O que são as escolas?
Às vezes perguntam-me assim:
“Mas uma escola diferente é o quê, ao certo?”
E eu penso… diferente de quê?
Diferente daquela escola onde toda a gente anda a correr, mas quase ninguém sente que está verdadeiramente a aprender?
Diferente daquela escola onde se cumpre tudo… e, no fim, falta quase tudo?
Na minha opinião, quando uma escola tenta fazer diferente, não está a armar-se em moderna! Está, muitas vezes, só a tentar ser mais honesta com a realidade.
“Então inovar é acabar com tudo o que existia?”
Não.
É ter coragem para olhar para o que já não resulta e dizer: “assim não chega”.
É perceber que há alunos que precisam de mais espaço para pensar, mais tempo para fazer, mais autonomia para crescer e mais adultos a trabalhar uns com os outros, em vez de cada um fechado na sua sala, como se educar fosse uma coleção de ilhas.
E depois há escolas que arriscam. Que mexem no currículo. Que juntam professores. Que criam Projetos. Que apostam no trabalho autónomo. Que inventam roteiros de aprendizagem. Que dão aos alunos mais responsabilidade e aos adultos mais trabalho a sério.
Não é teatro!. É trabalho duro.
É tentativa, erro, escuta, afinação…
Num contextos escolar público que conheço, em Lisboa, isso tem passado por reorganizar alunos e docentes, usar projetos interdisciplinares, trabalho autónomo, roteiros de aprendizagem e apoio tutorial, repensando até tempos e espaços escolares.
“Mas isso funciona?”
Funciona sempre? Não.
Melhora tudo? Também não.
Dá mais sentido a muita coisa? Muitas vezes, sim.
Vai correr bem? Sim. Definitivamente.
Há muitos lugares em Portugal onde uma criança não é só mais uma cadeira ocupada.
Há muitos professores que não desistiram de pensar!
Há equipas que discutem, ajustam, inventam e voltam a tentar.
A escola pode ser exigente sem ser desumana. E deve.
A escola pode ter estrutura sem esmagar.
Pode ter liberdade sem cair no caos.
Uma escola que tenta fazer diferente não é uma escola perfeita. É uma escola viva.
E uma escola viva faz barulho, faz perguntas, comete erros, corrige, aprende.
Tal como os alunos.
Tal como os adultos.
Tal como a vida.
“E qual é o segredo?”
Não há segredo nenhum.
Há compromisso.
Há visão.
Há gente que, apesar de tudo, continua a aparecer e a dizer: “vamos outra vez”.
No fim, é isto que eu sinto: as escolas nunca são só edifícios, horários, projetos ou metodologias…
As escolas são as pessoas, não é ?
E quando as pessoas certas se juntam com coragem para fazer melhor, até as paredes parecem aprender.
Alguns dirão: “lá vem mais uma conversa bonita sobre inovação…”
E eu percebo esse ceticismo.
Na escola, já houve palavras caras, projetos vistosos e mudanças com bom aspeto no papel… mas pouco efeito real na vida de quem ensina.
Por isso, uma escola que tenta fazer diferente não pode ser só moderna no discurso.
Tem de ser mais honesta com a realidade.
Tem de dar mais sentido ao que se aprende, mais espaço ao que se vive e mais condições a quem lá trabalha.
Inovar não é deitar fora tudo o que existia.
Não é trocar exigência por confusão.
Não é pôr nomes novos em problemas antigos.
É olhar para o que já não chega e ter coragem para ajustar.
Porque uma escola viva não é uma escola perfeita.
É uma escola onde há tentativa, erro, compromisso, pensamento e gente que continua a aparecer para fazer melhor.
A verdadeira inovação não está em inventar uma escola nova. Está em ter coragem para humanizar a que já existe.
Alfredo Leite