de maneira clara e simples. […]》
    Simon Leys (pseudónimo de Pierre Ryckmans, escritor, ensaísta, crítico literário, tradutor, historiador de arte, sinólogo e professor universitário belga, 1935-2014), trecho de 《Une idée de l’université》, 2005.

    O ministério da 《educação》é o covil dos impostores e dos charlatães – sem esquecer todos quantos desejam escapar ao trabalho lectivo… – desde há muito, muito tempo.
    O problema é que gente dessa laia, para além de vaidosa e atrevida, tem vindo a ganhar cada vez mais poder para tornar num pequeno inferno a vida quotidiana de um professor.

    Creio que seria tempo de reler 《Um ministério?》 – a crónica luminosa de Joaquim Manuel Magalhães, publicada no 《Expresso》 em Dezembro de 2006 – e de começar a agir.

    • Luís on 18 de Junho de 2022 at 0:21
    • Responder

    Luís Filipe Torgal, mais uma vez, Muitos Parabéns por ter a coragem de abordar este tema do MAIA, de uma forma tão simples e objetiva que só alguns Patuscos, nomeadamente, os autores e mentores desta coisa, não enxergam, ou dito de uma forma mais correta, não querem mesmo enxergar…
    Já agora, uma vez que a falta de professores é notória, porque não dar a oportunidade a esta gente de aplicar estas suas fantásticas ideias, a 5 ou 6 turmas do ensino básico, durante um ciclo completo, por exemplo, 3° ciclo, para que nós, os retrógrados, possamos ver as coisas com mais clareza. Caros colegas, é novamente hora de nos juntarmos a sério.

    • Rui Pires on 18 de Junho de 2022 at 12:38
    • Responder

    Concordo totalmente com o desgaste acrescido e o impacto educativo residual resultante deste projeto MAIA e de outros projetos que andam no mercado e são quase impostos às escolas (Ubuntu, PADDE, SEMEIA, …).
    Por alguma razão que me parece óbvia, mas hipócrita, os relatórios escolares de balanço destes projetos tender a tecer inúmeros elogios e a enumerar aspectos positivos, totalmente desfasados da realidade do pensamento da maioria dos docentes.
    E assim, com base em formulários, questionários e relatórios, as escolas se tornam em espaços de trabalho desumanizado, com alcance educativo aquém de mínimos aceitáveis e cada vez mais, gerido por pretensos eruditos a quem lhes faz falta trabalharem na escola com 8 ou mais turmas, cargos com tempos de 1h a 2h semanais, mas que exigem 5x, 6x mais, com trabalho diurno e noturno, com trabalho regular aos fins de semana, …, …, muitas grelhas, planos, relatórios, questionários, tarefas administrativas, …, e muita paciência para projetos desenquadrados.

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