DIGITAL TÓXICO E PENSAMENTO ÚNICO
EduEscola Et Al.
“A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu, mas pensar o que ninguém ainda pensou sobre aquilo que todo o mundo vê.
(Arthur Schopenhauer)
“Descobrir consiste em olhar para o que todo o mundo está vendo e pensar uma coisa diferente”.
(Roger Von Oech)
“Para nós os grandes homens não são aqueles que resolveram os problemas, mas aqueles que os descobriram”.
(Albert Schweitzer)
“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.
(Carl Jung)
“Qualquer nova tecnologia gradualmente cria um novo ambiente para o ser humano”.
(Marshall McLuhan)
“As coisas não são tão tangíveis e dizíveis como nos queriam fazer crer”. (Rilke)
“O ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflecte”.
(Aristóteles)
“(…) A resposta certa não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas (…)”.
(Mário Quintana)
“Quanto mais aumenta o nosso conhecimento, mais evidente fica a nossa ignorância”.
(John F. Kennedy)
“A ciência consiste em substituir o saber que parecia seguro por uma teoria, ou seja, por algo problemático”.
(José Ortega y Gasset)
Neste texto-reflexão, fazemos uma abordagem e estudo sobre os perigos da Inteligência Artificial (IA), do digital na escola e de alterações curriculares, cujo objectivo por parte do poder político, é nossa firme convicção, visa a solução final do doutrinamento da mente e pensamento das pessoas, tornando-as amorfas, acríticas, conformadas, de cidadania passiva, em detrimento do exercício de uma cidadania crítica, interventiva, reivindicativa e activa.
Falamos de um futuro de proximidade e em aproximação, em que a instituição escola prepara as futuras gerações com uma formatação mais fria, distanciada, robotizada, obediente, de “pensamento único”; com prejuízo, perda e alienação do humano, da diferença, da pluralidade, do contraditório, por/em oposição à singularidade e unicidade “pensante”.
Em síntese, a IA e o digital na escola, sem regulamentação, são o “cancro e toxicidade” da solução final e doutrinamento para o pensamento único.
Impõe-se a pergunta: “A humanidade corre o risco de uma uniformização e padronização de pensamento, atitudes, valores e comportamentos, sendo a escola a solução final para o doutrinamento das massas, da perda da crítica do «hominem humanus» e da essência humana, através da catequese digital e da IA?”.
A questão é problemática, polémica, sabemo-lo; a “provocação” é propositada, pretende lançar o debate, esmiuçar argumentos e esgrimir o contraditório, em contra-corrente do/contra o deslumbramento fundamentalista da Inteligência Artificial (IA) e do digital na escola, panaceia, elixir e mezinha que tudo resolve no ensino e aprendizagem; mas segundo nós, de acordo com a nossa tese, representa a simplificação da “burrificação”, no sentido da acefalia colectiva massificada e institucionalizada.
É papel da escola exponenciar as capacidades individuais únicas, a crítica e o desenvolvimento harmonioso de cada pessoa humana, das capacidades, das habilidades comportamentais e competências subjectivas, “skills”. Valorizar a diferença, o caminho e a formação de cada Ser em meio escolar situado, e não o seu contrário e formatação standard.
Depois de há tempos atrás termos contribuído para o debate e problemática dos perigos do digital excessivo e sem ponto de equilíbrio q.b., o qual deveria ser apenas e só mais uma opção e ferramenta de trabalho na escola, e do deslumbramento da Inteligência Artificial (IA) na educação, nomeadamente do ChatGPT, propomo-nos agora avançar para o nível seguinte, o real perigo que as novas tecnologias encerram, transportam e transmitem, até pela sua atractividade holística, recreativa, lúdica, enganadora, que tem e resulta na solução final do enchimento e “doutrinamento” do pensamento humano único, de aceitação acéfala e de desumanização.
Querer incutir nas nossas crianças, jovens, estudantes e cidadãos, a ideia da “Felicidade” permanente, é negar e estado de negação do “mundus” real e da “natura humana”. O incómodo do inconformismo, do questionamento, do contraditório e do divergente, por oposição ao convergente, é a salutar crítica humana natural, emergente, insubmissa, inconformada, perene e permanente.
Carlos Calixto
Este artigo de opinião não é o resultado de tecnofobia nem da diabolização das novas tecnologias de ponta. Resulta de leituras, análise e reflexão profunda do perigo e alheamento da realidade e acriticismo, de uma postura sem avaliação, sem exame, sem investigação, sem juízo aturado ou auto e hétero-crítica a respeito dos factos sob análise, sem base em juízo de valor e senso crítico, a que estamos sujeitos e bombardeados diariamente. O facto dimensiador da acefalia pessoal e colectiva, tem no algoritmo matemático da ciência da computação, a mais valia que vai anestesiando o córtex cerebral e o processamento neuronal mais sofisticado e distinto, burrificando, estupidificando, idiotizando e embrutecendo as pessoas, ao seleccionar a informação em função daquilo a que cada pessoa em concreto mais reage, levando a uma visão reducionista da realidade e afunilando a visão que têm do mundo, da vida e dos factos. Diminuindo a nossa atenção, pensamento e reflexão, com as aplicações a serem cada vez mais invasivas dos nossos cérebros. Temos o automatismo tecnológico a substituir e a banir o esforço humano natural do pensamento, de pensarmos, de questionar e criticar.
Desde tenra idade – educar dá trabalho – que as crianças interagem com tablets, smartphones, computadores, consolas, jogos online, digital fartante, sendo todo o tempo somado que passam em frente aos ecrãs, uma “eternidade criminosa”, com perda de aptidões, saúde afectada, nomeadamente sedentarismo e obesidade, quadro degenerativo generalizado, perda de qualidade de vida e diminuição da esperança média de vida, comportamentos mais agressivos, depressivos, ansiedade e inércia intelectual; com reflexos negativos na capacidade de concentração, memorização e linguagem, por falta de treinamento intelectual e estímulo cerebral funcional-neuronal das sinapses.
Está na altura de cortar e abrandar radicalmente o “dedar”. Este é o momento de voltar ao papel, ao livro clássico, às bibliotecas intemporais com volumes materializados e à cultura. Este, de todo, é o momento de lançar um alerta lancinante à humanidade para o perigo que a juventude atravessa com a ditadura do digital e da IA, de dizer não à desmaterialização da escola e, nos recreios, deixar os ecrãs, voltar à interacção e à socialização das crianças e jovens e voltar a jogar ao peão nas ruas e nas escolas.
Na europa ocidental – com base em estudo significativo de amostras relevantes – a pertinência e relevância do problema dá aflição e inquietude: “Aos 2 anos, as crianças consagram todos os dias quase três horas a ecrãs. Entre os 8 e os 12 anos, esse tempo aumenta para cerca de quatro horas e quarenta e cinco minutos. Entre os 13 e os 18 anos, a exposição é em média de seis horas e quarenta e cinco minutos diários. Em termos anuais, são cerca de mil horas para um aluno do 1º ciclo do ensino básico (quase o mesmo número de horas de um ano escolar) e 1700 horas para um aluno do 2º ciclo. Já para um aluno do 3º ciclo e do ensino secundário, falamos de 2400 horas anuais, o equivalente a um ano e meio de trabalho a tempo inteiro”.
(A Fábrica de Cretinos Digitais, Michel Desmurget, 2021)
Neste ensaio brilhante, o autor mostra à saciedade a “hecatombe” humana em curso e em colapso eminente, com referência ao grave problema e sacrifício da visão, que já foquei aturadamente e enfatizei em anterior artigo de opinião sobre a escola digital e dos seus malefícios para a saúde ocular, e no seu todo físico e mental.
Por culpa dos novos hábitos digitais e da interacção crescente com chats de IA, temos o dedo deslizante e os olhos focados, colados nos ecrãs, enquanto o cérebro hiberna. “Os nativos (inatos) digitais (…) são os primeiros filhos a terem um QI – quociente de inteligência com pontuação obtida por meio de testes a fim de avaliar o nível de inteligência humana de um indivíduo, num determinado momento e em relação ao padrão comum à sua faixa etária – inferior ao dos pais e (…) após milhares de anos de evolução, o ser humano está agora a regredir em termos cognitivos e de capacidades intelectuais (…)”. (idem)
Sendo que a cognição cobre os domínios da memória, atenção, percepção, representação de conhecimento, raciocínio, criatividade e resolução de problemas. Por definição, é a capacidade humana para armazenar, transformar e aplicar o conhecimento, consubstanciando um amplo e alargado leque de processos mentais únicos da evolução e inerentes em exclusivo ao “homo sapiens sapiens”. Em sinopse, é a capacidade de um ser humano pensar, compreender e raciocinar.
Em ambiente escolar, a decisão de escolha entre o humano e o digital, deve imperar sempre o primordial princípio do primórdio do humano sobre a máquina e a tecnologia. O critério deve ser sempre o do digital ser acessório e complementar do humano, e nunca a alternativa, opção e substituição do professor. É incontornável o papel único de professores e educadores para o processo de socialização, do “humanum” e da emocionalidade, fruto das interacções entre professores e alunos. A empatia e a interacção na escola têm o ADN humano codificado no genoma.
É a própria Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) que alerta para o impactante perigo das aprendizagens escolares no digital que, aliás, trazem mais perigos que benefícios. Apelando mesmo ao facto da necessidade de banir o uso de telemóveis nas escolas. Com o objectivo de combater a desatenção e dependência dos alunos nas aulas, melhorar a aprendizagem e proteger as crianças do cyberbulling. Mas a Unesco vai mais longe e num relatório citado pelo jornal “The Guardian”, a organização afirma que há provas de que o uso excessivo dos telemóveis degrada e piora o desempenho escolar e afecta a estabilidade emocional dos alunos.
A Unesco é brutal, ao defender que “nem todas as mudanças são sinónimo de progresso – e deixa o alerta de que – o impacto positivo de aprender no digital pode ter sido exagerado”.
Mais, põe em causa a pseudo-evidência do valor acrescentado da tecnologia digital para o ensino e aprendizagem, e vai mais longe ao afirmar que a maioria dos estudos que apontam no sentido da mais valia do digital na sala de aula são financiados por empresas privadas de educação, para venda e marketing de produtos, aplicações e ferramentas digitais; “gera preocupação”.
Mais ainda, a Organização das Nações unidas para a Educação – Unesco – põe a tónica e insiste na premissa que é princípio, de que a tecnologia deve estar “ao serviço de uma educação centrada no ser humano – e que – não pode substituir as interacções cara a cara entre alunos e professores”.
Audrey Azoulay, directora-geral da Unesco, apela aos governantes que não negligenciem a dimensão social da educação e fala de regulação do digital “para o bem das crianças”.
Ainda mais, a Unesco analisou 200 sistemas de educação em todo o mundo e concluiu por estima e cálculo que um em cada seis países já está a banir os telemóveis nas escolas – é o caso de França e dos Países Baixos (Holanda, Bélgica e Luxemburgo). O que dá cerca de 16% do universo estudado.
(https://www.tsf.pt, Unesco pede que telemóveis sejam banidos nas escolas, Rita Carvalho Pereira, 26 julho, 2023, 07:54)
Também em anterior artigo de opinião, já alertamos para o caso sueco, que depois de uma experiência falhada, desde a década de 1990, está de volta, no presente-futuro, ao regresso ao passado, voltando a Suécia, na educação, a valorizar o papel em detrimento do digital.
“Entre os mais ricos do mundo, país vinha, desde a década de 1990, adoptando uma estratégia massiva de informatizar os materiais didácticos e as aulas. Resultados em provas de leitura e conselhos de órgãos de saúde fizeram novo governo mudar a postura. A Suécia, único país que, desde a década de 1990, buscou implementar a educação 100% digital nas escolas, voltou atrás e decidiu investir, ao longo de 2023, 45 milhões de €uros na distribuição de livros didácticos impressos”.
(https://g1.globo.com, Por que a Suécia desistiu da educação 100% digital e gastará milhões de euros para voltar aos livros impressos, Luiza Tenente, 07/08/2023, 08:34)
Na sua demanda irresponsável pelo “a fartar de digital”, o poder político deve, com a máxima urgência, parar, pensar, ponderar e decidir, escolher e implementar políticas educativas equilibradas, harmoniosas, no todo compensado, equiponderado, sem tendência de facção, deslumbramento, seguidismo internacional e fundamentalismo político-ideológico. Lavrar no erro é estúpida, ignara, ínscia e iliterata condição. A mudança-ruptura necessária é inteligência, intelectualidade e entendimento lógico-racional da escola “paedagogia ars educandi” humanista-humanizante e crítica (do latim critica e do grego kpitikós).
“À luz das evidências que se vêm acumulando, devemos mesmo questionar a decisão de entregar aos alunos milhões de equipamentos e acessos à internet, sem qualquer enquadramento ou orientação, sem um plano, sem a preparação das escolas, dos docentes e das equipas escolares. É que quando as tecnologias digitais entram na sala de aula e nas vidas escolares dos alunos, deve ser claro para todos porquê, o que lá estão a fazer e como se relacionam com o contexto educativo mais amplo”.
(https://www.dn.pt/opiniao, Educação e tecnologias digitais, Pedro Patacho, 07 agosto, 2023, 00:39)
Compendiando, recapitulando, temos uma megalómana macromaníaca ofensiva do Governo/ME/tutela nas escolas, a implementar o digital sem critério, sem feedback, sem nexo, e sem concatenação, “chovendo computadores, com problemas de conectividade e voando alegados 400 milhões de €uros derrapantes”, numa babilónia de (des)governança confrangedora. As empresas de tecnologia informática querem vender e o (des)governo “quer negociar”.
“Quarenta e duas plataformas digitais, eis o que os professores têm de dominar para, nos diferentes estabelecimentos de ensino, serem considerados «professores de excelência». Sumários electrónicos, portarias, horários, reuniões com colegas e com direcções, com pais e com alunos, tudo passa pelo ecrã. Temos o GIAE, o SIGAE / IGA; ele há o site da DGE, o Extranet e o IAVE; ele é o MEGA (manuais escolares) e o Portal dos recursos humanos; temos o DGEST/Recorra e o DocGest; não faltam o SIIESTE (edifícios escolares) e o SISE (Segurança Social); e para assuntos relacionados com o acompanhamento psicológico dos alunos, vamos aos psicólogos POCH, e para matricular os estudantes vamos ao Portal das Matrículas; para compras públicas o VORTAL e, se ainda se lembram de bibliotecas, temos o SIRBE (…) Enfim, a lista é longa, o tempo para ensinar, de facto, é pouco”.
(https://www.dn.pt, Diário de Notícias, O digital no ensino: uma fábrica de cretinos, António Carlos Cortez, 16 abril, 2023, 00:21)
A parafernália e tralharia digital é mais que muita; é sufocante. O cenário é absurdo e insano. “Num país como o nosso onde quem governa só segue modas e obedece a obscuras razões de interesse nacional para, como é o caso do digital na Educação, obrigar alunos, professores e pais a serem os técnicos de informática que nunca escolheram ser; num país assim, convém jogar forte e chamar os bois pelos nomes: a ditadura digital existe e a reboque dela estamos a perder gerações inteiras de estudantes e de docentes que seriam melhores estudantes e melhores docentes se tivessem tempo para fazer do livro o meio essencial das aprendizagens. Queixamo-nos de ler pouco em Portugal”. (idem)
O digital e a IA não são a solução na Educação, no Ensino, nas Escolas e no Sistema Educativo. A solução passa pelo regresso aos livros, à cultura e por ter tempo para fruir a leitura, a reflexão, o pensamento e a intelectualidade do professor. Escreveu Rousseau: “A questão no ensino não é ganhar tempo, mas perdê-lo”.
Acontece, porém, que o desvario ainda agora está a começar. O digital será cada vez mais uma ferramenta interactiva IA anti pensamento humano. O ChatGPT da OpenAI – Microsoft – começa a dar sinais de “obsoleto”, apesar de já ter versão melhorada. Já nos bate à porta, o chatbot do ecossistema da Google, o Bard, que acede a dados em tempo real, já envia mensagens, faz upload e print e alegadamente tem códigos de programação ainda mais humanizados e só pode ser utilizado por maiores de idade, e que promete ser ainda mais completo que o GPT. E vai em crescendo o frenesim e leilão futurista-despesista do eduquês-digitalês-IAês.
(https://brazilgreece.com/bard, Afinal, BARD é melhor que o ChatGPT, Agência Texty, 04 agosto, 2023)
Acumulam-se as evidências e os alertas sobre os malefícios comprovados do digital e da IA nas pessoas, sociedade, escolas, mundo. Há o risco de termos aberto uma “Caixa de Pandora”, que só agora começa a mostrar os seus reais perigos e que urge controlar. Já não estamos em 1984, com a ficção cinematográfica virtual de James Cameron e do “Exterminador do Futuro”, nos primórdios da Inteligência Artificial. Estamos em 2023, a viver dentro da realidade concreta do digital e da IA. Com aplicação e implementação em força nas escolas. Porquê? Porque sim! (…) Directiva europeia / UE?! (…)
“Raymond Kurzweil, cientista da Google e inventor de renome, sugeriu que, dado o ritmo a que a IA progredia, rapidamente atingiria um ponto, que previu para 2045, onde, pela progressão logarítmica, os humanos deixariam de ter a capacidade de a acompanhar e entender. Outros como Nick Bostrom veem nos avanços tecnológicos e rápida progressão das capacidades da IA um risco para a humanidade e civilização, um mundo apocalíptico pós-humano. Estes arautos da desgraça não estão isolados, e outros rapidamente se assumiram como profetas. Celebridades como Elon Musk e Stephen Hawking foram, pela pregnância da sua voz na sociedade, dos que mais contribuíram para os editais de alerta contra os riscos apocalípticos da IA”.
(https://observador.pt, Observador, ChatGPT. As máquinas não têm “amígdala”, parte II, José Torres da Costa, 09 agosto, 2023, 00:11)
Contextualizada a temática do nosso estudo, avançamos agora, ainda mais justificadamente, para a razão de ser do título e subtítulo do texto deste artigo de opinião.
Falemos agora do “THE OECD’S EDUCATION 2030 PROJECT: a learning compass”. É, o busílis da questão está aqui. O Portugal seguidista e bom aluno vai atrás. Não questiona nem pestaneja. Aplica cegamente. Em resumo, “O Projecto Educação 2030 da OCDE: uma bússola para a aprendizagem”, é cabal na resposta e deixa bem claro a razão de ser das actuais vivências e evidências escolares de um mar digital encapelado.
A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), com sede em Paris, França, é uma organização internacional composta por 38 países membros, que reúne as economias mais avançadas do mundo, bem como alguns países emergentes, casos da Coreia do Sul, da Turquia, do Chile e do México. Sendo que vários países da União Europeia (UE) fazem parte da OCDE.
De volta ao projecto “Education 2030: The future of Education and Skills”, acerca das habilidades, capacidades e competências, é um projecto-programa instituído pela OCDE em 2015. É proponente de uma matriz conceitual de aprendizagem e da criação e condução de um currículo internacional formado a partir de uma bússola de aprendizagem.
“Tal concepção entrelaça novas competências (conhecimentos, habilidades, atitudes e valores) a serem inseridas nos currículos escolares dos países. Aponta as formas de actuação da OCDE na área educacional, os elementos visíveis e invisíveis do projecto e como a Educação Básica se torna um nicho estratégico de exploração económica e tecnológica. Ofusca-se, assim, o princípio da educação como um direito social e subjectivo, deslocando-se e favorecendo-se a sua oferta como um serviço público consoante as regras de mercado livre”.
(https://www.researchgate.net, Revista Exitus, O projecto educação 2030 da OCDE: uma bússola para a aprendizagem, Maria Abdia da Silva, Edison Flávio Fernandes, dezembro, 2019)
É daqui, do “Projecto Educação 2030”, a partir do diagnóstico comum, que se almeja construir um plano curricular internacional, definidor de princípios, descritores, elementos e habilidades trabalhadas nas avaliações externas, competências e conteúdos curriculares, adoptados pelos respectivos estados e governos nacionais, com elementos comparativos e mensuráveis de desempenho, e que perdurem no tempo nos diferentes países. (idem)
São mapeadas tendências contextualizadas dos vários países e demandas emergentes, nomeadamente a competência global do digital e da digitalização na escola, com reflexos nas políticas educativas adoptadas. Os resultados são importantes para o “benchmarking” – análise estratégica comparativa das melhores práticas para um desempenho superior – que em linguagem da União Europeia (UE) significa um processo contínuo e sistemático que permite a comparação das performances das organizações e respectivas funções ou processos do que é considerado o melhor nível, visando a equiparação e superação dos níveis de desempenho, associada à ideia de proeza significativa. (idem)
É Portugal um Rolls Royce na Educação? Em concreto, factualmente, o que fizemos assim de tão extraordinário na Educação? São rasgados os elogios da representante da Unesco Amapola Alama. Analisemos a factualidade dos factos:
– Portugal está entre os primeiros 40 classificados no ranking dos sistemas educativos. Sendo que os elogios não vão para alunos, professores e escolas, mas sim, vão para os gurus iluminados e especialistas (“retalhistas do marketing-mix da organização escolar”) curriculares do Ministério da Educação (ME), segundo a especialista Alama.
– Somos “maximus” alinhadinhos com a nova ordem educativa europeia. Onde o pensamento crítico deu lugar à “Autonomia e Flexibilidade Curricular”, com um “curriculum” de poucochinhas competências, onde nada é o que parece. De pensamento único, do digital, sem espaço e campo para a crítica e para o contraditório, o questionamento, a inquietação, o raciocínio, inteligência e cabeça.
– Há mesmo a exortação à domesticação (e amestramento) dos professores “desalinhados” com o “sistema digital burrificado de acefalia única dos illuminati”, que alguns afirmam controlar o mundo hoje.
“Vocês são o «Rolls Royce» dos sistemas de educação. Estão entre os 40 países de topo no mundo da educação”, disse Alama, a uma plateia de insignes directores de agrupamentos escolares e centros de formação e representantes oficiais da tutela.
Amapola Alama vincou a importância do currículo e defendeu que “o currículo é a força motriz de um sistema educativo e dá forma à visão que um país tem para a sua educação – ao estabelecer metas ao nível político e técnico, com – o quê, o como e o para quem”; abrangendo os manuais escolares, infraestruturas físicas e modelos de gestão.
– A perita e entendedora Alama, mais disse que o “Bureau (agência)Internacional da Educação está actualmente presente e a ajudar 48 países nas suas reformas políticas relativas à educação – mas queixa-se contudo de um problema comum que é – a incoerência entre o currículo implementado e aquele a que efectivamente se acede – e que acontece – quando a instituição de ensino não alinha os seus professores com o que o currículo determina e, apesar de ter mudado para um modelo baseado em competências, os docentes continuam só a avaliar os alunos pelo que aprendem de cor”. Seja lá isso o que for, digo eu.
(https://escolapt.wordpress.com, Pensamento único, Portugal, um Rolls Royce na Educação, António Duarte, 25/05/2022)
A escola deve ser tolerante e um viveiro plural de ideias, práticas, métodos, pedagogia(s), ter resultados autênticos e “não fabricados”, ao invés de chavões como “inovação”, “métodos activos”, “ensinar os alunos a gostar de aprender”, “capacitação digital”, etc.
A imposição política europeia do pensamento único digital em educação, do total absoluto abrangente do digital no ensino e da obrigatoriedade do digital na aprendizagem e nas aprendizagens, tem na origem a directiva comunitária pró-digital da União Europeia. Num olhar mais lato, visionário, vemos um pensamento único disfuncional, disruptivo, intrusivo, abusivo, e decisores políticos que falam de liberdade, mas querem impor aos cidadãos um pensamento único musculado. O mesmo acontece com as alterações curriculares – a talhe de foice e a título de exemplo – que nos faz reflectir.
A imposição do pensamento único em educação, tem no nosso país, um caso bem conhecido, que acabou em tribunal. Em concreto, uma questão curricular.
“Artur Mesquita Guimarães não deixou que dois dos seus filhos frequentassem as aulas de Cidadania e Desenvolvimento. O Ministério da Educação chumbou os alunos e o pai meteu o ministério em Tribunal. O tribunal deu-lhe razão. Ao SOL, diz que são os pais que devem fazer esses ensinamentos em casa”.
(https://sol.sapo.pt, Semanário SOL, Esses senhores que falam de liberdade querem impor um pensamento único, Daniela Soares Ferreira, 12 de setembro 2020 às 10:30)
Em conclusão, na Europa, a competência digital é uma competência-chave cada vez mais impregnada de IA, é o padrão e referência que contribui decisivamente para um sub-reptício e cada vez mais assumido e exteriorizado pensamento único. Em Portugal, os decisores políticos, seguem a cartilha-catecismo do “desmando digital / IA / pensamento único / curricula”, nas escolas públicas, tal como nos Estados-Membros da UE, e outros países europeus, num total de 43 sistemas educativos no ano lectivo de 2018/2019. É facto, na Europa, uma abordagem consistente no sentido de definir a competência digital como uma competência essencial.
(https://www.dgeec.mec.pt, A Educação Digital nas Escolas da Europa, Relatório Eurydice, p.11)
Citando, vamos reproduzir um Relatório oficial da Comissão Europeia que confirma tudo o supracitado afirmado. A prova. Título do Relatório: “Reviewing Computational Thinking In Compulsory Education” (Revendo o Pensamento Computacional na Educação Obrigatória); 2022/apresentações e divulgação científica/sociedade da informação. No final, facultamos o link de acesso.
“Nos últimos anos, muitos países europeus revisaram seus currículos obrigatórios, introduzindo conceitos básicos de Ciência da Computação. Isso abriu caminho para o desenvolvimento das habilidades de Pensamento Computacional (CT) dos alunos. Um impulso adicional nessa direcção vem do Plano de Acção de Educação Digital da Comissão Europeia 2021-2027, onde a Educação em Computação de qualidade é um elemento-chave sob a prioridade «Aprimorar habilidades e competências digitais para a transformação digital». Apesar da aceitação crescente, uma série de questões e desafios estão surgindo para a integração efectiva das habilidades de PC no ensino obrigatório. Este relatório actualiza e amplia as descobertas do Estudo de Pensamento Computacional da CE de 2016, fornecendo uma visão geral actualizada em 22 Estados-Membros da UE e 8 países não pertencentes à UE. O estudo reuniu uma ampla gama de evidências colectadas por meio de uma revisão sistemática da literatura, uma pesquisa com representantes dos Ministérios da Educação, dois eventos de consulta on-line e estudos de caso aprofundados em nove países europeus, envolvendo entrevistas semi-estruturadas com especialistas, formuladores de políticas, líderes escolares, professores, bem como grupos focais com alunos. O relatório discute desenvolvimentos significativos relativos à integração de competências de CT (tecnologia de computador) no ensino obrigatório na Europa entre 2016 e 2021. Também fornece um resumo abrangente de evidências, incluindo onze recomendações para políticas e práticas”.
(https://publications.jrc.ec.europa.eu/repository)
Tudo plasmado neste Relatório da Comissão Europeia. Inequivocamente. Categoricamente. Relatório divulgado e comentado pelo Centro de Competência TIC (CCTIC ESE-IPCB, em 18 de março de 2022). Publicitando, repetitivo-complementar.
“A Comissão Europeia acaba de divulgar, através do Joint Research Centre Publication Office, o relatório Reviewing Computational Thinking in Compulsory Education (disponível online).
O documento em apreço, uma versão mais actualizada e completa do estudo acerca do Pensamento Computacional realizado em 2016 pela Comissão Europeia, aborda os avanços significativos que têm ocorrido na integração do Pensamento Computacional na escolaridade obrigatória na Europa, entre 2016 e 2021. Para além disso, este relatório não só apresenta uma panorâmica actual daquilo que ocorre em 22 Estados-Membros da União Europeia (UE) e em 8 países não pertencentes à UE, como disponibiliza, entre outros, onze recomendações de políticas e de práticas a adoptar.
O Reviewing Computational Thinking in Compulsory Education adquire especial relevo num momento em que diversos países europeus têm vindo a incluir alguns conceitos básicos das Ciências da Computação nos seus curricula contribuindo para o desenvolvimento de competências na área do Pensamento Computacional. Acrescente-se, ainda, o incentivo proveniente da Comissão Europeia, através do Digital Education Action Plan 2021-2027, onde a Educação Computacional de qualidade é considerada como elemento-chave da prioridade “Melhorar as competências digitais tendo em vista a transformação digital”.
(https://cctic.ipcb.pt, Pensamento Computacional na Escolaridade Obrigatória – Relatório, 18 de março, 2022)
Fecho com a preocupação de uma escola pública reduzida à visão da literacia digital e sem margem e tempo para a construção do pensamento crítico, das ideias, da problematização, descentrada da identidade da pessoa humana, da não socialização, da não catarsia purgação e purificação do digital desumanizante, divergente e desviante, sem/com imposição de pensamento único.
Disse.
Nota: professor que escreve de acordo com a antiga ortografia.
CCX.




5 comentários
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Ainda bem que existe a opção “continue a ler”, pois seria algo que eu jamais faria.
Cá está a muito pequena lulu a arremedar uma porteira, pronuncia a custo aquela proposição.
Mas apesar do que afirma e da sua atitude de supositício bedel, é deveras premente o esforçar-se em estacar a interpretar estes sinais gráficos, não deve desistir e resignar-se assim, é um exercício que, com o tempo, poderá ter algum êxito e lhe permita, finalmente, ingressar no ensino primário.
Mais uma excelente reflexão. Realmente os nossos alunos cada vez mais se estão a tornar em seres não pensantes,incapazes de formular um juízo de valor.
Não deves ser de cá!
Nunca os professores estveram tão distantes dos seus alunos!