A crise da falta de professores não pode ser resolvida à custa da qualidade

“A crise da falta de professores não pode ser resolvida à custa da qualidade”

 

Assunção Flores, diretora do Centro de Investigação em Estudos da Criança (CIEC) e professora do Instituto de Educação da Universidade do Minho.

 

 

O braço de ferro entre Ministério da Educação e os professores arrasta-se há muito. O que pode desbloquear o momento atual?

Eu penso que é necessário um esforço coletivo. A educação é fundamental para o desenvolvimento do país e a manutenção de uma situação de instabilidade e de incerteza tem sobretudo consequências para as crianças e para os jovens que têm direito a uma educação de qualidade. A verdade é que o setor da educação tem vivido tempos conturbados e exigentes e eu não resisto a citar Andy Hargreaves que, há 20 anos, falou de uma crise de proporções preocupantes, na medida em que a profissão que é, muitas vezes, descrita com uma importância vital para a economia do conhecimento é a mesma que muitos grupos têm desvalorizado, que cada vez maior número de pessoas quer deixar, em que cada vez menos pessoas querem entrar. Esta asserção permanece atual e não estou apenas a referir-me aos aspetos conjunturais que têm acentuado este cenário, mas também aos elementos estruturais aos quais é necessário atender.

 

As reivindicações dos professores são legítimas?

É fundamental que os professores estejam motivados e, para isso, concorrem naturalmente as questões laborais, nomeadamente as questões da carreira e do estatuto socioeconómico. O bem-estar dos alunos depende do bem-estar dos professores e, por isso, é crucial atender às condições de exercício da profissão e reconhecer a complexidade e exigência do ensino. Como refere Labaree, o ensino (e, por extensão, aprender a ensinar) constitui uma forma extraordinariamente difícil de prática profissional que parece fácil. É, portanto, necessário reconhecer e valorizar o trabalho dos professores. Na minha opinião, a profissão docente encontra-se numa situação crítica, eu diria mesmo numa encruzilhada, que requer respostas concertadas e urgentes, o que claramente tem de passar pelo desenvolvimento de medidas políticas que concorram para aumentar a sua atratividade e pelo investimento numa formação de qualidade assente na investigação e no conhecimento produzido internacionalmente e em particular no nosso país. Fala-se muito do envelhecimento do corpo docente, mas é necessário destacar que temos no nosso sistema professores altamente qualificados e experientes sendo fundamental reconhecer o seu papel na sociedade. Todavia, penso que é também importante refletir, para além das questões laborais, sobre as questões profissionais, por exemplo sobre a natureza do profissionalismo docente, sobre as práticas pedagógicas, sobre o trabalho colaborativo, sobre o papel dos professores enquanto agentes do currículo, enfim, sobre a especificidade da profissão docente.

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10 comentários

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    • Francisco on 15 de Agosto de 2023 at 19:21
    • Responder

    Vamos ver o que é que o CARRAPATO de serviço no Blog diz.
    Também vai insultar a Professora.
    Ele sabe mais do que todos.

    • Verdades on 15 de Agosto de 2023 at 22:22
    • Responder

    Enquanto se roubar temppo de serviço…
    Enquanto se impedirem os profissionais de acederem aos 5.º e 7.º escalões, ainda para mais os que ganham menos e são “menos velhos”, como faz a lei que está para ser aprovada, congelando os professores no 4.º escalão “ad eternum”…
    Enquanto houverem ultrapassagens por professores que têm menos tempo de serviço que outros …
    Enquanto os professores do Continente forem professores de 2.ª enquanto que na Madeira e Açores são de 1.ª…

    Enquanto isso for assim,, acontecerá o que está a acontecer. Mais saída para as reformas, mais saída para irem trabalhar em sectores privados que tenham ou não a ver com Educação e ninguém no seu juízo perfeito quererá ser professor.

      • Ana on 16 de Agosto de 2023 at 15:25
      • Responder

      Houver

        • Verdades on 16 de Agosto de 2023 at 23:57
        • Responder

        Tem razão. Peço desculpa pelo lapso.

    • Paulo on 15 de Agosto de 2023 at 22:33
    • Responder

    Boa tarde.
    Sou professor há um ano. Não sou ninguém para falar sobre ensino, mas questiono, sob forma de indignação: Porque se insiste em dizer que não há professores?? Somos milhares, milhares!! Simplesmente, muitos não vão trabalhar para longe porque o alojamento é proibitivo… só isso.
    Por mim falo, só daqui a 10 anos poderei entrar no ensino público…

      • Zé Povo on 16 de Agosto de 2023 at 14:07
      • Responder

      Não vão trabalhar para longe, nem para perto. Neste momento, o que vejo é que so o faz quem não quer ou não pode fazer outra coisa.
      Muitos já sairam e sairão, e não apenas por reforma.
      Os professores são milhares. E depois? Não é por serem milhares no país todo que são muitos ou poucos. É preciso ver as necessidades das escolas. E o que se vê, e são dados oficiais, é a falta de professores. Não sei qual a sua dúvida. Se há turmas completas que não têm professores de várias áreas disciplinares, e ficam sem aulas meios-anos, qual a sua dúvida em relação à falta de professores?
      Não sei em que colégio ou escola privadaestá a lecionar, mas se não houverem professores aí, o que faz o colégio? Mete qualquer um a lecionar qualquer disciplina? Não me parece. A não ser que seja um colégio de fraude, como infelizmente também há. Mas esses não são certamente exemplos.
      O que muitos fazem é pagar melhor.
      A situação da falta de professores não começou nem acabará por causa do alojamento ser caro. O problema são os salários que não compensam (não se pagam horas extraordinárias como fazem muitos dos colégios e bem, e quem entrou na carreira a partir de 2005 só perde dinheiro a jorros), o facto da carreira ser impossível (10 escalões em que se fica pelo 4.º) e a completa falta de respeito da parte do patrão Estado / Governo.
      No privado não houve congelamentos de tempo de serviço. Quanto muito, alguns poucos não tiveram aumentos durante a Troika. Mas roubar tempo de serviço impedindo progressões durante quase uma década e prejudicando a carreira contributiva dos professores, isso não existiu. Mas no Ensino Público foi o que aconteceu e continua a acontecer.
      Aliás, houve até colégios que aumentaram os ordenados e os prémios aos professores para que não saissem, e conheço alguns casos de colegas que, tendo entrado anos depois de mim, estão a ganhar mais 1/3 do ordenado em relação ao que aufiro, e estão em escalões superiores.
      Seja como for, a realidade é uma só. Há falta de professores. Há turmas sem professores, há escolas públicas com falta de professores e há colégios (privados, claro) que têm dificuldades em recrutar professores. Mas estes últimos têm algo que os governos persistem em não permitir. Basta-lhes dar condições que permitam aos seus professores não sairem para “melhor” para que eles fiquem. Na Escola Pública vê-se o contrário. Os que já lá estão são os primeiros a apanhar “a bordoada” porque tiveram a ousadia de quererem servir o Estado.

    1. Houver

    • Invest on 16 de Agosto de 2023 at 11:55
    • Responder

    O futuro da Educação… vislumbra-se uma medida que vai permitir que professores profissionalizados, com formações de base na área do Ensino e depois com outras formações não superiores e/ou como disciplinas avulso, possam ensinar essas mesmas disciplinas. Por exemplo um professor profissionalizado em Matemática poderá lecionar Alemão se tiver um curso de língua sem ser superior. Um professor profissionalizado em História poderá lecionar português se tiver aprovação nas disciplinas avulso de um curso superior de português …será a geração de professores multidisciplinares. O mais importante é que tenham nas suas formações iniciais de base um curso superior na área da Educação /Ensino depois é escolherem outras disciplinas para lecionar…Com esta medida, acaba-se com horários incompletos e a falta de professores e até beneficia os docentes na medida que não estão constantemente a ensinar sempre a mesma disciplina que acaba por se tornar aborrecido.

      • Anonimo on 16 de Agosto de 2023 at 14:06
      • Responder

      Loucura total.
      Colocar gente sem formação séria e apropriada a lecionar qualquer coisa.
      Não será desta forma que a Educação vai melhorar.

      • País de doidos on 16 de Agosto de 2023 at 14:09
      • Responder

      Portanto, um professor de História teve no seu curso uma disciplina geral de formação em processamento de texto. Logo, com esta medida, pode já dar TIC e programação.
      Um professor de Educação Física teve na sua formação uma disciplina de motricidade humana. Logo pode já lecionar Ciências, Biologia e Saúde.
      Só pode estar a brincar, certo?

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