O jovem de 17 anos foi visto a manusear uma arma no exterior da escola e as autoridades foram alertadas
Mar 24 2026
O jovem de 17 anos foi visto a manusear uma arma no exterior da escola e as autoridades foram alertadas
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Mar 24 2026
Pela transparência como regra na Avaliação de Desempenho docente
A Sua Excelência o Senhor Presidente da Assembleia da República,Do objeto da petiçãoO Artigo 49.º do Estatuto da Carreira Docente (ECD), na sua atual redação (Decreto-Lei n.º 41/2012, de 21 de fevereiro com as alterações introduzidas pelos Decreto-Lei n.º 146/2013; Lei n.º 80/2013; Lei n.º 12/2016; Lei n.º 16/2016) prevê, sob a epígrafe, Garantias do processo de avaliação do desempenho:
1 – Sem prejuízo das regras de publicidade previstas no presente Estatuto, o processo de avaliação tem carácter confidencial, devendo os instrumentos de avaliação de cada docente ser arquivados no respetivo processo individual.
2 – Todos os intervenientes no processo, à exceção do avaliado, ficam obrigados ao dever de sigilo sobre a matéria.
3 – Anualmente, e após conclusão do processo de avaliação, são divulgados na escola os resultados globais da avaliação do desempenho mediante informação não nominativa contendo o número de menções globalmente atribuídas ao pessoal docente, bem como o número de docentes não sujeitos à avaliação do desempenho.
Do enquadramento e aplicação prática das normas
Estas normas foram introduzidas com o novo processo de avaliação, em 2012, e na sua redação, enfermam de 2 perversidades:
– Transformam um prejuízo prático aos direitos de transparência e de acesso à fundamentação de atos administrativos, que consistem em diminuição de direitos, em suposta “garantia”;
– Dificultam a realização dos direitos dos docentes (administrados e avaliados, neste processo da ADD) de serem completamente notificados, em especial, quando se facilita a certos titulares da administração, menos adeptos da transparência, como princípio, esconderem, até dos prejudicados, o que se passou na sua avaliação individual;
– Ao criarem ocultação permitem, além da violação de um direito fundamental dos cidadãos à transparência administrativa, facilitação de processos com violação de garantias de imparcialidade e criação de favoritismos e compadrios que assim se tornam impossíveis de escrutinar.
O termo “garantia” está aqui usado em total contradição pois a prática quotidiana desta “confidencialidade” tem gerado problemas nas escolas (graves) e injustiças, criando um quadro indigno dum Estado de Direito.
Sendo uma exceção ao regime regra de transparência administrativa, estas normas têm sido usadas por certos agentes administrativos como fundamento para esconder erros, injustiças e ilegalidades, que os afetados não conseguem escrutinar em tempo útil e com eficácia para os seus direitos devido a esta confidencialidade e sigilo.
Foi muito difícil, ao longo destes anos, alargar o cumprimento das orientações da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (com dezenas de pareceres a limitar a confidencialidade para quem reclama de prejuízos em ADD) e da Comissão Nacional de Proteção de Dados e clarificar regras de transparência que as escolas sistematicamente interpretam em sigilo com base neste artigo 49º.
Mesmo com estas dezenas de intervenções fundamentadas de órgãos, conhecidos pelo seu rigor jurídico, até pela composição, muitas escolas, diretores, presidentes do Conselho Geral, membros de Secção de Avaliação de Desempenho e avaliadores mantêm atuações abusivas de recusa de documentos a avaliados, reclamantes, recorrentes e até a árbitros do processo de arbitragem previsto no decreto regulamentar aplicável.
Esta situação recorrente, difundida em todo país, que se documentará exaustivamente no debate desta petição, gera graves prejuízos aos avaliados que, muitas vezes, têm problemas na defesa dos seus direitos (sendo a Justiça administrativa cara e lenta), quando bastava que a administração cumprisse regras de transparência que não deveriam ser postas em dúvida com interpretações criativas e truques.
A existir efetiva garantia de proteção da publicidade seria útil, apenas, para os avaliados com classificações “negativas” e não para todos e, nunca em especial, para os têm as chamadas “menções de mérito” (Muito Bom e Excelente).
Tais menções são obtidas por comparação com outros docentes e não por puro mérito individual, por aplicação das comummente chamadas “quotas” (um percentil em comparação interna a cada escola).
Repare-se a contradição: os alunos que têm boas notas o legislador quer que as suas notas sejam publicadas e divulgadas em quadro de mérito. E não há comparação no processo de avaliação.
No caso dos professores, em que além do mérito individual, há comparação e exclusão por essa via, a regra é o segredo e a prática é esconder o mais possível dos que são excluídos das ditas menções de mérito quem as obteve e porquê.
Contradição impressionante que devia fazer pensar quem conheça um pouco dos mecanismos sociais de funcionamento do favorecimento, parcialidade e até corrupção.
Ao não serem divulgadas as menções de mérito obtidas e seus beneficiários (porque os deveres de publicidade, mesmo limitados, que existem, também são incumpridos sistematicamente) gera-se um ambiente negativo no funcionamento das escolas.
Existem perceções fortes e generalizadas de injustiça e favorecimento (até pelo incumprimento de regras de imparcialidade, em meios pequenos ou em que se permite que alguém seja decisor simultâneo de classificações finais, de reclamações ou recursos, quando foi antes avaliador, ou até avaliado ou decisor, nos mesmos procedimentos).
Essas situações acabam por não ser escrutináveis por causa desta regra de suposta confidencialidade e sigilo que, muitas escolas, aplicam de forma ilimitada e radical (até, insiste-se, para árbitros que decidem recursos a quem recusam acesso a documentos e que assim nem na fase de recurso conseguem aceder às estranhezas dos processos).
A certos decisores, que gerem as suas escolas, usando a ADD como instrumento repressivo ou limitador da autonomia profissional, este quadro prático convém de sobremaneira num misto de manutenção no poder (que os mandatos quase ilimitados favorecem) e favorecimento a grupos específicos de relação, quase familiar (para sermos moderados na adjetivação).
Mas este quadro, em que a norma referida é um nexo essencial, viola a Constituição, a Lei e os direitos fundamentais e profissionais dos docentes, como cidadãos e trabalhadores em funções públicas.
Na prática, se, num concurso público para vagas de promoção (que é o que resulta da avaliação), se excluísse o acesso a documentos aos candidatos não admitidos às vagas, tal seria visto como escandaloso e absolutamente ilegal.
Há pessoas que, em total segredo, face a colegas da mesma escola, obtêm progressões aceleradas de 2 e 3 anos (com o correspondente ganho financeiro, nesse momento e para futuro) e essas operações são secretas e, quem tenta obter transparência, é destratado e ofendido.
Até há casos de assédio e ameaça de processo disciplinar a quem tenta lutar contra este estado de coisas.
Nas escolas portuguesas, todos os dias, são aplicadas interpretações restritivas e violadoras de direitos destas normas, com grave prejuízo e injustiça, que se poderão documentar no debate da petição, resultando em que os avaliados não sabem, nem conseguem saber, porque são ultrapassados e, tirando os que sofrem esses efeitos, todos, incluindo titulares políticos e administrativos do Ministério se desinteressam.
Cabe aos Senhores e Senhoras Deputados e Deputadas interessarem-se.
No ano das 5 décadas da Constituição, haver um grupo com 120 mil pessoas que é assim tratado devia merecer forte atenção e reação de quem representa a soberania popular.
Se houver que procurar uma causa para o mal-estar docente, a perceção de graves injustiças, pelo segredo imposto e genérica falta de transparência na realização e diferenciação na avaliação de desempenho, é uma das causas mais fortes e sustentadas, nos seus efeitos negativos, desde 2012.
Nesta prisão de segredo, é difícil haver ânimo para educar para a cidadania, quando os docentes, que têm por missão fazê-lo, veem um elemento tão fundamental da sua cidadania (a justiça e transparência da sua avaliação profissional) tão limitado, amachucado e maltratado.
Proposta de alteração à norma
Estão a decorrer negociações para alterar o ECD.
Mas esse facto não pode significar a paralisia do parlamento no uso da sua capacidade de produção legislativa, nos efeitos em processos que ainda decorrem e que persistirão mesmo antes da entrada em vigor de nova versão.
Debater esta questão seria ainda um sinal sobre o sentido urgente de certas mudanças legislativas e de defesa do valor fundamental dos direitos dos administrados à transparência e fundamentação dos atos de que sofrem efeitos.
O ECD é um decreto-lei que foi objeto de várias intervenções de alteração legislativa na Assembleia da República (na defesa de direitos e garantias).
Urge fazer alterações e agir nestas normas.
O que seria um sinal para a defesa dos direitos fundamentais dos cidadãos e valorização da transparência administrativa como mecanismo de luta contra o segredo, a corrupção e atuação contra direitos, que ainda sobrevive como gangrena na administração pública, apesar da Lei de Acesso aos Documentos Administrativos e do Código do Procedimento administrativo.
Assim, peticionamos à Assembleia da República:
– Que modifique o artigo 49º do ECD num sentido que valorize e proteja efetivamente a transparência e os direitos dos docentes, isto é, que seja mesmo uma “garantia” e não um meio de opressão de direitos.
– Que adote a seguinte redação, clarificando e reforçando a transparência nos aspetos hoje problemáticos:
Artigo 49º Transparência, notificação e publicidade na Avaliação de desempenho
1- A avaliação de desempenho é um processo público, em que os resultados finais de menções ou classificações de mérito devem ser publicamente acessíveis a todos os que sejam avaliados em cada escola, em cada ano.
2- Só existe sigilo no procedimento até à notificação do resultado final, a ocorrer após decisão de diferenciação de classificação final e determinação das menções de mérito.
3- Os resultados de classificação final devem ser notificados, nos termos legais aplicáveis, a cada avaliado, com a junção obrigatória de lista ordenada decrescente dos dados dos avaliados que, com eles, em conjunto, foram avaliados, nomeadamente, incluindo os seguintes:
a. Nome dos avaliados, grupo disciplinar, graduação profissional (com todos os elementos de cálculo), regime de avaliação aplicado, cargos de gestão ou coordenação pedagógica, exercidos no período em avaliação e situação profissional e ano inicial de colocação na escola;
b. Menção numérica proposta, para cada um, pelos avaliadores;
c. Alterações propostas por avaliadores e outros intervenientes, antes do resultado final e seus fundamentos;
d. Resultado final com dados da votação da classificação final e respetivos intervenientes,
e. Ata do órgão decisor, expurgada dos dados que digam respeito a docentes avaliados com menos que Bom.
f. Situações de impedimento, escusa ou suspeição, que se tenham verificado em relação a cada avaliado ou avaliador ou outros intervenientes no procedimento constante da lista;
g. Forma de acesso ao processo administrativo completo da avaliação apresentada nessa lista que contenha os dados e documentos sobre avaliados concorrentes, para efeitos de reclamação e recurso.
4- A lista nominal dos docentes, que tenham obtido classificação final de Muito Bom ou Excelente, em cada escola ou agrupamento, deve ser enviada para publicação no Diário da República, até 10 dias após a decisão, e publicada ordenada de forma decrescente, com a menção, para cada um, dos dados constantes das alíneas a), b) e d) do número 3.
5- Essa lista nominal deve ser também publicada por afixação nos estabelecimentos de ensino e nos sites das escolas e agrupamentos com a menção de quantos docentes foram avaliados em cada regime e os totais de menções de mérito disponíveis para atribuição e atribuídas.
6- O prazo para reclamar ou recorrer de resultados de avaliação de desempenho só começa a correr após a notificação completa ao avaliado nos termos do nº 3 deste artigo.
7- Da falta de publicidade, ou falta de notificação, ou notificação incompleta cabe recurso para o Conselho Geral com 10 dias de prazo para decisão.
8- Caso existam reclamações e recursos de resultados de avaliação que gerem a atribuição em cada escola de mais menções de Muito Bom ou Excelente, as listas referidas em 4 e 5 devem ser revistas e republicadas, no prazo de 10 dias sobre a decisão.
9- O incumprimento das regras de publicidade e notificação, em matéria de avaliação de desempenho, previstas neste e noutros artigos, implica responsabilidade disciplinar com sanção, no mínimo, equivalente à pena de multa.
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Mar 24 2026
A violência em idades precoces, seja no 1.º ciclo do ensino básico ou mesmo na educação pré-escolar em Portugal, deixou de ser um episódio raro para passar a surgir com inquietante regularidade nas notícias. Professores agredidos, auxiliares desrespeitados, colegas vítimas de comportamentos descontrolados, sinais de um problema mais profundo que não nasce na escola, mas que nela se manifesta com toda a sua força.
Importa, antes de mais, fazer um exercício de memória coletiva. Houve um tempo, não necessariamente melhor, mas certamente diferente, em que a educação familiar assentava em princípios claros de autoridade e consequência. Quando uma criança, num acesso de frustração, levantava a mão para bater num adulto, a resposta era imediata, um gesto firme que travava o impulso, um tom de voz elevado que marcava o limite, por vezes uma palmada que funcionava como símbolo inequívoco de consequência. Não se tratava apenas de punição, tratava-se da construção de uma fronteira.
Hoje, essa fronteira tornou-se difusa.
A pedagogia contemporânea, influenciada por correntes psicológicas modernas, privilegia o diálogo, a empatia e a autorregulação emocional. Em teoria, trata-se de um avanço civilizacional. No entanto, na prática, muitos pais não possuem as ferramentas emocionais, o tempo ou a consistência necessários para aplicar esse modelo. O resultado é uma educação híbrida, onde o discurso é sofisticado, mas a ação é inconsistente.
Como já alertava Sigmund Freud, “a civilização constrói-se sobre a renúncia ao instinto”. A criança não nasce socializada, nasce impulsiva, centrada no prazer imediato. A função do adulto é, precisamente, ajudá-la a lidar com a frustração. Quando essa mediação falha, o instinto prevalece.
Carl Jung acrescentaria que “aquilo a que resistimos persiste, mas aquilo que ignoramos cresce na sombra”. Ignorar ou relativizar comportamentos agressivos em nome de uma falsa compreensão emocional não elimina o problema, apenas o adia e o amplifica.
Na filosofia clássica encontramos ecos desta preocupação. Sócrates, frequentemente citado, ainda que de forma discutível, por criticar a juventude do seu tempo, já falava da necessidade de disciplina na formação do caráter. Platão, na sua obra sobre a educação na cidade ideal, defendia que a formação moral deveria começar cedo e ser conduzida com firmeza, “a alma da criança é moldável, mas também vulnerável ao desregramento”.
O que vemos hoje nas escolas portuguesas parece confirmar estas intuições antigas. Crianças que, perante a frustração, não encontram limites claros, testam constantemente a autoridade e estão a ganhar. E fazem-no porque aprenderam, consciente ou inconscientemente, que essa autoridade é negociável e inconsistente.
Importa aqui fazer uma distinção fundamental, a firmeza não é violência, e diálogo não é permissividade. O problema não está na evolução dos modelos educativos, mas na sua má aplicação. O diálogo exige competência emocional, consistência e autoridade. Um adulto que dialoga sem impor limites não educa, abdica das suas funções como educador.
A escola, por sua vez, tornou-se o palco onde estas falhas se tornam visíveis. Professores, já sobrecarregados com exigências curriculares e burocráticas, veem-se confrontados com comportamentos para os quais não foram preparados e que deveriam ter sido trabalhados no contexto familiar. A consequência é um ambiente educativo fragilizado, onde ensinar se torna cada vez mais difícil e às vezes impossível.
A questão que se impõe não é se devemos regressar ao passado, mas sim o que devemos resgatar dele. De certeza, não a palmada, mas certamente a clareza. Não o autoritarismo, mas a autoridade. Não o medo, mas o respeito.
Porque, no fim, educar continua a ser o mesmo desafio de sempre, preparar a criança para viver em sociedade. E isso implica, inevitavelmente, aprender que nem todos os impulsos podem ser seguidos, e que há limites que não se negoceiam. Ou vamos por este caminho ou como sociedade falharemos.
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Mar 23 2026
A Fenprof anunciou em resolução do seu Conselho Nacional, para além de outras iniciativas, a marcação de uma manifestação nacional de professores para o dia 16 de maio de 2026 (Sábado), para afirmar publicamente a determinação dos docentes em defender o ECD, a dignidade da profissão e o futuro da Escola Pública.
Tenho sérias dúvidas que os professores estejam mobilizados para repetir os números das manifestações anteriores e que se consiga mobilizar novamente mais de 100 mil professores na rua.
A Fenprof também admite a marcação de greves para o 3.º período.
Até é possível que a contestação possa aumentar no decurso do 3.º período, em função daquilo que possa ocorrer nas reuniões negociais. Mas o mais certo é que o MECI consiga nas negociações com os sindicatos mais disponíveis para negociar fechar alguns acordos para cada um dos temas em negociação.
Mas o papel da Fenprof também é este, deixando caminho para que outros consigam ter um caminho facilitador na negociação.
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Mar 23 2026
Alunos menores frequentam escolas da Sertã e de Castelo. Agressões estendem-se a auxiliares e colegas.
Três professoras do ensino básico da Sertã terão sido agredidas várias vezes e de forma violenta por dois alunos do 1º Ciclo que frequentam as escolas primárias da sede do concelho e da aldeia de Castelo.
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Mar 23 2026
Pelo país, escuto dos professores que estão a receber crianças e jovens com mais dificuldades de base e, ao mesmo tempo, com menos tolerância à frustração, menos autonomia e menos treino para tarefas simples que antes surgiam com mais naturalidade.
Vê-se no aluno do 1.º ciclo que pega mal no lápis e se cansa depressa.
Vê-se no do 2.º ciclo que já consegue falar sobre a matéria, mas demora demasiado a copiar do quadro, suja o caderno todo, desiste facilmente e irrita-se quando lhe pedem cuidado.
E vê-se no do 3.º ciclo que até percebe a matéria, mas escreve à pressa, mal, com pouca organização, e perde qualidade por falta de base, de método e de resistência ao esforço…
O que muitos professores me transmitem é uma mistura difícil de explicar a quem está de fora: empatia pelas crianças e jovens, preocupação genuína com as famílias e, ao mesmo tempo, um enorme cansaço por verem cair sobre a escola problemas que começaram muito antes da sala de aula.
Um docente reconhece quando uma criança quase não recorta bem, quando evita desenhar, quando não regula a força da mão, quando não sabe esperar, quando quer desistir ao primeiro erro, ou quando vive tão habituada ao estímulo rápido que tudo o que exige atenção mais lenta parece “uma seca insuportável”.
E o que muitos pensam, a meu ver com razão, é isto: não se pode pedir à escola que repare sozinha aquilo que o estilo de vida atual tem vindo a fragilizar.
Os professores também partilham, muitas vezes, que há uma injustiça nesta conversa.
Quando uma criança chega com dificuldades muito visíveis, há quem olhe logo para o pré-escolar ou para o professor titular como se ali estivesse o centro do problema. Mas quem está na escola sabe que a realidade é outra. Sabe que há crianças com poucas horas de sono, excesso de ecrãs, pouca brincadeira livre, pouco treino de autonomia, pouca persistência e demasiada cedência à volta delas.
Sabe que há pais exaustos, outros desleixados, famílias sobrecarregadas e rotinas frágeis. E sabe, sobretudo, que a escola está a tentar ensinar enquanto também compensa, regula, acalma, organiza e repara. Isso desgasta muito.
Parece-me que o sto já não é só uma questão de “não saber segurar no lápis”. Isso seria quase o sintoma mais visível e mais simples.
É o pré-adolescente que tem dificuldade em ouvir um “não”. É o adolescente que acha insuportável o esforço continuado.
Muitos docentes sentem que estão a trabalhar cada vez mais sobre capacidades humanas básicas que antes vinham mais consolidadas de casa: esperar, insistir, tolerar desconforto, ouvir, cumprir, recomeçar…
Talvez esteja na hora de parar de simplificar. Não é sério culpar educadores de infância ou os professores por tudo.
A infância mudou, o ambiente familiar e digital mudou, e isso tem consequências reais no corpo, na atenção, na motricidade, na linguagem, no comportamento e na aprendizagem.
Acima de tudo, sinto que desejam que alguém diga com honestidade aquilo que eles vivemos todos os dias: a escola pode ajudar muito, mas não pode continuar a ser tratada como oficina geral de reparação daquilo que a sociedade vai desmontando.
…não, não estamos a pedir crianças perfeitas. Estamos a pedir crianças mais acompanhadas, mais treinadas para a vida real, e menos entregues a atividades que anestesiam o desenvolvimento.
Ensinar já é exigente.
Ensinar e, ao mesmo tempo, reconstruir bases que deviam vir de trás, é um peso enorme.
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Mar 23 2026
Os diretores de escola vão passar a assumir novas competências com a reforma orgânica do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), mas exigem ser recompensados pelo trabalho acrescido que vão ter e também pedem mais formação para desempenhar as novas tarefas. Reclamam também pela demora na apresentação do prometido estatuto do diretor, que deverá prever um reforço do suplemento remuneratório destinado a compensar funções de direção.
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Mar 22 2026
Com a lista nacional a não responder às necessidades de professores nas escolas e a não aceitação de horários em concurso de Contratação Escolas (publicados numa plataforma quando ninguém na lista nacional aceita o horário), os diretores escolares tentam de várias formas conseguir diminuir o número de alunos sem aulas.
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Mar 21 2026
Quando aparece uma notícia a dizer que 98% dos professores do 1.º ciclo e educadores de infância estão exaustos, indignados e sobrecarregados, a reação das pessoas costuma dividir-se.
E isso, por si só, já diz muito sobre o problema.
Há quem olhe para esta realidade e pense imediatamente: claro.
Basta entrar numa escola, observar a intensidade do trabalho diário e perceber que estes profissionais vivem no cruzamento de quase todas as pressões do sistema. Ensinam, regulam comportamentos, acolhem emoções, lidam com conflitos, adaptam estratégias, preenchem relatórios, falam com famílias, respondem a exigências institucionais e ainda tentam manter humanidade no meio disto tudo…
Para muitas pessoas, a exaustão destes profissionais não surpreende.
Mas existe também um segundo grupo, muito comum, que concorda com a ideia, embora a relativize. São aquelas pessoas que dizem: sim, estão cansados, mas hoje toda a gente está cansada.
É uma resposta meio empática, meio defensiva. Reconhece o problema, mas dilui-o. Como se o facto de haver cansaço em muitas profissões reduzisse a gravidade do que se passa na educação. Não reduz.
Porque no pré-escolar e no 1.º ciclo o desgaste tem uma particularidade: acontece precisamente nos contextos onde se constrói a base emocional, relacional e cognitiva !
Quando quem está a segurar essa base está no limite, o problema deixa de ser “apenas laboral”, passa a ser social.
Depois há quem reaja com desconfiança ou até irritação, sabia?!
Este grupo tende a achar que os professores se queixam demais, que têm regalias, que têm horários melhores do que outras profissões ou que a profissão sempre foi exigente.
O erro aqui, a meu ver, é olhar de fora para a escola, com memória de outros tempos.
A profissão mudou muito. Hoje, um docente é também regulador emocional, gestor de conflitos, mediador familiar, técnico de adaptação pedagógica, intérprete de comportamentos difíceis e, muitas vezes, alvo direto da frustração de um sistema que pede cada vez mais e organiza cada vez pior.
Olhar para esta profissão com categorias de há trinta anos é como avaliar um “telemóvel” atual como se ainda servisse só para telefonar.
Há ainda um grupo que vê nisto um sintoma de uma degradação mais ampla da sociedade. Estas pessoas não pensam que o problema esteja apenas na escola. Pensam que a escola está a pagar a fatura de várias falhas acumuladas: menos tempo de qualidade em família, menos consistência nos limites, mais ecrãs, menos tolerância à frustração, mais exigência emocional sobre os adultos, mais burocracia institucional e uma cultura geral onde tudo é urgente, tudo é sensível e quase nada é profundamente resolvido. Neste olhar, o professor e o educador aparecem como uma espécie de parede final contra a qual batem as insuficiências de todos os outros setores.
E depois há uma reação mais silenciosa…a de quem percebe que, se os profissionais que trabalham com crianças estão exaustos, isso é um sinal de alarme!
Porque no pré-escolar e no 1.º ciclo não se está apenas a ensinar letras, números ou rotinas…está-se a modelar atenção, linguagem, autorregulação, convivência, confiança e relação com o aprender.
Quando os adultos responsáveis por esse processo estão esmagados por tarefas, ruído e desgaste, a qualidade invisível da educação começa a cair. E a tragédia é que essa queda nem sempre aparece logo nas estatísticas. Aparece primeiro no clima. No tom. Na paciência. Na criatividade que desaparece. Na energia que já não chega para reparar, inspirar ou observar bem.
É por isso que a opinião pública fica dividida. Porque uma parte das pessoas vê o sofrimento destes profissionais e entende-o. Outra parte vê-o, mas banaliza-o. Outra desconfia. Outra usa-o como espelho de um problema maior. No fundo, a sociedade oscila entre empatia, incompreensão e resignação.
E esse é talvez, a meu ver, o aspeto mais inquietante: muita gente já aceita como normal que quem educa esteja profundamente cansado.
Ora, quando o esgotamento dos adultos que sustentam a infância começa a parecer normal, o problema fica dramático.
E você? De que lado se coloca?
PS: Parabéns à jornalista Manuela Micael, pelo artigo.
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Mar 21 2026
Havia uma criança, mas isso é de somenos importância, como se as crianças fossem uma espécie de poeira pousada ao de leve algures na vã memória dos adultos, e visível apenas quando a luz incide com um certo e determinado ângulo.
Trinta euros, indagaram, com a indiferença de quem põe de lado outras tantas migalhas, e a palavra “prazo” tombada sobre a mesa desde a Sexta-feira passada, a data limite para requerer duas semanas de refeições gratuitas durante as férias escolares para esta família em apuros.
A Direção da escola, composta por vozes amestradas a falar em conjunto sem dizer nada, alinhou argumentos como quem alinha talheres.
Falaram de regras, de processos, formalidades, de rigor financeiro, como se o orçamento fosse uma flor delicada e, ao mesmo tempo, exigente, para de seguida falarem de desvios mais o pecado original das exceções.
E no papel, nas linhas, nos números organizados num orgulho silencioso, nada para encher o estômago vazio de uma criança.
Primeiro a escola, afirmaram sem precisar de afirmar, primeiro a estrutura invisível responsável por sustentar a ordem, depois, e só depois, se houver margem, se houver folga, se houver um milagre capaz de permitir um gesto, a criança.
Mas a escola, essa estrutura de paredes e papéis, não respira sem os corpos pequenos de quem por ela entra todos os dias.
A escola não existe sem estes passos incertos nos corredores mais os olhares de quem ainda não aprendeu a disfarçar a necessidade.
E, no entanto, ali estava ela, a criança, reduzida a um pedido fora de prazo, a um erro administrativo, a uma linha não coincidente com a data certa.
A criança em casa, durante as férias, diante de um prato inexistente, a abrir armários como quem repete um gesto inútil, na esperança de alguma coisa, e alguma coisa é, invariavelmente, nada.
Nada mudou durante a noite e não aconteceu nada.
E a escola de portas fechadas duas semanas inteiras sabendo estar do lado de lá um corpo pequeno entregue ao intervalo da fome, e as férias são para desfrutar e não para incómodos e aborrecimentos de pouca relevância.
Porque a escola não se pode dar ao luxo de parecer flexível, de falhar perante quem avalia de cima, de abrir uma brecha impossível de fechar.
A palavra “precedente” circula como um fantasma, um fantasma mil vezes mais assustador se comparado com a fome de um petiz apenas.
E por um petiz não pára o mundo.
Mas devia.
E se uma criança não é uma ameaça, as vozes a gritar de cima são uma ameaça, e uma ameaça concreta.
Por conseguinte, escolhe-se o caminho mais fácil e mais seguro: recusar, arquivar, e seguir em frente com a consciência tranquila de quem cumpriu o seu dever burocrático.
Não sei como é possível dormir à noite depois disto.
Trinta euros, repito, como quem testa a solidez de uma palavra, como quem espera ver o número crescer, engordar ao ponto de uma gravidade capaz de justificar a recusa.
Mas não, mantém-se mínimo, risível, uma quantia capaz de se evaporar no dia a dia de qualquer adulto, um almoço a correr, uma despesa sem memória.
E ainda assim, naquele momento, transformou-se numa fronteira, uma trincheira, uma guerra perdida à partida.
Imagino as férias desta criança, quatorze “não-dias”, quatorze repetições, manhãs iguais onde a carência se instala devagar. E do outro lado, adultos com discursos anafados, a ruminar regulamentos numa convicção tranquila, certos de como proteger o sistema é uma espécie de virtude.
E quando a escola se esvazia, quando as luzes se apagam e os corredores devolvem apenas o eco dos passos ausentes, sobra uma instituição impecável, sem falhas no relatório, sem desvios no orçamento.
Do lado de fora do portão sobra uma criança fora do prazo.
E ninguém parece escutar esta aritmética simples: sem a criança, sem esta e outras crianças, a escola é apenas um conjunto de quatro paredes inúteis, assim como inúteis são os nossos empregos e respectivos salários.
Sem crianças, ninguém precisa de professores e os professores são dispensáveis.
São pormenores administrativos.
No fim, pagaste os trinta euros do teu bolso. Esta não é a escola com a qual sonhaste.
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Mar 20 2026
Nas escolas, durante anos, fomos dando demasiado poder ao suporte e demasiado pouco à substância…
A meu ver, confundiu-se muitas vezes apresentação com aprendizagem, slide com pensamento e aspeto visual com qualidade pedagógica.
E o resultado ainda se vê com frequência: sessões longas, excesso de informação no ecrã, pouca arquitetura da mensagem, pouca ligação humana e quase nenhuma memória do que realmente interessava.
Uma boa apresentação em contexto escolar não se mede primeiro pelo design.
Mede-se pela clareza da ideia, pela ordem do raciocínio, pela escolha dos exemplos, pela força da narrativa e pela presença de quem fala. O centro não está no ecrã. Está na capacidade de tornar uma mensagem compreensível, viva e útil.
Ainda há dias, numa palestra para pais em Abrantes, pensei exatamente nisto.
No fim, o que fica nas pessoas raramente é o diapositivo bonito. O que fica é a ideia que entrou, o exemplo que fez sentido, a frase que organizou o pensamento. É isso que interessa.
Primeiro pensa-se. Primeiro arruma-se a ideia. Primeiro decide-se o que vale mesmo a pena dizer. Só depois faz sentido desenhar seja o que for.
Na minha opinião, a escola não precisa de apresentações mais vistosas.
Precisa de comunicação mais clara, mais viva e mais respeitadora da inteligência de quem ouve. Precisa de menos dependência do ecrã e de mais confiança na força de uma ideia bem construída.
Há pouco tempo, numa formação de professores online, voltei a encontrar o mesmo padrão: quanto mais carregada estava a apresentação, menos espaço havia para pensar.
O problema nunca foi o PowerPoint. O problema começa quando os slides deixam de servir a mensagem e passam a substituí-la. Nessa altura, a comunicação perde oxigénio. A sala continua presente fisicamente, mas a atenção já saiu pela porta.
Ao longo dos anos, em contextos muito diferentes, tenho visto a mesma verdade: uma mensagem clara, bem encadeada e bem entregue prende muito mais do que cinquenta slides cheios de texto.
Um bom professor, com uma folha em branco e pensamento organizado, continua a valer mais do que um mau comunicador armado com animações, esquemas e efeitos.
O resto, muitas vezes, é só pretensão de profundidade.
Há dias, numa formação para professores no Gavião, dizia precisamente isso: quando o pensamento está limpo, o suporte ajuda. Quando o pensamento está confuso, o suporte apenas disfarça. E disfarça mal.
E há ainda outro ponto, que digo com todo o respeito por quem organiza encontros, formações e seminários: também cansa ver contextos que gastam demasiado tempo antes de chegar ao essencial.
Apresentações intermináveis de oradores, currículos lidos como se fossem atas notariais, listas de cargos, agradecimentos em excesso, introduções que se arrastam e roubam energia à sala.
Tudo isso desgasta. Tudo isso afasta.
Tudo isso enfraquece a mensagem antes de ela começar.
Comunicar bem também é saber poupar o tempo dos outros!
Em educação, isso é uma forma de respeito. Porque quando a forma começa a ocupar o lugar da substância, já não estamos a ajudar ninguém a pensar melhor. Estamos apenas a encher o tempo com uma aparência de importância.
A boa comunicação não serve para impressionar a sala por uns minutos. Serve para deixar uma ideia viva o suficiente para continuar a trabalhar dentro da pessoa depois de tudo acabar.
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Mar 19 2026
A Federação Nacional da Educação (FNE) promove no próximo dia 20 de março de 2026, no Auditório do SPZN, no Porto, a edição 2026 do Fórum FNE, que vai decorrer sob o lema “Valorizar a carreira é investir na Educação”.
Este será um espaço para debate e procura de mais respostas que permitam alcançar a valorização, desenvolvimento profissional e reconhecimento do trabalho docente durante o processo de Revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD), que decorre entre FNE e Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI).
Esta iniciativa pretende reforçar uma ação sindical transformadora, centrada numa intervenção participativa e inovadora, capaz de integrar as novas realidades da Educação e de promover um quadro legal mais justo, inclusivo e valorizador das carreiras.
A sessão de abertura decorrerá às 10h00 e estará a cargo de Pedro Barreiros, Secretário-Geral da FNE e da Vereadora do Pelouro da Educação e do Pelouro do Talento e Conhecimento, Dra. Matilde Gouveia Rocha seguindo-se às 10h30 o Painel I – O Estatuto da Carreira Docente: ponto de situação, com as participações de Paulo Fernandes, Secretário-Geral Adjunto da FNE, Pedro Brandão, Secretário Nacional FNE e Manuel Teodósio, Vice Secretário-Geral da FNE.
Pelas 11h30 acontece um espaço de debate, moderado por Maria João Cardoso, Vice-Presidente do Conselho Geral da FNE, antecendendo a paragem para almoço.
O regresso dá-se pelas 14h30 com o Painel II – Desenvolvimento profissional e valorização da carreira,com Rui Cardoso, Diretor Escolar, Alberto Veronesi, Diretor Escolar e Josefa Lopes, Vice Secretária-Geral da FNE, como oradores convidados seguindo-se um período de debate com moderação de Artur Silva,Secretário Nacional da FNE.
A “Sessão Final – Caminhos para a revisão do Estatuto” fecha os painéis de conversa e terá como oradores João Dias da Silva, Presidente da AFIET, José Ricardo, Secretário-Geral Adjunto da FNE e Joaquim Santos, Secretário Nacional FNE.
António Jorge Pinto, Vice Secretário-Geral da FNE e Gabriel Constantino, Presidente da Mesa do Congresso e do Conselho Geral da FNE, terão a seu cargo o encerramento desta iniciativa.

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Mar 19 2026
Pai,
não sei bem onde começa a saudade
nem onde termina aquilo que ainda és em mim.
Sei apenas que não partiste por inteiro
há passos teus nos meus caminhos,
há gestos teus nas minhas mãos,
há silêncio teu nas decisões que tomo.
Foste filho antes de seres tudo o resto,
e fizeste-te homem na dureza dos dias,
com a coragem de quem não escolhe o caminho fácil
mas escolhe, sempre, o caminho certo.
Depois foste marido,
e foste porto seguro,
e foste casa.
E foste Pai
assim, com letra grande,
grande demais para caber numa palavra
e ainda maior para caber no meu peito.
E mesmo assim, cabes.
Cabes na forma como olho os meus filhos,
na forma como me levanto quando custa,
na forma como não desisto,
mesmo quando o mundo parece pesado demais.
Eu digo que te perdi,
mas é mentira que conto ao corpo,
porque a alma sabe:
eu tenho-te.
Tenho-te em cada escolha honesta,
em cada verdade que não nego,
em cada vez que tento ser melhor do que ontem.
E prometo-te, Pai,
não com palavras vazias
mas com a vida inteira
que hei de honrar o homem que foste.
Serei justo, como me ensinaste.
Serei firme, quando for preciso.
Serei abrigo, como foste para mim.
E quando me faltar a força,
sei que não estou sozinho:
há uma parte de ti que se levanta comigo.
Porque não te foste.
Transformaste-te.
Agora és caminho.
Agora és raiz.
Agora és voz dentro de mim.
E eu sigo,
com saudade, sim
mas também com orgulho.
Porque tive um Pai.
Porque tenho um Pai.
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Mar 19 2026
Numa escola, lidar com uma criança em forte desregulação emocional não é apenas um desafio técnico.
É um desafio neurobiológico, relacional e organizacional. E sim, é altamente desgastante para os adultos.
Muito mais do que muita gente admite, porque há uma tendência irritante para romantizar a inclusão sem falar do preço emocional pago, todos os dias, por quem está no terreno.
Em situações de meltdown e/ou shutdown, sobretudo em crianças com autismo, não basta boa vontade…
É preciso compreender o que está a acontecer. Um meltdown não é “má educação”, “manipulação” ou “birra sofisticada”.
É uma perda de regulação em que o sistema nervoso da criança entra em sobrecarga. Um shutdown é quase o inverso visível: em vez de explosão, há retraimento, bloqueio, desligamento, colapso funcional.
Nos dois casos, o cérebro está sob stress e a capacidade de linguagem, flexibilidade, raciocínio e autocontrolo fica diminuída.
É por isso que conhecer a teoria importa.
E importa muito. As boas práticas passam, por exemplo, por reduzir estímulos, frases muito curtas e concretas, não dar sermões em pico de desregulação, manter previsibilidade, antecipar transições, identificar gatilhos, validar sem reforçar desorganização, criar planos individualizados de regulação, treinar rotinas de co-regulação, respeitar sinais precoces de saturação e organizar o ambiente para prevenir em vez de apenas reagir.
Isto é ciência aplicada ao comportamento, à autorregulação e à neurodiversidade. Não é decoração pedagógica.
Mas aqui entra uma verdade essencial: saber a teoria não resolve automaticamente a realidade!
Há pessoas que confundem conhecimento com transformação. “Eu sei o que devia ser feito” não é o mesmo que “eu consigo fazer bem, de forma consistente, sob pressão, às 11h40, com barulho, com mais 25 alunos, depois de uma manhã inteira de desgaste”. A teoria é mapa. Não é milagre.
E mesmo quando o mapa é bom, a viagem continua cheia de curvas.
Além disso, aplicar corretamente boas práticas não significa que o comportamento do aluno vá mudar depressa. Este é um erro muito comum e muito humano.
Faz-se uma ou duas intervenções adequadas e espera-se alívio imediato. Mas regulação emocional, sobretudo em perfis com neurodesenvolvimento atípico, não funciona como se existisse um botão.
Funciona mais como “fisioterapia do sistema nervoso”: repetição, consistência, ajustamento fino, recaídas, pequenas melhorias, regressões e muito treino invisível.
Quem espera resultados lineares numa criança em sofrimento está a pedir ao cérebro uma obediência que o cérebro, naquele momento, não consegue dar.
É aqui que a equipa se torna decisiva.
Professores, auxiliares e técnicos têm de remar para o mesmo lado. Não basta cada um “fazer a sua parte” de forma isolada. É preciso que cada um saiba qual é a sua função, qual é a resposta combinada, quem intervém primeiro, quem reduz estímulos, quem protege o grupo, quem acompanha a criança, quem regista padrões, quem comunica com a família e como se faz o pós-incidente.
Quando isto não está alinhado, a escola transforma-se num barco em que cada um puxa o remo para um lado e depois todos se espantam por não sair do sítio. Um clássico da condição humana.
Também sinto que é preciso dizer isto: o cansaço altera a leitura moral que os adultos fazem uns dos outros. Sob stress crónico, o cérebro fica mais reativo, menos flexível, menos empático e mais defensivo.
A fadiga compromete atenção, controlo inibitório, memória de trabalho e capacidade de perspetiva.
Ou seja, como bem sabe, pessoas cansadas pensam pior, interpretam pior e cooperam pior.
Nessa fase, torna-se muito mais fácil ver a falha do outro do que a complexidade da situação.
Por isso surgem dinâmicas muito previsíveis…
O professor sabe a teoria, mas naquele momento não a consegue aplicar com qualidade.
A auxiliar até podia ajudar mais, mas tem medo e retrai-se…
O técnico percebe o quadro global, mas nem sempre está presente no minuto crítico.
E, como todos estão cansados, em vez de leitura sistémica aparece a circulação da culpa.
Uns culpam a professora. Outros culpam a auxiliar. Outros culpam a técnica. Outros culpam a família. E quase ninguém tem energia mental para dizer a frase mais científica de todas: “o sistema está sob pressão e precisa de mais coordenação, mais treino e mais apoio”.
O ponto central é este: numa escola, lidar bem com desregulação emocional grave exige três níveis ao mesmo tempo.
Primeiro, teoria sólida.
Segundo, prática consistente.
Terceiro, humildade para aceitar que mesmo boa prática não elimina a complexidade. Não estamos a falar de receita de culinária. Estamos a falar de cérebros humanos, stress, desenvolvimento, vínculo, ambiente e limites reais dos adultos.
O que mais ajuda, na prática, é simples de dizer e difícil de sustentar: plano comum, linguagem comum, papéis claros, treino repetido, entreajuda real, debriefing após incidentes e menos caça ao culpado.
Quando a equipa deixa de perguntar “de quem foi a falha?” e começa a perguntar “o que é que o sistema precisa para responder melhor da próxima vez?”, a escola sobe de nível.
A grande ironia é esta: para ajudar uma criança a regular-se, os adultos precisam primeiro de construir regulação entre si. Sólida.
Sem isso, cada crise da criança acorda a crise latente dos crescidos. E uma equipa cansada sem coordenação não educa, apenas sobrevive. E até as melhores equipas podem melhorar! E até as equipas de excelência necessitam de reforço e reciclagem (por isso, são de excelência).
Estão de parabéns aqueles que, muitas vezes sem reconhecimento, se expõe, tentam aprender mais e fazem por melhorar a sua prática. Os pais destes alunos (e dos outros) que se cruzam com estas equipas, são abençoados. Que eles também estejam à altura.
Alfredo Leite
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Mar 19 2026
O Inquérito nacional, promovido pelo Movimento de Professores em Monodocência (MPM) e pela plataforma MetaPROF, recolheu 7072 respostas e traça um retrato preocupante de exaustão, falta de reconhecimento e desigualdade estrutural no regime de trabalho.
O Movimento de Professores em Monodocência (MPM), em colaboração com a plataforma MetaPROF, apresenta hoje o Relatório Nacional sobre Monodocência 2026, o maior levantamento realizado em Portugal sobre as condições de trabalho dos educadores de infância e professores do 1.o Ciclo do Ensino Básico.
O estudo reuniu 7072 respostas válidas de docentes dos grupos de recrutamento 100 (Educação Pré-Escolar) e 110 (1.o Ciclo do Ensino Básico), recolhidas entre 27 de fevereiro e 4 de março de 2026, revelando um retrato consistente de desgaste profissional, falta de reconhecimento e desigualdade estrutural no regime de monodocência.
Entre os dados mais marcantes, 86% dos participantes afirmam que a monodocência é vivida como uma profissão de desgaste rápido, enquanto 72% consideram insuficientes os recursos humanos disponíveis nas escolas. O estudo revela ainda que os docentes acumulam, em média, 6,8 horas semanais de trabalho extra não reconhecido nem remunerado e quase metade dos inquiridos admite ponderar abandonar a profissão “algumas vezes” ou “frequentemente”.
Segundo Luísa Brandão, administradora do MPM, “este relatório dá voz a milhares de profissionais que enfrentam uma sobrecarga muito acima do razoável, acumulando funções pedagógicas, emocionais, administrativas e assistenciais. A monodocência continua invisível e em profunda desigualdade face aos restantes ciclos de ensino.”
Também Paula Costa Gomes, do mesmo Movimento, alerta para a total falta de atratividade destes grupos de recrutamento: “não existe atualmente qualquer atratividade para captar novos candidatos para a educação pré-escolar e para o 1.o ciclo. Esta realidade, somada à rutura no número de docentes, já visível de norte a sul do país, deve constituir uma prioridade política urgente, sob pena de a muito curto prazo não existirem educadores e professores em número suficiente para assegurar as aprendizagens das
crianças.”
O relatório evidencia igualmente o envelhecimento da profissão, com 73,5% dos inquiridos a terem mais de 20 anos de serviço. Entre os principais fatores de desgaste apontados destacam-se a acumulação de múltiplas funções pedagógicas e assistenciais, o aumento da burocracia e a indisciplina em contexto escolar.
A análise de sentimento das respostas abertas reforça este diagnóstico: 98% dos comentários relativos aos problemas da profissão apresentam tom negativo, confirmando um clima generalizado de insatisfação e exaustão.
Face aos resultados, o relatório apresenta um conjunto de recomendações, entre as quais se destacam:
● Revisão urgente do Estatuto da Carreira Docente, garantindo equidade para os grupos 100 e 110;
● Equiparação da componente letiva e reduções letivas aos restantes ciclos de ensino ou, em alternativa, criação de um regime especial de aposentação que reconheça o elevado desgaste associado à monodocência;
● Redução do número de alunos por turma;
● Constituição de um grupo de trabalho nacional com o objetivo de simplificar processos burocráticos e repensar o atual modelo organizacional das escolas.
O Relatório Nacional sobre Monodocência 2026, que inclui gráficos, análise qualitativa e
propostas de intervenção, encontra-se disponível em: www.metaprof.pt
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Mar 18 2026
Os candidatos deverão proceder à submissão da respetiva declaração em Certificação de Tempo de Serviço – EPC no SIGRHE, para efeitos de contagem do tempo de serviço relevante para o concurso.
No momento da validação da candidatura, as declarações submetidas pelos candidatos integrarão diretamente o respetivo processo.
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Mar 18 2026
Aplicação da aceitação disponível das 0:00 horas de quinta-feira, dia 19 de março, até às 23:59 horas de sexta-feira, dia 20 de março de 2026 (hora de Portugal continental).
SIGRHE – Aceitação da colocação pelo candidato
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Mar 18 2026
E, se isso acontecer, é profissionalmente legítimo é transformar esse sentimento em tratamento desigual, humilhação, desistência pedagógica ou profecia de fracasso?
Esta distinção, a meu ver, é a mais importante: sentir não é o mesmo que agir…
Ensinar é uma profissão emocionalmente exigente, e a investigação mostra precisamente isso: os professores gerem emoções reais todos os dias, sobretudo em contextos de conflito, desengajamento e desgaste.
Fingir que um professor “deve gostar genuinamente muito de todos, sempre” não é uma espécie de “moralismo mal desenhado”.
Do ponto de vista psicológico, um professor pode não gostar de um aluno por várias razões: porque o aluno interrompe constantemente, desafia a autoridade, mente, provoca colegas, entra num jogo relacional desgastante, lembra alguém difícil da sua própria história, ou ativa preconceitos implícitos de que o professor nem tem plena consciência.
Vieses implícitos e expectativas dos professores podem influenciar perceções, atitudes e comportamentos em relação a certos alunos ou grupos, mesmo quando o adulto acredita estar a ser justo.
Por isso, a pergunta correta, na minha visão, não é “um professor pode sentir antipatia?”. Pode.
A pergunta correta é: “o que faz com isso?”.
Porque a qualidade da relação professor-aluno está associada a envolvimento escolar, rendimento, adaptação social, bem-estar subjetivo e clima de sala.
Relações mais próximas e menos conflituosas tendem a estar ligadas a melhores resultados; mais conflito tende a associar-se a mais problemas emocionais, sociais e académicos.
Imagine três exemplos.
Primeiro: um aluno do 7.º ano interrompe, faz comentários sarcásticos e testa limites sempre que a aula exige silêncio. É perfeitamente plausível que o professor sinta irritação e até rejeição. Isso é uma reação emocional. Mas, se começar a dar-lhe menos tempo de resposta, a corrigi-lo com dureza especial, a interpretar tudo o que ele faz como má intenção, ou a nunca lhe reconhecer progresso, já saiu da esfera do sentimento e entrou na esfera da injustiça. Aí o problema já não é “não gostar”. É discriminar pelo afeto negativo.
Segundo exemplo: uma aluna muito passiva, desligada e aparentemente “fria” nunca responde, evita olhar e parece desinteressada. O professor pode sentir antipatia porque lê aquela postura como arrogância ou desrespeito. Mais tarde descobre que a aluna está em sofrimento, com ansiedade social ou contexto familiar duro. Isto acontece muitas vezes: o adulto reage à superfície comportamental e falha o diagnóstico funcional.
A ciência das relações educativas mostra precisamente que as perceções do professor moldam a relação, e essa relação molda depois o comportamento e os resultados do aluno… espero não ter perdido o/ caro/a leitor/a… estes temas são importantes, parabéns por querer ir mais fundo.
Terceiro exemplo: um aluno é brilhante, rápido e até simpático, mas confronta o professor de forma subtil, corrigindo-o e tentando ganhar palco. O professor pode sentir antipatia porque a relação toca em orgulho, autoridade e estatuto. Isso também é humano. O critério profissional não é “nunca sentir isso”; é não retaliar pedagogicamente.
Um professor maduro transforma o desconforto em gestão de enquadramento: valida a participação, define regras de intervenção e recentra a relação no trabalho. Não é fácil. Eu sei. Não sou só o “psicólogo teórico”, felizmente, também faço ações de sensibilização para alunos e também dou aulas.
Em termos éticos, há uma formulação muito clara: o professor não tem obrigação de sentir ternura universal; tem obrigação de garantir equidade relacional mínima, segurança psicológica e acesso real à aprendizagem.
Não é obrigatório gostar, mas é “obrigatório” não perseguir, não desistir e não reduzir o aluno ao pior comportamento dele. Porque quando expectativas negativas e vieses entram no quotidiano, podem alterar o clima socioemocional da turma e o percurso do próprio aluno.
(Estou a precisar de reler a frase acima, a propósito de uma turma).
Também importa dizer isto: por vezes o problema não está apenas no professor!
Há alunos objetivamente “difíceis”….
Mas eu não me refugio nas aspas…
… há alunos agressivos, manipuladores, cronicamente opositores ou emocionalmente exaustivos. A relação pedagógica não é uma dança angelical. É uma relação assimétrica, intensa e repetida, dentro de uma profissão com forte carga de stress e burnout.
A investigação sobre trabalho emocional docente mostra que esta gestão contínua entre emoção sentida e emoção expressa tem custos.
Mas exatamente por isso a competência superior do professor não é “sentir bonito”. É pensar melhor sobre o que sente. Em termos práticos, quando um professor nota que não gosta de um aluno, deve fazer pelo menos quatro movimentos mentais. Primeiro, separar comportamento de identidade: “este aluno tem comportamentos que me irritam” não é o mesmo que “este aluno é insuportável”.
Segundo, procurar função antes de fazer julgamento: isto é desafio, defesa, procura de estatuto, insegurança, atraso autorregulatório?
Terceiro, monitorizar microcomportamentos próprios: tom de voz, ironia, proximidade, tempo de espera, feedback, contacto ocular.
A literatura mostra que o viés docente aparece precisamente nestas microinterações, às vezes invisíveis para o próprio adulto.
Quarto, criar uma rotina mínima de reparação relacional: um comentário neutro, uma pergunta sincera, uma oportunidade de sucesso, uma correção sem humilhação.
Há até uma formulação útil para formação de professores: não gostar de um aluno pode ser um dado emocional; tratar pior esse aluno é uma falha profissional; usar essa antipatia como pista para pensar melhor a relação é maturidade pedagógica.
Ninguém (são) pede ao professor que seja santo!
Pede-lhe algo mais difícil e mais sério: consciência, autorregulação e justiça.
Porque, numa sala de aula, a antipatia sentida em privado pode ser suportável.
A antipatia transformada em padrão relacional pode marcar um adolescente durante anos. E esse é o tipo de poder que exige carácter, não teatro emocional.
O professor verdadeiramente forte não é o que gosta espontaneamente dos alunos fáceis. É o que consegue não abandonar internamente os difíceis. É o que leu até aqui de mente aberta. Parabéns.
Alfredo Leite
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Mar 17 2026
Despacho (extrato) n.º 3423-B/2026
Nos termos do disposto na alínea a) n.º 2 do artigo 6.º da Lei n.º 3/2004, de 15 de janeiro, na sua
redação atual, nos artigos 44.º a 50.º do Código do Procedimento Administrativo, aprovado em anexo
pelo Decreto-Lei n.º 4/2015, de 7 de janeiro, na sua redação atual, e no n.º 6 do artigo 20.º do Decreto-
Lei n.º 75/2008, de 22 de abril, na sua redação atual, determino o seguinte:
1 — Delego nos diretores dos Agrupamentos de Escolas e Escolas não Agrupadas, bem como nos
presidentes das Comissões Administrativas Provisórias, a competência para a prática dos seguintes atos:
a) Autorizar a acumulação de funções e atividades públicas ou privadas por parte do pessoal
docente e não docente em exercício de funções no respetivo agrupamento de escolas ou escola não
agrupada, nos termos da legislação aplicável, sendo as respetivas decisões tramitadas através da
aplicação informática disponibilizada pela Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE);
b) Autorizar a realização de visitas de estudo, intercâmbios escolares, atividades de geminação ou
outras atividades pedagógicas externas, no território nacional ou no estrangeiro, incluindo a deslocação
dos discentes participantes e dos docentes acompanhantes, independentemente da respetiva duração,
nos termos legalmente previstos;
c) Autorizar permutas entre docentes colocados em Agrupamentos de Escolas ou Escolas não
Agrupadas, desde que salvaguardadas as necessidades permanentes do serviço educativo e observados
os requisitos legais aplicáveis;
d) Autorizar a concessão de equiparação a bolseiro ao pessoal docente e não docente em exercício
de funções no respetivo Agrupamento de Escolas ou Escola não Agrupada, nos termos da legislação
aplicável, quando tal não implique encargos adicionais para o serviço, sem prejuízo das competências
legalmente atribuídas ao município.
2 — O presente despacho produz efeitos no dia seguinte ao da sua publicação.
16 de março de 2026. — O Presidente da Agência para a Gestão do Sistema Educativo, I. P., António
Raul da Costa Torres Capaz Coelho
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Mar 17 2026
A PSP identificou sete jovens, com idades entre os 12 e 15 anos, suspeitos de terem deflagrado cinco artigos pirotécnicos no interior de uma escola em Aveiro, informou aquela força policial.
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Mar 17 2026
Um aluno foi ‘apanhado’ a mexer numa faca durante uma aula numa escola nos Olivais, em Lisboa. A coordenação da escola alertou a PSP para a situação que se deslocou ao local e apreendeu a arma branca. O caso foi remetido à CCPJ e ao Tribunal de Família e Menores de Lisboa.
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Mar 17 2026
Na escola, como na vida em geral, há uma diferença decisiva entre os que constroem e os que comentam a construção. É uma das verdades mais antigas da convivência humana. Uns entram em campo. Outros ficam na bancada. E, como quase sempre acontece, quem está sentado vê muito erro em quem está a correr.
Os que fazem são fáceis de reconhecer. Não porque sejam perfeitos, mas porque deixam rasto. São os diretores que não se limitam a gerir incêndios e burocracias, mas criam cultura de escola. São aqueles que decidem, por exemplo, lançar um projeto de leitura quando seria mais cómodo dizer que “os miúdos já não gostam de ler”. São os que organizam semanas temáticas sobre bem-estar, cidadania ou ciência, mesmo sabendo que isso dá trabalho, exige articulação e nunca agrada a toda a gente.
São também as professoras com iniciativa. Aquelas que não ficam à espera que alguém lhes diga tudo. As que montam uma feira do livro, criam um mural de elogios entre alunos, organizam uma campanha solidária, preparam uma sessão com pais sobre limites e ecrãs, ou inventam maneiras novas de ensinar quando o manual, sozinho, já não chega. São as que percebem que educar não é apenas cumprir um programa. É mexer no ambiente. É elevar o contexto. É puxar a escola um pouco mais para cima do que ela estava ontem.
Há ainda os pais que lidam com a escola pela positiva. Não são pais submissos, nem ingénuos. São pais colaborativos. Pais que, quando há um problema, procuram perceber antes de atacar. Pais que dizem “como podemos resolver isto em conjunto?” em vez de começarem logo com o tribunal da indignação. Pais que reconhecem o esforço dos docentes, que aparecem quando são chamados, que educam os filhos para respeitar regras e pessoas. Esses pais não fazem barulho desnecessário, mas fazem uma diferença imensa. São uma espécie de cimento invisível da comunidade educativa.
E há os técnicos atualizados. Psicólogos, mediadores, animadores, terapeutas, formadores, assistentes, profissionais que estudam, que se revêm criticamente, que não ficaram parados em ideias gastas como se o mundo tivesse congelado em 2004. São pessoas que percebem que a realidade mudou, que os alunos mudaram, que as famílias mudaram, e que responder aos desafios atuais exige mais ciência, mais lucidez e menos frases feitas. Esses profissionais ajudam a escola a não envelhecer.
São estas pessoas que levam o mundo para a frente. Não porque sejam heróis de filme, mas porque aceitam a parte menos glamorosa da responsabilidade. Fazer implica expor-se. Implica decidir. Implica ouvir críticas. Implica, às vezes, falhar. Quem cria um projeto pode ver pouca adesão. Quem organiza uma atividade pode esquecer um detalhe. Quem tenta inovar pode não acertar logo. Mas há aqui uma diferença moral importante: falhar a fazer não é o mesmo que nunca fazer nada. O erro de quem tenta tem dignidade. O conforto de quem nunca arrisca costuma vir disfarçado de superioridade.
Depois há os que não fazem. E dentro desses, felizmente, há muita gente decente. Pessoas que não lideram projetos, não puxam processos, não têm perfil para organizar, mas também não atrapalham. Cumprem, respeitam, ajudam quando podem, não vão a palco nem aguentam. Essas pessoas merecem todo o respeito. Nem todos nasceram para abrir caminho, mas o mundo também precisa de quem saiba não destruir a estrada.
O problema não está nesses.
O problema está naquela minoria ruidosa que nada constrói, mas quer sempre parecer árbitro universal do esforço alheio. São os eternos comentadores da bancada. Os tais “velhos do Restelo” em versão contemporânea, agora com internet, perfil sem rosto e convicção a mais para obra a menos. Nunca lançaram um projeto. Nunca mobilizaram uma equipa. Nunca seguraram o peso real de decidir por outros. Mas aparecem sempre prontos para dizer mal de quem fez, de quem tentou, de quem ousou.
Vê-se isso muito nas escolas e nas redes sociais. Uma diretora cria uma iniciativa para aproximar famílias da escola e logo aparece alguém a dizer que “isto é só para aparecer”. Um professor organiza um encontro intergeracional e há logo quem desvalorize com um comentário azedo. Um técnico propõe uma abordagem nova e surge logo a crítica fácil de quem confunde cinismo com inteligência. É curioso como tantas vezes os mais ferozes na acusação são os mais estéreis na ação. Há pessoas que nunca plantaram nada, mas tornaram-se especialistas em avaliar colheitas.
Também é verdade que alguns desses perfis vivem presos a uma visão amarga da autoridade, da mudança e do mérito dos outros. Nem sempre por maldade pura. Por vezes por frustração, ressentimento, rigidez mental, hábito crónico de suspeitar de tudo, ou incapacidade de suportar ver alguém fazer o que eles próprios nunca tiveram coragem de tentar. O ser humano é assim, uma máquina estranha: aplaude o discurso da mudança, mas muitas vezes ataca quem mexe realmente nas peças.
E há outro dado da realidade que quase toda a gente reconhece, mesmo que nem sempre o diga: alunos, colegas e comunidades tendem a confiar mais em quem é genuinamente útil do que em quem é sistematicamente corrosivo. Pode haver medo momentâneo do crítico barulhento, mas raramente há admiração profunda. As pessoas podem ouvir o ruidoso, mas seguem o confiável. No fim, quem marca uma escola não é quem comenta mais. É quem melhora o ambiente, resolve problemas, cria pontes e inspira trabalho sério.
Convém, por isso, fazer uma distinção justa. Nem toda a crítica é má. Uma escola saudável precisa de contraditório, precisa de perguntas difíceis, precisa de gente que chame a atenção para erros reais. Mas crítica séria é diferente de ruído. Crítica séria ajuda a corrigir. Ruído tenta humilhar. Crítica séria assume responsabilidade. Ruído refugia-se no sarcasmo e na distância. Crítica séria quer melhorar a realidade. Ruído quer apenas parecer mais esperto do que quem está a trabalhar.
A conclusão nobre é esta: o mundo avança por causa dos que fazem. Dos que arriscam, propõem, organizam, corrigem, caem e voltam a levantar-se. São eles que mantêm viva a escola, a comunidade e a esperança prática. Merecem respeito, proteção e coragem renovada. Não precisam de ser perfeitos. Precisam de continuar.
Mas também merece reconhecimento quem, não sendo da linha da frente, sabe estar com dignidade. Quem não lidera, mas não sabota. Quem não cria projetos, mas não apaga a chama dos outros. Quem percebe uma verdade simples e rara: já é uma forma de grandeza humana não atrapalhar quem está a tentar construir.
Numa escola madura, como na sociedade, há lugar para os que lideram e para os que apoiam.
O que mais prejudica crianças e jovens é a pequena tirania dos que nada fazem e ainda se sentem autorizados a tentar enfraquecer quem faz.
Alfredo Leite
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Mar 17 2026
O PÚBLICO expôs este caso, agora mediático, que veio revelar fragilidades nos órgãos de direção, administração e gestão das escolas. Urge investigar com lisura e imparcialidade.
Sofia Neves
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Mar 16 2026
A explicação de cada ato, riscos e regras procedimentais…
Alínea a) — Matrícula repetida no mesmo ano e curso
O diretor pode autorizar que um aluno se matricule num ano de escolaridade em que já esteve matriculado anteriormente, quando a lei o admite (cf. regime de retenção e progressão, DL n.º 55/2018 e legislação conexa). A decisão deve ser fundamentada, identificando a norma habilitante, a situação concreta do aluno e a justificação pedagógica ou legal. Não se trata de um ato discricionário puro — o diretor não pode autorizar o que a lei proíbe; a delegação só opera dentro dos casos legalmente permitidos.
Alínea b) — Antecipação ou adiamento da matrícula no 1.º ciclo
A matrícula no 1.º ano pode ser antecipada (crianças que completem 6 anos entre setembro e dezembro) ou adiada (situações de imaturidade ou condição de saúde), nos termos do Despacho Normativo n.º 10-B/2021 e legislação aplicável. A alínea exige fundamentação qualificada — o diretor não pode deferir sem elementos objetivos que documentem a situação excecional (relatório médico, parecer do psicólogo, etc.). A decisão deve constar de despacho escrito com identificação dos factos e da norma habilitante.
Alínea c) — Revalidação de matrícula anulada por falta de pagamento
Aplica-se sobretudo ao ensino secundário particular e cooperativo com paralelismo pedagógico, onde a propina é devida, e ao seguro escolar. O diretor pode reativar a matrícula anulada, mediante comprovativo de pagamento ou acordo de regularização. Sugere-se que o procedimento contemple: pedido escrito do encarregado de educação, comprovativo de pagamento ou acordo, despacho de revalidação com data de produção de efeitos.
Alínea d) — Transferências e matrículas/inscrições fora de prazo
Esta é provavelmente a alínea de maior impacto operacional. Abrange:
O âmbito é explicitamente amplo: ensino básico e secundário, público e privado. No que respeita ao ensino privado, a competência do diretor de agrupamento público aplica-se quando o processo tem origem ou destino na sua escola.
A decisão de autorizar transferência com mudança de percurso deve considerar a viabilidade de integração curricular, os módulos ou disciplinas em causa e o interesse do aluno — são elementos de instrução do processo que devem constar do dossier administrativo.
Alínea e) — Qualificação de acidentes em serviço (DL n.º 503/99)
Esta é a alínea de maior complexidade jurídica e de maior risco para o diretor. Delega três competências distintas:
Cautela prática: o diretor deve registar sistematicamente todos os processos em SIGRHE e manter dossier completo, dado o potencial de litígio nestas matérias (ação judicial, queixa à Inspeção-Geral de Educação e Ciência).
Alínea f) — Protocolos, parcerias e acordos de cooperação
Competência de enorme utilidade para a vida dos agrupamentos, mas com condição expressa: não podem implicar encargos financeiros permanentes. A interpretação desta condição é crucial:
O despacho não exige a publicação dos protocolos no Diário da República, mas recomenda-se que os mesmos sejam submetidos a aprovação do Conselho Geral quando envolvam contrapartidas relevantes para a escola, por força das competências de acompanhamento daquele órgão (DL 75/2008, art. 13.º).
Alínea g) — Autorização de estudos científicos
Competência simples na forma, exigente na instrução. O diretor deve avaliar: impacto no funcionamento normal das atividades; tratamento de dados pessoais de alunos (RGPD — obrigatoriedade de consentimento dos encarregados de educação); eventual parecer da Comissão Nacional de Proteção de Dados se envolver dados sensíveis; e idoneidade científica da entidade proponente.
Alínea h) — Permutas de disciplina opcional e de língua estrangeira no ensino básico
Competência de natureza pedagógico-administrativa: permite ao diretor autorizar que um aluno frequente, por exemplo, uma segunda língua estrangeira diferente da atribuída à turma, ou uma disciplina opcional distinta da sua turma, quando haja vaga e compatibilidade de horário. A decisão deve ser registada no sistema de gestão escolar e comunicada aos serviços de ação educativa.
1. Forma escrita obrigatória. Todos os atos delegados são atos administrativos e estão sujeitos ao regime do CPA. Devem ser praticados por escrito, com identificação do decisor, da norma habilitante (incluindo referência ao Despacho 3423-A/2026 e à alínea correspondente), dos factos relevantes e da decisão.
2. Fundamentação. Nos termos do artigo 152.º do CPA, os atos administrativos estão sujeitos a dever de fundamentação, especialmente quando sejam desfavoráveis ou discricionários. Mesmo os atos favoráveis devem identificar a base legal e os elementos de instrução que os sustentam.
3. Tramitação preferencial em SIGRHE. O despacho estabelece expressamente que, sempre que possível, os procedimentos devem ser tramitados através do SIGRHE, dispensando comunicações adicionais aos serviços centrais. Esta indicação serve dois propósitos: rastreabilidade e dispensa de procedimentos burocráticos paralelos.
4. Impugnabilidade. Os atos praticados ao abrigo desta delegação são impugnáveis pelos interessados perante o próprio diretor (reclamação) ou hierarquicamente perante o membro do Governo competente (recurso hierárquico), nos termos gerais do CPA. O diretor deve estar preparado para responder a estas impugnações.
5. Responsabilidade. A delegação transfere para o diretor a responsabilidade pela legalidade e mérito dos atos praticados. Em caso de ilegalidade, o ministro pode avocar e revogar, mas a responsabilidade disciplinar e eventualmente financeira permanece na esfera do delegado.
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Mar 16 2026
A TVI e CNN Portugal sabem que um jovem de 18 anos foi detido na posse de um machado. Dois menores de 16 anos foram identificados e entregues aos respetivos responsáveis legais. Durante a ocorrência, também foi apreendida uma faca.
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Mar 16 2026
Mas continuo no 5.º escalão…
Delegação de competências nos diretores dos agrupamentos de escolas e escolas não agrupadas e presidentes das comissões administrativas provisórias.
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Mar 16 2026
Próximas datas (previsão)
13 de março
Concurso Interno/Externo de Provimento – Publicação do Aviso de Abertura e Vagas
De 16 a 27 de março
Concurso Interno/Externo de Provimento
Apresentação de documentos (das 09h de 16/03 até às 18h de 27/03)
Habilitação profissional para a docência
Habilitação própria para a docência no GR 550 – Informática
Sistemas de quotas de emprego para pessoas com deficiência – DL n.º 29/2001
Adapta à R.A.A. o sistema de quotas de emprego para pessoas com deficiência – DLR n.º 4/2002/A
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Mar 15 2026
Há um dado que devia inquietar muitas famílias portuguesas, embora provavelmente passe despercebido entre notificações e ecrãs ligados à mesa de jantar. Um estudo recente indica que quase nove em cada dez crianças e jovens entre os 9 e os 17 anos em Portugal já utilizaram ferramentas de inteligência artificial, e que 85% recorreram a estas tecnologias apenas no último mês.
À primeira vista, a notícia pode parecer motivo de orgulho tecnológico. Jovens curiosos, ferramentas avançadas, criatividade digital. O discurso otimista é conhecido: a inteligência artificial pode apoiar o estudo, ajudar a organizar ideias, estimular a aprendizagem. Tudo verdade. O problema começa quando se olha um pouco mais fundo e um pouco mais para dentro das casas.
A empresa de cibersegurança ESET chama a atenção para algo menos confortável: muitos jovens não usam apenas estes sistemas para estudar ou pesquisar. Em vários casos, começam a tratá-los como interlocutores pessoais. Pedem conselhos, desabafam, partilham preocupações. Em suma, conversam com eles como se fossem alguém.
O fenómeno é fascinante do ponto de vista psicológico, e profundamente revelador do ponto de vista social.
Porque uma criança não procura um “companheiro digital” apenas porque a tecnologia existe. Procura-o porque há um vazio que precisa de ser preenchido.
Durante a infância e a adolescência, o cérebro humano constrói as suas competências emocionais através da relação com outras pessoas: ouvir, discutir, discordar, negociar, sentir empatia. Esse processo exige tempo, atenção e disponibilidade adulta. Não algoritmos.
No entanto, em muitas famílias contemporâneas, o tempo de conversa tornou-se um recurso escasso. Pais cansados, agendas cheias, telemóveis sempre presentes. O resultado é um paradoxo curioso: nunca houve tantos meios de comunicação e nunca tantas crianças se habituaram a falar sozinhas diante de um ecrã.
Quando um jovem recorre a um chatbot para pedir conselhos sobre amizades, ansiedade ou problemas escolares, o fenómeno não é apenas tecnológico. É relacional.
A inteligência artificial, nesse momento, está apenas a ocupar um lugar vazio à mesa.
Naturalmente, há riscos evidentes. Sistemas automatizados não compreendem emoções humanas no sentido real do termo; simulam respostas com base em padrões linguísticos. Para um adolescente vulnerável, essa simulação pode criar uma ilusão de compreensão que não corresponde a uma relação verdadeira. Ao longo do tempo, a preferência por interações previsíveis, educadas, disponíveis, sem conflito, pode tornar o contacto humano mais difícil e menos tolerável.
É precisamente isso que preocupa especialistas em comportamento: a possibilidade de alguns jovens começarem a privilegiar conversas com máquinas em detrimento das relações humanas, favorecendo formas subtis de isolamento social.
Mas talvez a questão mais incómoda seja outra.
A inteligência artificial não invadiu a infância portuguesa. Foi convidada a entrar.
Entrou nas mochilas digitais, nos quartos, nos telemóveis oferecidos cada vez mais cedo. Entrou muitas vezes sem regras, sem orientação e, sobretudo, sem adultos por perto para contextualizar aquilo que estas ferramentas são ou não são.
É fácil culpar a tecnologia. Mais difícil é admitir que, para muitas crianças, um chatbot tem uma vantagem competitiva clara em relação aos adultos da casa: está sempre disponível para ouvir.
A ironia é quase perfeita. Pais preocupam-se com o tempo que os filhos passam a falar com máquinas, quando a pergunta talvez devesse ser outra: quanto tempo passam os filhos a falar com eles?
Enquanto essa resposta continuar a ser desconfortável, a inteligência artificial continuará a prosperar no território mais silencioso da vida familiar, aquele onde deveria existir conversa.
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Mar 15 2026
A reorganização do Ministério da Educação, Ciência e Inovação, conduzida pelo governo liderado por Luís Montenegro e tutelada pelo ministro Fernando Alexandre, tem sido apresentada como um “virar de página” na administração educativa. O discurso oficial fala em simplificação, eficiência e redução da burocracia. Mas, olhando para a arquitetura da reforma, a questão que se impõe é outra: estamos perante uma modernização do Estado ou uma centralização silenciosa do poder administrativo?
A reforma parte de um diagnóstico recorrente na administração pública portuguesa: a proliferação de organismos, direções-gerais e institutos que fragmentam responsabilidades e tornam os processos lentos e opacos. Para resolver o problema, o executivo decidiu reduzir drasticamente o número de entidades do sistema educativo, concentrando funções que antes estavam dispersas. No papel, a medida parece lógica. Menos estruturas significariam decisões mais rápidas e maior coordenação.
Contudo, o modo como essa simplificação foi desenhada levanta dúvidas. A reforma extingue ou absorve organismos históricos da administração educativa, como a Direção-Geral da Administração Escolar, a Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares e o Instituto de Gestão Financeira da Educação, concentrando grande parte das suas funções numa nova entidade: a Agência para a Gestão do Sistema Educativo. A lógica é clara: centralizar a gestão administrativa do sistema numa estrutura única.
Ao mesmo tempo, outra entidade recém-criada, o Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação, reúne funções de avaliação, currículo e programas estratégicos que estavam espalhadas por diferentes organismos. O ministério passa assim a funcionar em torno de dois grandes polos: um dedicado à gestão administrativa e outro à definição e monitorização das políticas educativas.
A questão não está tanto no princípio da reorganização, que dificilmente alguém contestará, mas na escala da concentração. Ao fundir estruturas com culturas administrativas distintas, o Governo aposta numa espécie de “super-agência” educativa. O risco é que a simplificação se transforme numa máquina pesada, distante das escolas e dependente de cadeias hierárquicas ainda mais rígidas.
Os sindicatos de professores já apontaram esse perigo. Temem que a reforma reduza a capacidade de mediação institucional que antes existia entre escolas e administração central. A extinção de organismos intermédios pode significar, na prática, menos canais de diálogo e mais decisões tomadas à distância.
Há também uma dimensão política que merece atenção. A reorganização administrativa coincide com um processo mais amplo de descentralização de competências educativas para os municípios. Em teoria, o Estado simplifica-se e as autarquias ganham protagonismo. Na prática, corre-se o risco de criar um sistema híbrido: um centro administrativo mais concentrado e um território com responsabilidades crescentes, mas nem sempre acompanhado dos meios necessários.
Em reformas do Estado, a promessa de eficiência costuma ser sedutora. Mas a história administrativa portuguesa mostra que muitas reorganizações acabam por trocar um tipo de complexidade por outro. O teste da reforma do MECI não será o desenho institucional — sempre elegante nos diplomas legais, mas a forma como funcionará no quotidiano das escolas.
Se a nova estrutura conseguir reduzir a burocracia e responder mais rapidamente aos problemas do sistema educativo, o Governo poderá reclamar vitória. Se, pelo contrário, as “super-estruturas” gerarem novos bloqueios administrativos, a reforma arrisca juntar-se à longa lista de reorganizações do Estado que prometiam simplificar, e acabaram por complicar.
Por agora, a mudança está em marcha. O veredicto, como tantas vezes na educação portuguesa, será dado não pelos organigramas, mas pelas escolas.
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Mar 15 2026
Problemas na reforma dos serviços leva Fernando Alexandre a pedir paciência em reunião online com os diretores do país.
Pediu paciência e disse que temos de entender que é uma transição muito grande e que os serviços estão a esforçar-se para dar resposta”, disse ao CM Rui Cardoso, diretor do Agrupamento de Viso, em Viseu.
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Mar 14 2026
Açores reforçam incentivos para fixar professores com medidas para atrair e fixar docentes nas ilhas mais carenciadas
500 € mensais de apoio à habitação
Até 6.000 € por ano letivo por docente
1 viagem aérea anual de ida e volta em território nacional
Compromisso mínimo de 3 anos na escola colocada
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Mar 14 2026
Portugal vive uma transição demográfica silenciosa mas acelerada no seu corpo docente. Em 2025, reformaram-se 3.620 professores, o segundo valor mais alto da última década , e só entre Janeiro e Agosto desse ano saíram 2.054 docentes do sistema. Dois terços dos que hoje ensinam têm 50 ou mais anos , numa pirâmide etária invertida que torna inevitável uma vaga de aposentações sem precedente na próxima década.
O modelo aqui apresentado projecta entre 40.000 e 53.000 saídas até 2035, com pico entre 2028 e 2029. Do universo de 122.000 docentes activos em 2024/25, apenas 76.000 deverão permanecer em funções em 2034/35, uma perda de mais de um terço do corpo docente em dez anos. O problema agrava-se pelo lado da reposição: a escassez de professores acentuar-se-á entre 2026 e 2030, período em que as reservas de recrutamento ficarão em risco de se esgotar, e em 2031 praticamente todos os grupos de recrutamento estarão em défice estrutural. Este painel analisa a série histórica, os três cenários de projecção, o saldo demográfico e o efeito moderador, mas não resolutivo, do suplemento de 750€ sobre o ritmo das saídas.

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Mar 14 2026
A Futurália, feira da educação a decorrer na FIL, é uma mistura entre o plástico das canetas promocionais e a ansiedade adolescente, como se cada stand fosse uma pequena promessa de futuro.
E basta olhar em redor para ter a engenharia aqui, a enfermagem ali, um curso de videojogos mais adiante, e os rapazes e raparigas a passearem entre as bancas com sacos cheios de prospectos como quem recolhe mapas de países para sempre por visitar.
E de repente, entre universidades, escolas profissionais e cursos de línguas, um stand do Chega.
Um partido político numa feira de educação é como um vendedor de tempestades numa feira agrícola.
Não é totalmente estranho, dirão alguns, a política também educa, também ensina, também promete e promove futuros.
Não obstante, no balcão, entre bandeiras e panfletos, aqui estão os cartazes contra a imigração mais a “grande substituição”, essa teoria conspirativa segundo a qual as elites pretendem substituir a população europeia por imigrantes vindos de outros países.
Mas eles são a elite…
A ideia, popularizada por Camus, é um dos pilares retóricos da extrema-direita europeia.
Imagino um rapaz de dezassete anos a parar ali, não porque acredita em teorias conspirativas, mas porque a frase é simples, directa, individual: alguém está a roubar-te o lugar. É uma explicação rápida para quem cresce num mundo onde as casas são caras, os salários são baixos, o custo de vida vai para além do impossível e o futuro não é senão um espelho embaciado.
Os jovens gostam de frases curtas.
Os adultos gostam cada vez mais de frases curtas.
A política tradicional oferece relatórios, estatísticas, planos estratégicos para 2040. A nova política oferece slogans capazes de caber num TikTok. Entre um gráfico e a indignação, o cérebro, extenuado, escolhe a indignação.
Assim, este stand numa feira de educação não é apenas uma curiosidade, é um sintoma.
E a feira da educação já não é um mercado de futuros, mas um mercado de medos.
E se a escola ensinou aqueles miúdos a resolver equações, a distinguir um advérbio de um predicado, ao mesmo tempo olvidou algo igualmente essencial: como lidar com o medo de quem se vê num repente dispensável.
E quando aparece alguém a dizer “a culpa não é tua, a culpa é deles”, a frase entra na cabeça como uma chave mestra numa fechadura.
Porque no populismo a pertença, e digam lá vocês qual o jovem a querer priorizar o conhecimento quando pertencer é tão ou mais importante.
É mais importante.
E um stand de um partido político não é uma licenciatura, é uma tribo.
As universidades prometem carreiras, a política promete identidade. Entre a incerteza e a certeza emocional, votamos nas emoções e pelas emoções.
Porque um discurso feito de simplificações numa feira de educação, é como um megafone numa biblioteca.
Faz barulho.
E os jovens, ainda a aprender a distinguir entre ruído e argumento, ficam ali a ouvir.
Talvez passem e riam, talvez ignorem, talvez um ou dois levem um folheto para casa.
Não há problema: a política habituou-se a trabalhar com pequenas probabilidades, bastando um punhado de conversões por dia para moldar uma geração inteira.
E assim nascem as sociedades. Esta sociedade.
Não com grandes revoluções, súbitas e sangrentas, mas com pequenas infiltrações, uma banca aqui, um discurso ali mais esta ideia a crescer como uma erva daninha entre as pedras da calçada.
E quando estes jovens chegarem aos trintas com as duas mãos cheias de nada, lembrar-se-ão daqueles cartazes e de quem, supostamente, roubou-lhes o futuro.
Resta uma pergunta: quem autorizou um stand do Chega numa feira da educação?
E neste texto a armadilha de sempre quando um partido político é mestre em propaganda: não interessa falar bem ou mal do Chega, conquanto se fale.
Mas quando o silêncio rima com consentimento, as palavras não são apenas canções, são armas, e é urgente lutar.
https://www.publico.pt/2026/03/12/sociedade/noticia/feira-educacao-acolhe-stand-chega-cartazes-antiimigracao-associados-teoria-substituicao-2167609
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Mar 13 2026
Aplicação da aceitação disponível das 0:00 horas de segunda-feira, dia 16 de março, até às 23:59 horas de terça-feira, dia 17 de março de 2026 (hora de Portugal continental).
SIGRHE – Aceitação da colocação pelo candidato
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Mar 13 2026
Acrescentarão às competências dos diretores:
Autorização de matrícula no mesmo ano de escolaridade e curso;
Autorização de antecipação ou adiamento da matrícula no 1.º ciclo do ensino básico em situações excecionais devidamente fundamentadas;
Autorização de acumulação de funções por parte de pessoal docente e não docente;
Autorização da realização de visitas de estudo, intercâmbios e outras atividades pedagógicas externas;
Autorização de permutas entre docentes, nos termos legalmente previstos;
Concessão de equiparação a bolseiro;
Autorização da revalidação de matrículas anuladas por falta de pagamento de propina ou de prémio de seguro escolar;
Autorização de transferências e matrículas após o termo dos prazos legalmente estabelecidos;
Qualificação de acidentes em serviço, nos termos legalmente previstos;
Autorização para a celebração de protocolos e parcerias com entidades externas que contribuam para os fins educativos, nos termos legalmente aplicáveis.
E ainda poderão surgir mais…
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Mar 13 2026
… que sistemáticamente ficam adiadas.
Escolas de várias zonas do país esperam obras de requalificação desde 2023. A este atraso soma-se a demora do investimento anunciado pelo atual Governo. Resultado: o próximo ano letivo será mais um sem as escolas estarem requalificadas . Diretores e corpo docente argumentam que é necessário preparar os estabelecimentos para as alterações climáticas, além das obras já consideradas urgentes.
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Mar 13 2026
Em reunião do MECI com os diretores o Ministro da Educação anunciou que o concurso de 2027 terá início logo em Janeiro desse ano de acordo com novo modelo.
Também refereiu que muito em breve serão atribuídas por despacho novas competências aos Diretores, que passavam por pedidos de autorização à DGEstE ou à DGAE, nomedamente em dar autorizações das visitas de estudo, qualificações de acidentes em serviço, contratos sem implicações financeiras, equiparações a Bolseiro…
Mas se o compromisso do concurso em Janeiro de 2027 seguir o mesmo procedimento da reunião de hoje então ficamos já a saber que só lá para Abril é que vai abrir o concuro. Pois ter começado a reunião com uma hora de atraso por problemas técnicos…
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