Ninguém? – Paulo Guinote

O Rui Cardoso acha que ninguém quer abordar a questão da ADD. Com a devida ironia provocatória, que ele percebe com facilidade, está a olhar para o seu umbigo. Se há coisa sobre a qual escrevi foi sobre ela, anos a fio, até porque desde o descongelamento meti o nariz num número muito razoável de recursos e reclamações e tenho a papelada para o comprovar. Diz ele que se não forem os professores a tratar do assunto, outros tratarão, como se não fosse certo e garantido que será isso a acontecer, com ou sem propostas dos professores, mesmo aquelas que se esqueceram ao fim de poucos anos e não se trata só das questões das quotas e das vagas.

Ninguém?

Ainda diz ele que “todos falam mal dela, ninguém a quer, mas todos se tentam aproveitar dela”, algo que não posso desmentir por completo, porque sempre achei que havia forma de a contornar, assim as SADD (e director@s) colaborassem, sem medo de pressões externas. Assim existisse “união” e as coisas poderiam ter sido bloqueadas a partir das escolas. Mas não foram e eu até penso que sei o porquê e porque o assunto até se tornou mais relevante a dado momento. Ainda me lembro de alguém se gabar de recusar menções de mérito, quando para isso teria de acumular mais essa benesse a outras decorrentes dos cargos ocupados, como ampla redução do horário lectivo e suplemento remuneratório que há quem queira ver aumentado. Se tivesse de apontar o dedo, não seria ao Rui Cardoso, que é muito frontal nestas coisas. Claro que falo naquelas outras criaturas, que parecem herdeiras do sonsismo, que se armam em muito éticas, sem parecerem perceber exactamente do que estão a falar, convivendo bem com conflitos de interesses mal declarados.

Por exemplo… vamos, de uma vez, tornar estanques os regimes geral e especial da ADD? Como será tudo feito se os directores e outros dirigentes escolares tiverem uma carreira própria? Terão uma ADD separada, estanque, deixando subcoisos e adjuntos de se gabar de não vir “papar” as quotas aos zecos, como se isso fosse um grande feito? Posso dar exemplos do contrário e de muita trafulhada e promiscuidade nos procedimentos. Não é por acaso que até eu já reclamei, como dei conta de forma pública, aqui neste blogue, há um par de anos, com recurso a documentação demonstrativa do abuso de uma presidente de SADD que, não satisfeita em baixar-me a menção, até tentou baixar-me a classificação quantitativa. Parece que há quem ache que, perante isso, devemos todos calar-nos. Ide dar banho à minhoca.

Se é sobre a ADD que querem falar, debater, confrontar ideias… vamos a isso. Mas, nesse caso, há quem precise de comprar espelhos, antes de fazer críticas. Há quem ache que por não ir ao pombal do vizinho, fica desculpado por ir ao galinheiro. E antes de ir ao galinheiro, tinha ido ao pomar. Há quem fale de barriga muito cheia, não sabendo do exemplo daquele sapo.

Já agora, a propósito das necessidades de uma “infraestrutura” ética no mundo actual, uma leiturinha interessante, não muito longa, mas um pouco complexa, para quem tiver receio de desgastar o tempo e o intelecto.

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14 comentários

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    • Maria on 7 de Novembro de 2024 at 12:01
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    A atribuição do Muito Bom e Excelente não reflete o Mérito, antes a promiscuidade , o partidarismo, o amiguismo , o fraco relacionamento pedagógico com os alunos, a inexistência de empatia entre docente e aluno. A comunidade escolar sabe o que se passa com a ADD no seu agrupamento, sente- se impotente em resolver o assunto, resolveu trabalhar o menos possível , faltar sempre que puder. Se se publicasse a lista dos contemplados, o que não é permitido, os valores que regem a escola pública bateriam no fundo. Para lá caminhamos, a passo lento, por uma questão de sobrevivência da Escola Pública.

      • Mainada on 7 de Novembro de 2024 at 12:14
      • Responder

      A questão de fundo é que somos todos os maiores, não é? Não desmentindo a possibilidade de tudo isso, mesmo a noção de que acontece, sublinho que é próprio de quem tem inveja ver o mal em tudo.

        • Maria on 7 de Novembro de 2024 at 12:56
        • Responder

        @mainada. Não, não somos todos maiores, uns são mais do que outros. Sou a favor da avaliação docente, não deste modelo que está implementado.

          • Mainada on 7 de Novembro de 2024 at 13:40

          Ok.

      • on 8 de Novembro de 2024 at 9:46
      • Responder

      O problema não está na ADD, está no modelo de gestão. Sendo o diretor a MANDAR em tudo, “acima da lei”, e sem escrutínio eleitoral, usa a ADD como arma de manipulação e controlo total.

    • Modelos de avaliação de profs on 7 de Novembro de 2024 at 14:31
    • Responder

    Guinote , dá nos lá uns modelos de avaliação que tu és bom nisso.
    Muitos profs andam esquecidos. E outros nem são do tempo em que a sinistra nos trouxe este modelo. Só conhecem este.

    • Eu on 7 de Novembro de 2024 at 15:37
    • Responder

    Pegando no primeiro comentário da Maria, que tem toda a razão…
    A verdade é que nunca sabemos quem tem o quê na ADD.
    O mérito ? Excelentes têm de ser uma referência para os colegas, excelentes como pessoas, exemplos de ajuda e participação nas atividades, os que melhoram a qualidade do ensino ( aqui são os da formação da treta e do MAIA).
    Vou sair daqui a dois anos, mas sempre defendi que nos últimos escalões deveria ser defendido um trabalho de índole científica e ou pedagógica, mas avaliado por quem saiba.
    Nas escolas somos avaliados por diretores / coordenadores de departamento e até representantes de grupo com habilitações inferiores às dos avaliados.

      • ûlme on 7 de Novembro de 2024 at 18:29
      • Responder

      Eu acho que um trabalho teórico de índole científica e ou pedagógica iria ser maravilhoso para os alunos.
      Só que não…

      Que tal avaliar varias aulas surpresa ao longo do ano? que tal os alunos preencherem inquéritos de avaliação? Afinal não é para isso que lá estamos? Ou será teses “pedagógicas eduquesas” da treta que trazem alguma mais valia?

        • Bekas510 on 7 de Novembro de 2024 at 19:49
        • Responder

        Com avaliações de aulas surpresa concordo a 100%, seria uma maneira de separar muito trigo do joio … mas com avaliações feitas por alunos, cuidado! Eles nem sabem fazer auto avaliação!
        Uma vez dei formação a adultos; no final tiveram de preencher um inquérito sobre o formador: alguns avaliaram-me com “assiduidade suficiente”, a mim que nunca faltei! Quando questionados disseram que não sabiam o significado da palavra assiduidade ….

    • Rui MM Silva on 7 de Novembro de 2024 at 21:50
    • Responder

    Ninguém/Todos
    A Petição pela Abolição da Avaliação de Desempenho Docente (ADD) chegou às 2222 assinaturas. Faltou multiplicar por 10…

    https://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=abolir-add

    A ADD é uma utopia. É uma inutilidade. É impossível de se realizar, pois o desempenho de um professor não é mensurável.
    A “luta” pelo fim das vagas de acesso ao 5º e 7º escalões e pelo fim das quotas é fabulosa, pois seriamos todos avaliados com Excelente – o sistema iria funcionar numa tentativa de atribuição dessa classificação – e iriamos todos recuperar 1 ano de serviço em cada ciclo avaliativo.
    Toda esta “luta” parte de uma premissa errada: ADD é justa/possível. Facilmente se prova que a ADD é um logro e que ninguém consegue apresentar um modelo objetivo/imparcial, pois o nosso trabalho não se mede.
    Analisando uma pequena amostra de uma ADD:
    – 65% dos professores foram classificados com 10 na avaliação externa; especulo que muitos avaliadores atribuem essa nota por norma e para não serem importunados. A ADD é um jogo de sorte/azar;
    – não houve nenhum Excelente e só uma percentagem mínima dos docentes com observação de aulas é que obteve MB (o sistema não funcionou na tentativa de atribuição dessa classificação, mas, certamente, funcionará noutras escolas ou funcionará, mas não haverá quotas para todos);
    – a nota mínima para quota é 9,90* (mas em muitas escolas, nem um 10 chega para quota);
    *No caso dos alunos, a classificação é arredondada às unidades (Ex: um 12,4 e 12,5 podem criar diferenças de um valor), mas a nossa avaliação é à centésima! Paradoxal!
    – um avaliador interno atribui 8,4 ao item “desempenho de cargos/diretor de turma”. Como fez esta avaliação se não tem turmas em comum com o avaliado;
    – como se distinguiu a avaliação dos docentes com tempos semanais para a realizarem, por exemplo, atividades dos que não têm;
    – o que distingue um 9,5 de um 9,6, ou outra nota qualquer, em qualquer item da avaliação, se a subjetividade é colossal? O nepotismo, as amizades?
    – os avaliadores com relações de amizades com os avaliados pediram escusa?
    Devia haver um estudo para saber a percentagem e a frequência com que as menções de mérito são atribuídas aos membros das direções.
    Só pelo facto de os resultados não serem públicos, a ADD deveria criar repulsa a todos.
    Claro que o fim da ligação da ADD à progressão na carreira poderá não ser do interesse de todos, (bastava um sindicato marcar greve dos avaliadores às aulas assistidas e estes aderirem para acabar com a ADD), mas se há injustiça para quem perde tempo de serviço no acesso ao 5º e 7º escalões, também há injustiça para quem ganha tempo de serviço com a ADD.
    Em relação à ADD ser inútil, propus à equipa de distribuição de serviço docente da minha escola que fossem atribuídos aos professores com menção superior a Bom e aos professores avaliadores as turmas e as direções de turma com pior aproveitamento e comportamento. Especulo que a esses professores tenha sido atribuído o oposto!
    Alguém propôs que fosse atribuído, anualmente, um valor monetário (pequeno, senão…) aos professores avaliados com menção de mérito. Apesar de considerar a ADD uma fantasia, a proposta é mais “pacificadora”, contrária à atual que premeia esses professores para sempre. São “Muito Bons e Excelentes” uma vez e a vantagem económica dura toda a vida.
    O modelo antigo era muito melhor. Progredia-se com o tempo de serviço e formação. Progrediam os “bons” e os “maus”. Era amigável. Agora, pode progredir o “mau” e o “bom” não. É preciso extingui-la. Expôs as vaidades e nepotismos. A progressão na carreira deve estar ligada, exclusivamente, ao tempo de serviço e formação.
    Para haver justiça devia ser retirado o tempo de serviço presenteado aos professores com menções de Excelente e Muito Bom e aplicar esse tempo a todos.

      • Mainada on 7 de Novembro de 2024 at 22:17
      • Responder

      Assinei. Obrigado.

      • Manuel on 8 de Novembro de 2024 at 9:02
      • Responder

      Outra opção na avaliação dos pretendentes a M.Bom ou Excelente, seria a sujeição a uma prova pública ( nos cursos profissionais existe a PAP ) com observação da comunidade escolar.

    • MN on 8 de Novembro de 2024 at 15:24
    • Responder

    Mas os médicos tem avaliação? E os juízes têm avaliação? E os deputados têm avaliação?
    Um professor só pode chegar a professor por mérito!
    Tal como um juíz ou um médico. São profissões demasiado fulcrais para o correto funcionamento e equilíbrio de valores numa sociedade. Não têm que estar permanentemente postos em causa.
    Onde pararão o respeito e as referências, visto que nos deputados não são modelo a seguir.

    • concursos da treta on 9 de Novembro de 2024 at 17:43
    • Responder

    https://www.msn.com/pt-pt/noticias/ultimas/governo-assume-falha-no-algoritmo-que-resultou-em-erros-na-coloca%C3%A7%C3%A3o-de-professores-e-vai-contactar-docentes-um-a-um/ar-BB1qXdeH

    Onde foi publicada a lista destes professores vinculados administrativamente?
    Como podemos verificar se houve ultrapassagens?
    Existem regras ou fazem-se vontades?
    Todos os docentes têm o direito e interesse em saber se houve legalidade nas colocações administrativas em tempo útil para, havendo ilegalidade, podermos exigir que seja feita a correção da situação?

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