Estamos a tornar a escola numa fábrica de acéfalos digitais – Alberto Veronesi

 

Na última década, mas sobretudo no período pós-pandemia, temos testemunhado um rápido avanço da tecnologia digital, com dispositivos eletrónicos cada vez mais presentes nas nossas vidas e sobretudo em idades cada vez mais precoces. Na pandemia, todas as crianças foram “obrigadas” a usar os meios digitais para continuarem a manter contacto com os seus professores e colegas. O ensino a distância foi um “desenrasque”, numa situação muito específica, numa situação de emergência mundial, executado sem grandes reflexões sobre os seus efeitos. Aceita-se, devido ao momento. Mas, com esta situação, é urgente que surja um debate alargado acerca dos riscos e benefícios da exposição das crianças ao mundo digital. Não podemos continuar a ser coniventes com a tendência do Governo para, por questões meramente economicistas, querer tornar a escola numa grande fábrica de acéfalos digitais. Aquela que deve ser a preocupação dos professores é a de não ceder a essa tentação.

Estamos a tornar a escola numa fábrica de acéfalos digitais – Alberto Veronesi

Há perigos reais na exposição digital. Essa excessiva exposição ao digital pode levar a uma dependência e mesmo ao vício em dispositivos eletrónicos. O uso indiscriminado de smartphonestablets e computadores pode prejudicar o desenvolvimento saudável das crianças, interferindo no seu sono, socialização, atividades físicas e até mesmo na capacidade de concentração.

Num estudo da Universidade de Calgary (2019) descobriram que o uso excessivo de ecrã nas crianças pequenas estava associado a um menor desenvolvimento da linguagem expressiva. Outro da Universidade de Toronto (2018) sugeriu que o uso excessivo de dispositivos eletrónicos em crianças em idade pré-escolar estava associado a atrasos no desenvolvimento da fala e da linguagem.

Outro ainda, no mesmo diapasão, da Universidade de San Diego (2019), afirma que as crianças entre 3 e 5 anos, que passavam mais tempo em contacto com o digital tinham um desenvolvimento menos satisfatório em habilidades cognitivas e linguísticas em comparação com aquelas que tinham menos exposição.

Na mesma linha de investigação, um outro, da Universidade de Ottawa (2017), concluía que as crianças de 2 a 5 anos que usavam dispositivos eletrónicos por mais tempo apresentavam atrasos na linguagem recetiva (compreender o meio e o outro através do que ouve ou do que lê).

Todos eles sugerem que o uso excessivo de dispositivos digitais em idades precoces pode interferir no desenvolvimento cerebral normal, especialmente nas áreas relacionadas à atenção, memória e controlo impulsivo.

Na aprendizagem e linguagem, também é sabido que pode ter um impacto negativo no seu desenvolvimento, assim como nas habilidades de comunicação das crianças. Dizem os estudos que a interação cara a cara com os adultos e a exposição a uma variedade de estímulos do ambiente real são fundamentais para o desenvolvimento adequado da linguagem.

A concentração da atenção também pode ser prejudicada, pois os estímulos digitais intensos e imediatos acabam por prejudicar a capacidade de as crianças se envolverem em atividades que exijam uma maior atenção sustentada.

Um ecrã que emite uma luz própria com diversas cores e intensidade pode interferir na qualidade e na quantidade de sono das crianças. E como é do conhecimento comum, a privação do sono está associada a uma série de problemas de saúde física e mental, incluindo dificuldades de aprendizagem e falta de concentração.

Para além destes perigos, há ainda aquele que, quanto a mim, é o mais preocupante. A degradação das habilidades sociais e emocionais. O uso excessivo de dispositivos digitais pode limitar as interações sociais face a face, essenciais para o desenvolvimento das habilidades sociais e emocionais das crianças. Basta entrarmos num qualquer recreio de uma qualquer escola pública de Portugal para vermos uma quantidade assustadora de jovens sentados por qualquer canto, agarrados ao telemóvel. Não interagem, não correm, não conversam, apenas “bebem” aquilo que todas as redes sociais e seus influencers lá colocam, sem a mínima capacidade crítica, em busca da graçola fácil, do desafio imediato… não gosta, arrasta o dedo e passa ao próximo.

Sem dúvidas que a capacidade de interpretar emoções, criar empatia e interagir adequadamente com os outros pode ser comprometida quando as crianças adotam estes comportamentos de exposição excessiva ao digital, que as isolam dos demais.

Mas afinal quais são os argumentos daqueles que defendem a introdução precoce da tecnologia digital?

Dizem que, como vivemos numa era digital, em que o conhecimento e o domínio das tecnologias são essenciais, devemos introduzir os meios digitais precocemente para permitir que as crianças adquiram habilidades necessárias para o seu futuro profissional e participação na sociedade. Ainda há dias o Ministro da Educação, João Costa, disse que “Se deixarmos o digital de fora, só os ricos terão acesso ao digital no futuro” . Terá ignorado todos os perigos identificados em estudos internacionais?

Outro dos argumentos muito utilizado pelos acérrimos defensores do digital é o de que a tecnologia oferece recursos educativos interativos e personalizados adaptados às necessidades individuais das crianças. Não sendo mentira, se o fizermos em excesso esbarramos na evidência de que prejudica mais do que beneficia. O digital pode ter um uso complementar, mas nunca substitutivo como pretende a tutela, com a intenção da adoção de livros digitais em todos os ciclos.

Um uso equilibrado em sala de aula entre os dois métodos de ensino, em meio controlado pelos professores, pode ajudar a enriquecer o processo, pois a internet disponibiliza um vasto acervo de informações e recursos educativos que não se pode ignorar, mas que não substitui o uso de manuais, cadernos e livros.

Se os decisores políticos estivessem realmente interessados no desenvolvimento da educação do país dariam um passo atrás relativamente à introdução desenfreada do digital e dos ecrãs na escola, tal como fez a Suécia (Too fast, too soon? Sweden backs away from screens in schools) bem recentemente.

Nós, professores, devemos fazer o contraditório deste deslumbramento globalizado pelo digital. Não é ser contra o progresso. É ser contra o retrocesso, como se pode constatar ao ler um dos estudos mais incisivos sobre esse retrocesso intelectual, realizado por investigadores da Noruega, que analisaram 730 000 testes de Q.I. aplicados em jovens convocados para o serviço militar obrigatório nos últimos quarenta anos. As conclusões são reveladoras: os aumentos anuais do Q.I. dos noruegueses passaram de 2 pontos nos anos 80, para 1,3 ponto nos anos 90 e tiveram um recuo de 0,2 ponto neste século.

Processo semelhante foi detetado no Reino Unido e na Dinamarca. Pesquisas como essas reforçam o alerta dos especialistas para as mudanças no estilo de vida que, segundo eles, estão por trás deste retrocesso — aí incluída, em lugar de destaque, a imersão constante e indiscriminada nos eletrónicos. A informação está disponível. É aceder a ela, ler, apreender e decidir em concordância com aquilo que melhor pode ajudar a escola cumprir o seu propósito: ensinar através da transmissão de conhecimento. É isso que fazem os colégios de topo em Portugal e as escolas de países como a Suécia.

P.S. Nem de propósito, no passado dia 26 de julho, a TSF noticiou que o TheGuardian fazia eco do mais recente relatório da UNESCO, Global educationmonitoringreport, 2023: technologyineducation: a toolonwhoseterms? que pede que telemóveis sejam banidos nas escolas.

Observador

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9 comentários

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    • Antero on 7 de Agosto de 2023 at 12:00
    • Responder

    “Estamos a tornar a escola numa fábrica de acéfalos”

    Porquê?

    Porque votaram no costa galambeiro, já antes tinham tecido louvores ao socras.

  1. Li atentamente o relatório da UNESCO. Em momento algum do texto a organização pede para que se banam os telemóveis. É preciso ler atentamente os documentos antes de se escrever publicamente sobre eles. A comunicação social portuguesa propagou um título em que anunciava esse desiderato da UNESCO. Mas também os jornalistas não estiverem bem.

      • QueroMudança on 7 de Agosto de 2023 at 13:46
      • Responder

      O estudo não diz para banir os telemóveis ou os computadores, mas faz várias referências ao uso das tecnologias digitais na
      escola. Inevitavelmente estaremos sobretudo a falar de pcs e smartphones.

      P.65
      -Technology use beyond a moderate threshold was associated with diminishing academic gains in an analysis of
      2018 Programme for International Student Assessment data.
      -A meta-analysis of research in 2008–17 across 14 countries found a negative effect of mobile phones on
      academic performance

      p.82
      Apart from immediate disruptions to teaching and learning, the use of technology is associated with
      negative impacts on physical and mental well-being and increased susceptibility to online risks and harms, which
      affect academic performance in the long term. Education systems have adopted various approaches, ranging from
      restricting use of devices to banning them completely

      O capítulo 8 também tem lá bastante informação útil sobre esta temática e aquilo que os Estados estão e não estão a fazer.

      https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000385723

        • Luís Miguel da Silva Lopes Cravo on 7 de Agosto de 2023 at 13:53
        • Responder

        O Ricardo Cruz é dos vive de orgasmos virtuais. Temos de ser compreensivos com esta gente. São viciados e perderam a humanidade.
        Não quer isto dizer, de todo, que sejamos obrigados a conviver com eles! Esperemos que o Ricardito saiba ler Inglês.

        • Verdades on 7 de Agosto de 2023 at 21:31
        • Responder

        Temos de diferenciar o que é trabalho com as tecnologias e o que é diversão / lúdico / distração com tecnologias. Nestes últimos casos cabem o uso das redes sociais, que são, como é bem sabido, o grande “entretenimento” dos alunos nos interválos, aulas (em tom mais ou menos escondido/disfarçado), almoço, caminho de e para casa e noites.
        O problema é o excesso de utilização das redes sociais e de jogos de entretenimento.
        Não se compare isto com a aprendizagem usando o apoio das tecnologias, ou a aprendizagem do uso e produção com as tecnologias.
        São situação absolutamente diferentes.
        O problema como os estudos indicam, e várias entidades (curiosamente até o Papa), é o uso excessivo, descontrolado e viciante das redes sociais e de jogos virtuais, que minam o desenvolvimento e aprofundamento humano.

    • Zabka on 7 de Agosto de 2023 at 15:38
    • Responder

    Tudo bem, mas um membro da seita neo-liberal SEDES que escreve no Beobachter devia era estar caladinho, pois só engana otários que não sabem o que essas merdas querem para a sociedade portuguesa.

    • professora on 7 de Agosto de 2023 at 19:00
    • Responder

    Os velhos do Restelo de vez em quando lembram se de escrever no blog.E com nome na praça da luta.
    Talvez queiram voltar a escrever em tabuinhas de cera, papiro,pergaminho e com pena de pato. Muito vintage!
    Mesmo uma simples esferográfica deve ser um artefacto muito pernicioso pois entorta a letra, dizem os velhos do Restelo.
    Teclados, ratos, impressoras,nem vê los!
    Talvez voltarmos às canetas de tinta permanente e aparo?Que tal? Orgânico?
    Tudo tem o seu tempo e o seu lugar com peso e medida.
    Os pais que estejam atentos. Façam formação.
    E as escolas também para a moderação.
    Haja Deus! Não há paciência para estes textos!

      • QueroMudança on 7 de Agosto de 2023 at 19:07
      • Responder

      P. 21 do relatório
      “Not all change constitutes progress. Just because something can be done does not mean it should be done.”

    • Jennifer Camp on 21 de Fevereiro de 2025 at 7:29
    • Responder

    Great post! Health is all about balance, and that’s exactly what Balancemedspa offers. Their treatments are perfect for anyone looking to improve their well-being and feel their best!

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