Já não há professores de Matemática, Português e Biologia em Lisboa
Escolas vão ter de recorrer a professores não profissionalizados já no arranque do ano letivo. O ano passado, só em outubro se esgotou a lista de docentes disponíveis. Custo de vida na capital ajuda a explicar falta de candidatos.
Cynthia Valente

Nos grupos de recrutamento 300 (Português de 3.º ciclo e secundário), 500 (Matemática de 3.º ciclo e secundário) e 520 (Biologia e Geologia) já foi colocado o último docente da lista disponível para lecionar no Quadro de Zona Pedagógica 7 (QZP Lisboa e Península de Setúbal). Ou seja, caso seja necessário substituir um professor que se aposente ou esteja de baixa médica, as escolas terão de lançar os horários nas chamadas Ofertas de Escola, onde docentes sem profissionalização podem concorrer. No Algarve, o cenário é idêntico, mas é a disciplina de Geografia que já esgotou o número de professores livres. Em vários outros grupos de recrutamento, os candidatos que se encontram quase no fim da lista também foram colocados nas primeiras colocações do ano, divulgadas na passada quarta-feira. A falta de candidatos nestas zonas do país aconteceu também no ano letivo passado, mas apenas em outubro.
“Para Matemática e Português já não há candidatos. São os grupos com maior importância no Ensino Básico e Secundário. Qualquer escola que precise de um professor dessas disciplinas já não tem. Já não existe. Só poderão recorrer aos professores de habilitação própria“, explica ao DN, Arlindo Ferreira. O diretor do Agrupamento de Escolas Cego do Maio, Póvoa de Varzim, e autor do blogue ArLindo (um dos mais lidos no setor da Educação) acredita que “os professores desistiram de se candidatar a Lisboa“, e alerta para a escassez cada vez mais notória de professores. Segundo Arlindo Ferreira, “vai ser muito difícil e quase impossível, em algumas situações, substituir professores“. “O problema começa a alargar a outras zonas. Em Lisboa já acontece, mas no restante país, a partir de outubro, será muito difícil conseguir substituições“, alerta.
O autor do blogue ArLindo explica ainda a dificuldade sentida, nos últimos anos letivos, em substituir professores com horários abaixo de 15 horas letivas e acredita ser necessário alargar a medida de completar esses horários a todo o país e não apenas em Lisboa e no Algarve, como está definido. Arlindo Ferreira confessa a dificuldade sentida pelos diretores escolares para gerir as dificuldades de substituição ao longo do ano. “Quando lançamos um horário a concurso uma, duas e três vezes e não conseguimos um professor, acabamos por ter de retirar horas de apoio aos docentes que temos nas escolas, deixando os alunos sem esses apoios essenciais para assegurar as aulas das turmas que estão sem professor”, explica. Recorde-se que, anteontem, em conferência de imprensa, o secretário de Estado da Educação, António Leite, disse terem sido necessárias 615 substituições semanais, em média, ao longo de todo o ano letivo 2022-2023.
Perante a ausência de interessados em lecionar em Lisboa, Filinto Lima, presidente da direção da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), diz haver apenas um caminho para uma possível solução: dar apoios para deslocação e alojamento aos docentes. “As pessoas não concorrem devido ao elevado custo de vida. Em Lisboa e no Algarve foram disponibilizados 29 apartamentos de rendas acessíveis, mas isso não chega. Deviam era apoiar rapidamente os professores para deslocações e estadia. Isso era motivador para que muitos docentes concorressem a zonas do país para onde ninguém quer ir. Dizemos isto há muitos anos”, afirma ao DN. O diretor da ANDAEP questiona a falta de apoios e pergunta: “Quando é que o Governo faz como outras profissões da função pública, por exemplo os médicos e juízes?”.
“Estamos a falar de falta de professores de disciplinas nucleares, mas fosse qual fosse a disciplina, é um direito do aluno ter um professor para lecionar os conteúdos”, sublinha. Filinto Lima acredita que os professores da zona Norte preferem esperar ou ter horários incompletos a ir para Lisboa, algo que mudaria se houvesse incentivos para a deslocação para zonas com maior carência de docentes. “Lisboa é uma cidade onde é incomportável arrendar um quarto, mesmo tendo um horário completo e anual, que é o que os professores mais procuram ter. Devemos apontar o dedo ao ministro das Finanças, que pode e deve investir na Educação”, conclui.
Zona Norte também sofre com carência de docentes
A disciplina de Informática já não tem professores disponíveis também na zona Norte, mas há outras disciplinas em que o número de docentes disponíveis já começa a escassear. “Na zona Norte já há menos contratados colocados, embora até final de setembro ainda devam obter colocações, mas já se começa a notar também no norte a falta de professores”, conta Arlindo Ferreira. O diretor do Agrupamento de Escolas Cego do Maio recorda o ano letivo anterior, quando já sentiu dificuldade para substituir professores.
Filinto Lima sentiu as mesmas dificuldades. “O problema estará nas substituições, pois 615 por semana é de mais. Além do elevado número de aposentações, também há os atestados cada vez mais frequentes”, alerta. Explica o registo elevado de baixas médicas, com o envelhecimento docente, mas também “com alunos mais indisciplinados e pais mais exigentes, o que levam a muitos casos de burnout [uma perturbação psicológica causada pelo stress excessivo devido a uma sobrecarga ou excesso de trabalho]. É uma profissão de grande desgaste”, sustenta.
Filinto Lima pede “sangue novo” para as escolas, apenas possível “com valorização da carreira docente”. “Não basta dizer que querem mais professores. É preciso investir nos recursos humanos”, frisa.




12 comentários
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O que é que ainda não percebemos!? O desinvestimento em saúde e educação é um desígnio dos países ocidentais! São as áreas que mais sobrecarregam a dívida! Anos e anos a acumular dívida até que os credores, bildbergs, fundos e afins disseram basta (desde a crise das dívidas soberanas!). Todos os políticos ocidentais são joguetes nas mãos destes iluminados e donos do mundo! O futuro!? Total privatização da saúde e do ensino…
O fututo?! A degradação total das condições de vida dos pobres e da classe média (que irá brevemente desaparecer).
Seremos uma maioria de pobres e uma minoria de miseráveis. Haverá uma minoria um pouco maior de muito ricos e uma ainda mais pequena de muitíssimo ricos.
A Saúde e a Educação serão apenas para estes dois últimos. O resto serão “escravos” modernos, exceto os miseráveis que serão para “abater”.
É um nojo o que se vem passado e terrível o que se irá passar.
Não se preocupem. Surgirá imensa gente sem habilitação profissional disponível. Retrocesso aos anos 80 do século passado. Haverá sempre candidatos para “dar umas aulitas”.
Nem mais.
A degradação acentua-se cada vez mais, fruto da desconsideração e desenvestimento do governo na Educação.
E é assim que um povo é destruído, até ao seu âmago.
Os políticos andam a brincar aos negócios depois quem paga são os contribuintes. Ninguém quer pagar impostos para não ter os serviços públicos. Se o valor das rendas está sempre aumentar devido especulação imobiliária, não vai ser com mais subsídios que vão resolver o problema, o dinheiro vai sempre para os mesmos.
Como Filinto Lima referiu, há falta de professores, nomeadamente para substituições devido em grande parte ao fenómeno do “Burnout” que atinge os professores por motivo da indisciplina.
Ora, se o governo ou o M E. e até os sindicatos fossem mais inteligentes (basta serem espertos), criavam ou viabilizavam estratégias para dimibuir a indisciplina nas escolas. Basta criarem grupos de trabalho em cada escola em articulação com a Direcção para diminuir o fenómeno assim como estão a fazer com a burocracia; dando mais autonomia às escolas para resolver essa questão e poderem adaptar o estatuto do aluno consoante a população escolar e problemas específicos de cada escola. Deste modo não haveria tanta falta de professores porque os titulares dos horários não entrariam em burnout pelo menos por causa dos alunos indisciplinados, confrontadores, mal educados e até pré-delinquentes. Tenho dito.
O “sangue novo” pedido pelo Arlindo é, na verdade, sangue estragado e podre. O Arlindo gosta de se fazer de Cego, por vezes, uma cegueira mental auto imposta que se está a marimbar, há muito, para a qualidade e rigor do ensino português, em prol da quantidade….. Mas nada de extraordinário quando o sangue “velho” (onde eu já me posso incluir, em parte!) está igualmente conspurcado pela falta COMPLETA de rigor, exigência, bagagem cultural. Por isso, sendo parte do “velho sangue”, mas longe de conspurcado, abandono, graças a todos os deuses, a profissão já neste mês de Setembro. Vida nova! O “sangue novo” do Arlindo é das últimas estocadas para acabar se vez com a escola pública.
Se, esse “sangue novo”, fosse um nata de alunos brilhantes que teriam ido para os cursos educacionais, teria alguma esperança. Mas se o Arlindo não sabe quem são os que foram para a FLUP, escola superiores de educação (esse cancro!) nas últimas duas décadas, deve andar a dormir…..
O mundo é redondo e volta sempre ao mesmo sítio… como há 30 anos atrás! – É o ensino socializante que temos!
Já reparam como os hospitais privados têm degradado as suas condições nos últimos anos? Casas de banho a cheirar mal, lixo, exames totalmente pagos mas parcialmente entregues ao doente (entregam relatórios de 3 linhas, mal escritos e até com erros, não entregam as imagens nem CDs, excepto se o doente pagar o dito, que já foi pago), fuga de bons médicos, pessoal infeliz e exausto…É a fome do lucro!
Sou profissionalizada num grupo e tenho habilitação própria noutro grupo e não vou concorrer a estes horários porque fico prejudicada no meu tempo de serviço pois se lecionar Biologia como habilitação própria o meu tempo de serviço conta antes da profissionalização logo fico prejudicada, então prefiro não concorrer e esperar uma OE no meu grupo de profissionalização mesmo um horário incompleto. Incompreensível os que defendem a distinção de tempo de serviço.