E se um professor, em certos momentos, não gosta de um aluno? – Alfredo Leite

E, se isso acontecer, é profissionalmente legítimo é transformar esse sentimento em tratamento desigual, humilhação, desistência pedagógica ou profecia de fracasso?

Esta distinção, a meu ver, é a mais importante: sentir não é o mesmo que agir…

Ensinar é uma profissão emocionalmente exigente, e a investigação mostra precisamente isso: os professores gerem emoções reais todos os dias, sobretudo em contextos de conflito, desengajamento e desgaste.

Fingir que um professor “deve gostar genuinamente muito de todos, sempre” não é uma espécie de “moralismo mal desenhado”.

Do ponto de vista psicológico, um professor pode não gostar de um aluno por várias razões: porque o aluno interrompe constantemente, desafia a autoridade, mente, provoca colegas, entra num jogo relacional desgastante, lembra alguém difícil da sua própria história, ou ativa preconceitos implícitos de que o professor nem tem plena consciência.

Vieses implícitos e expectativas dos professores podem influenciar perceções, atitudes e comportamentos em relação a certos alunos ou grupos, mesmo quando o adulto acredita estar a ser justo.

Por isso, a pergunta correta, na minha visão, não é “um professor pode sentir antipatia?”. Pode.

A pergunta correta é: “o que faz com isso?”.

Porque a qualidade da relação professor-aluno está associada a envolvimento escolar, rendimento, adaptação social, bem-estar subjetivo e clima de sala.

Relações mais próximas e menos conflituosas tendem a estar ligadas a melhores resultados; mais conflito tende a associar-se a mais problemas emocionais, sociais e académicos.

Imagine três exemplos.

Primeiro: um aluno do 7.º ano interrompe, faz comentários sarcásticos e testa limites sempre que a aula exige silêncio. É perfeitamente plausível que o professor sinta irritação e até rejeição. Isso é uma reação emocional. Mas, se começar a dar-lhe menos tempo de resposta, a corrigi-lo com dureza especial, a interpretar tudo o que ele faz como má intenção, ou a nunca lhe reconhecer progresso, já saiu da esfera do sentimento e entrou na esfera da injustiça. Aí o problema já não é “não gostar”. É discriminar pelo afeto negativo.

Segundo exemplo: uma aluna muito passiva, desligada e aparentemente “fria” nunca responde, evita olhar e parece desinteressada. O professor pode sentir antipatia porque lê aquela postura como arrogância ou desrespeito. Mais tarde descobre que a aluna está em sofrimento, com ansiedade social ou contexto familiar duro. Isto acontece muitas vezes: o adulto reage à superfície comportamental e falha o diagnóstico funcional.

A ciência das relações educativas mostra precisamente que as perceções do professor moldam a relação, e essa relação molda depois o comportamento e os resultados do aluno… espero não ter perdido o/ caro/a leitor/a… estes temas são importantes, parabéns por querer ir mais fundo.

Terceiro exemplo: um aluno é brilhante, rápido e até simpático, mas confronta o professor de forma subtil, corrigindo-o e tentando ganhar palco. O professor pode sentir antipatia porque a relação toca em orgulho, autoridade e estatuto. Isso também é humano. O critério profissional não é “nunca sentir isso”; é não retaliar pedagogicamente.

Um professor maduro transforma o desconforto em gestão de enquadramento: valida a participação, define regras de intervenção e recentra a relação no trabalho. Não é fácil. Eu sei. Não sou só o “psicólogo teórico”, felizmente, também faço ações de sensibilização para alunos e também dou aulas.

Em termos éticos, há uma formulação muito clara: o professor não tem obrigação de sentir ternura universal; tem obrigação de garantir equidade relacional mínima, segurança psicológica e acesso real à aprendizagem.

Não é obrigatório gostar, mas é “obrigatório” não perseguir, não desistir e não reduzir o aluno ao pior comportamento dele. Porque quando expectativas negativas e vieses entram no quotidiano, podem alterar o clima socioemocional da turma e o percurso do próprio aluno.

(Estou a precisar de reler a frase acima, a propósito de uma turma).

Também importa dizer isto: por vezes o problema não está apenas no professor!

Há alunos objetivamente “difíceis”….

Mas eu não me refugio nas aspas…

… há alunos agressivos, manipuladores, cronicamente opositores ou emocionalmente exaustivos. A relação pedagógica não é uma dança angelical. É uma relação assimétrica, intensa e repetida, dentro de uma profissão com forte carga de stress e burnout.

A investigação sobre trabalho emocional docente mostra que esta gestão contínua entre emoção sentida e emoção expressa tem custos.

Mas exatamente por isso a competência superior do professor não é “sentir bonito”. É pensar melhor sobre o que sente. Em termos práticos, quando um professor nota que não gosta de um aluno, deve fazer pelo menos quatro movimentos mentais. Primeiro, separar comportamento de identidade: “este aluno tem comportamentos que me irritam” não é o mesmo que “este aluno é insuportável”.

Segundo, procurar função antes de fazer julgamento: isto é desafio, defesa, procura de estatuto, insegurança, atraso autorregulatório?

Terceiro, monitorizar microcomportamentos próprios: tom de voz, ironia, proximidade, tempo de espera, feedback, contacto ocular.

A literatura mostra que o viés docente aparece precisamente nestas microinterações, às vezes invisíveis para o próprio adulto.

Quarto, criar uma rotina mínima de reparação relacional: um comentário neutro, uma pergunta sincera, uma oportunidade de sucesso, uma correção sem humilhação.

Há até uma formulação útil para formação de professores: não gostar de um aluno pode ser um dado emocional; tratar pior esse aluno é uma falha profissional; usar essa antipatia como pista para pensar melhor a relação é maturidade pedagógica.

Ninguém (são)   pede ao professor que seja santo!

Pede-lhe algo mais difícil e mais sério: consciência, autorregulação e justiça.

Porque, numa sala de aula, a antipatia sentida em privado pode ser suportável.

A antipatia transformada em padrão relacional pode marcar um adolescente durante anos. E esse é o tipo de poder que exige carácter, não teatro emocional.

O professor verdadeiramente forte não é o que gosta espontaneamente dos alunos fáceis. É o que consegue não abandonar internamente os difíceis. É o que leu até aqui de mente aberta. Parabéns.

 

Alfredo Leite

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5 comentários

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    • Manuel, o impoluto on 18 de Março de 2026 at 14:57
    • Responder

    E se um aluno não gosta do professor? O que deve fazer? Chatear todos os dias? Boicotar as aulas sistematicamente? Furar os pneus do carro do professor? Riscar-lhe o carro?

    Há alunos difíceis e há alunos simplesmente vis, deliquentes, sociopatas.

    E o resto é conversa da treta.

      • Luluzinha! on 18 de Março de 2026 at 18:06
      • Responder

      Muito bem! Não há paciência para tantas teorias supostamente inclusivas e politicamente corretas, impermeáveis à realidade e, tantas vezes, desajustadas da prática contextual.

      • iaan on 18 de Março de 2026 at 23:10
      • Responder

      Concordo plenamente.

    • Luis Miguel on 18 de Março de 2026 at 18:46
    • Responder

    O Alfredo é professor?
    Espero que não,

    • Mainada on 18 de Março de 2026 at 19:18
    • Responder

    Se bem entendo, o professor deve avaliar o aluno precisamente pelo que ele revela objetivamente em vez de se rebaixar ao nível do aluno (e de certos encarregados de educação). É isso mesmo que faço. Depois, muitas considerações à margem de uma coisa tão simples… não vale a pena.

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