Carta aberta ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e ao Vereador da Educação e dos Direitos Sociais
Lisboa, 14 de outubro 2019
Caro Dr. Fernando Medina,
Caro Dr. Manuel Grilo,
Em representação dos pais da Escola EB 2,3 Professor Delfim Santos, e de tantos pais de outras escolas, dirigimos-lhe um pedido para que intervenha em prol das crianças do concelho.
A autarquia está com certeza a par do problema que se tem vindo a verificar nas escolas do país com a dificuldade de colocação de professores. Não se trata de um problema novo, contudo, este ano, o mesmo tem-se vindo a agudizar, nomeadamente em concelhos em que o preço do arrendamento se tornou incomportável para professores deslocados e, muitas vezes, sem horários completos.
Temos consciência que se trata de um problema complexo, cuja resolução de longo prazo não temos a pretensão de apresentar e que só será possível alcançar através de uma abordagem holística sobre o sistema de colocação de professores nas escolas. Contudo, no muito curto prazo parece-nos fundamental implementar medidas que ajudem a estancar o problema. O tempo não volta para trás e a cada semana que passa vemos um fosso mais fundo entre a preparação destes alunos e todos os demais, avolumando a dificuldade que o sistema de ensino tem em garantir igualdade de oportunidades para todas as crianças e jovens.
Assim, apelamos à iniciativa rápida e decidida da Câmara Municipal de Lisboa. Não sendo responsável pela colocação de professores, o município não é alheio ao preço do arrendamento na cidade e pode colocar à disposição soluções que mitiguem este problema no muito curto prazo. Seja através da disponibilização de quartos ou casas, seja através da atribuição de um apoio financeiro a professores deslocados sem horário completo, urge tomar medidas na defesa dos direitos dos alunos e alunas do nosso concelho, tal como aconteceu em concelhos limítrofes da cidade.
Estamos certos que os mais novos poderão contar com o apoio da autarquia onde vivem para encontrar soluções. Não os deixemos à sorte de um concurso de colocações de professores que há muito deixou de ter o apoio de quem quer que fosse e que se demonstra urgente ver alterado.
Agradecidos pela atenção, ficamos a aguardar medidas concretas para a vida destes pequenos
lisboetas!
Associação de Pais da Escola EB 2,3 Delfim Santos




11 comentários
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Sou professor na região de Lisboa, tenho o horário completo, o que me permite dispor apenas de 200€ mensais das minhas economias para poder trabalhar. Para o ano não sei como será, porque, por este andar, as poupanças vão esgotar-se num ápice.
Indignado com a exploração a que os professores estão sujeitos!
Como tens horário completo e eles já verificaram que a falta de professores se regista em horários incompletos, estão a marimbar-se para ti, querem lá saber do esforço financeiro e pessoal que fazes para ir meter alguma coisa nas cabeças dos filhinhos deles…
Aliás, acho que se qualquer câmara municipal decidir ajudar apenas uma parte dos professores deslocados, a outra parte devia fazer greve às aulas… e eu estou disposto a fazer também em solidariedade, mesmo que não seja na zona da minha escola.
Parece que começam a acordar… estranho é que se dirijam à CML quando a responsabilidade é do governo e ME…
Registo também o promenor de solicitarem ajuda «a quem está deslocado e não tem horário completo»… quem tem horário completo ganha 1100 euros, pode perfeitamente pagar uma casa para se alojar!! Este pormenor reflete bem o respeito que a sociedade tem para com os professores. Se os filhos deles tivessem todos os professores mas estes estivessem a viver numa tenda ou debaixo de uma ponte certamente não se preocupariam com isso… uam vergonha, cada vez mais quero ver se me livro disto, não dá, vão vocês aturar os vossos filhos em sala de aula e tentar que estes desenvolvam competências, aprendizagens essenciais, ou o que quer que seja, amanhem-se, vão pró raio que vos parta!
Vergonhoso.
É necessário uma associação de pais pedir esmola para os professores!!!!!!
Nas outras profissões é necessário oferecer incentivos para sair das grandes cidades, não têm preocupações com as rendas…
Os professores não ganham sequer para a renda de casa!!!!!!
Mlr, Sócrates, Costa, algozes da educação neste país. Criminosos.
O problema não está no concurso em si, mas sim no problema dos preços da habitação (que está inflacionado na maior parte do país) e nas regras da mobilidade interna. A associação de pais que pergunte ao Ministério quantos professores foram vinculados nessa zona nos últimos anos, e quantos nunca chegaram sequer a lá por os pés.
Aposto que se o ME abrir vagas para vincular que ficam todas ocupadas. Resta saber se depois não fogem todos de lá.
Por causa de alguns abusos e aproveitamento de buracos na legislação dos concursis quem se vai tramar vai ser quem optou por não vincular em zonas para as quais não estava disposto a ir.
Se alterarem as regras do concurso … quem é que se vai tramar?
Tu insistes nisso Xuxu… tens razão mas a verdade é que não mudava nada. Se as pessoas que vincularam nessas zonas soubessem que não teriam a hipótese de mudar para mais perto da sua residência, não concorriam, não haveria lá ninguém, como não há agora, os lugares estão lá e ninguém os quer… também é verdade que já não há muita gente, basta olhar para as listas de não colocados de alguns grupos para ver que não há muita gente… mesmo que tenham habitação gratuita, vir do norte do país para o Algarve, é algo a que pouca gente estará disposta… estou desejoso de ver como estará isto do meio do ano letivo para a frente, vai ser bonito…
Ah, finalmente estão a acordar. Pois preparem-se para o que aí vem, porque irá ficar bem pior.
Quando a luta dos professores devia ter sido escutada e apoiada por toda a sociedade, quase todos viraram as costas e argumentavam sem a mínima noção da realidade de que a classe docente era privilegiada e que os professores ganhavam muito. Agora apercebem-se de que não é bem assim. Pois já vão tarde.
É preferível trabalhar na caixa de um supermercado e ganhar o ordenado mínimo e estar perto dos filhos, da família, de casa, dos amigos… do que ganhar 1000 euros e ter que pagar renda de casa, transportes e ficar longe de casa e dos familiares.
Agora amanhem-se!!!
Hoje, na minha escola, em Lisboa, foi colocada uma colega vinda do Norte. Comentário de um aluno: Ó stora, tem dinheiro para alugar uma casa aqui?
Ao que nós chegámos! Felizmente, só me faltam 2 anos e picos para me ir embora!
Não é apenas em Lisboa e no Algarve.
Só um louco vai para qualquer parte do país ganhar 900€, sem qualquer perspectiva de futuro.
Eu prefiro continuar num hipermercado, ganho quase o mesmo e estou perto de casa e da família. Já ouviram falar de ensino doméstico? É o caminho!
Sem dúvida Pedro. Até há 10/15 anos ainda valia a pena pagar para trabalhar uns anos para construir uma carreira interessante, agora como a carreira está, e com novas gerações com muito menos capacidade para esforços desumanos, sempre quero ver onde é que vão arranjar quem queira educar as novas gerações?! E, como dizes, Lisboa e o Algarve são apenas os locais onde a situação é pior, mas a falta de professores vai sentir-se em todo o território nacional.
Em 2007/8 tive uma colega de VN de Gaia que estava colocada na zona do Seixal com um horário de 11 tempos. Tinha dois filhos (um deles com menos de um ano) e ia todos os fins de semana ao norte. Estava num quarto alugado e o que ganhava não dava para as despesas. Já era o 3º ano que concorria só a horários anuais em todo o país, no ano anterior tinha estado no Algarve, não sei com quantos tempos. Fazia-o porque queria ser chamada para fazer a profissionalização que lhe abriria portas para uma carreira aliciante… para ela já não terá sido (tenho de lhe perguntar onde e como está?) mas agora ainda menos, quantas pessoas atualmente estarão dispostas a passar pelo que ela passou para aceder a uma carreira de professor?! duvido que haja muita gente…