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E é aqui que estamos, colegas professores! Santana Castilho

 

O Ministério da Educação quer atribuir a conselhos locais de directores a responsabilidade de seleccionar os professores e passar de quatro para cinco anos os concursos destinados aos dos quadros. Os dez quadros de zona pedagógica passarão a 23 mapas intermunicipais (as actuais 21 comunidades intermunicipais [CIM] mais as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto). Não há ainda qualquer documento escrito, nem foram referidos os critérios a usar pelos directores. Mas, aparentemente, desaparece a natureza nacional dos concursos de colocação, esvai-se a mobilidade interna e os professores deixam de poder escolher as escolas onde querem trabalhar.
Tendo presente que são as CIM e as áreas metropolitanas que concorrem a fundos estruturais europeus, através de projectos, a Fenprof admitiu a hipótese de os putativos conselhos de directores virem a escolher os professores a partir do interesse desses projectos, para que os respectivos salários possam ser pagos por verbas dos fundos, situação que, recorde-se, já se verifica com professores que leccionam cursos profissionais.
No sábado passado, na Covilhã, António Costa manifestou desejo de chegar a acordo com os sindicatos, para alterar o processo de vinculação a uma carreira em que, disse ele, os professores são obrigados a apresentar-se a concurso de quatro em quatro anos. Das metáforas e imprecisões (os professores não são todos obrigados a concorrer de quatro em quatro anos) com que embeleza as suas tiradas cínicas, exala sempre o mesmo cheiro hipócrita e falso: sim, porque o que está em causa é substituir a escolha, apesar de tudo ainda livre, do professor, pela decisão da Administração, com todo o correlato surto de iniquidades que daí advirão e consagrarão o trabalho sujo que Maria de Lurdes Rodrigues iniciou.
O que está em causa é a imposição de uma engenharia de gestão, que subordina os mais elementares direitos, humanos dos professores e à educação dos alunos, aos mais mesquinhos interesses da austeridade da página virada. O que está em causa é uma proposta que agravará as desigualdades entre as regiões e as crianças e tornará ainda mais precária a vida dos professores, coagindo-os a trabalhar onde não querem. Em rigor, trata-se de fazer precludir os capítulos V e VI do Estatuto da Carreira Docente, que regulam os quadros e os respectivos processos de vinculação. Numa palavra, este é o último prego no caixão que enterrará a carreira e o derradeiro lance para desregular definitivamente a transparência da provisão pública das necessidades docentes.
Os professores mergulharam num limbo, onde cresce o cansaço e a resignação. O desânimo que os assola radica na impotência dos sindicatos para os defender das decisões tirânicas do Governo. Com efeito, os sindicatos persistem na representação do papel de lamuriosas vítimas enganadas e as lutas sindicais estão cada vez mais aprisionadas pelos interesses das conjunturas partidárias e cada vez menos centradas na eficácia da defesa dos interesses profissionais dos seus representados. Circunscrevem-se à repetição de rotinas e coreografias simbólicas, que fogem sempre dos pontos críticos, onde a intervenção provocaria as almejadas mudanças nas relações de poder. Por medo reverencial e iniciativa nula.
Neste quadro, o STOP (Sindicato de Todos os Professores) promoveu aquilo a que chamou uma sondagem, para apurar que tipo de luta os professores estão dispostos a personificar. Mais um erro do sindicalismo de coro. Há momentos em que o recurso a ouvir as bases denuncia tibieza. Particularmente ante um adversário que não ouve e age humilhando. As bases não precisam, agora, que lhes devolvam a palavra. Precisam de liderança que as galvanize. Precisam de uma convocatória que arrede o medo, some adesões pela ousadia e proteja a sua moleza das botas que a calcam.
Ante a tormenta que se avizinha, a participação democrática vem depois do grito de revolta. É preciso que alguém o dê! É preciso convocar, não sondar. Eu sei que é desproporcionada esta invocação, mas corro o risco:
“Como sabem, há os estados socialistas, os estados ditos comunistas, os estados capitalistas e há o estado a que chegámos.”
Para dizer isto, Salgueiro Maia não fez sondagem prévia aos que o acompanharam. A exortação chegou e ninguém deu um passo atrás. E é aqui que estamos, colegas professores!

In “Público” de 23.11.22

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11 comentários

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  1. Será a maior vergonha de toda a história do ensino em Portugal e a reafirmação que estaremos na república das bananas e sem bananas. Adeus imparcialidade. Os verdadeiros beneficiários serão os amigos políticos e/ou familiares dos diretores. Uma forma de garantir a corrupção e os “Jobs for the boys”

    • maior on 23 de Novembro de 2022 at 10:48
    • Responder

    A corrupção e os “Jobs for the boys” há muito faz parte do mundo dos professores “contratados”, os professores “colegas” assobiaram para o lado.
    Era fácil perceber as intenções dos nossos governantes.

    • maria on 23 de Novembro de 2022 at 15:49
    • Responder

    Os Professores, os professores e os “professores”

    E são todos “colegas” sr. S. Castilho !! E ganham todos o mesmo, sr. S. Castilho !! ( o mesmo não
    :é fácil encontrar um “professor” a ganhar o dobro de um Professor) .
    Agora comparando com o sector privado (produtivo):
    a) O sr, Lopes , um técnico especializado, que pode ser engenheiro ou economista, ganha na sua firma 900 euros mensais, em 40 horas semanais ( qu-a-ren -ta );
    b) A Rosalina, fugida da primária, ganha o DOBRO (!), 1 4 ( !) horas de “trabalho” semanal (CATORZE) . Função : arrastar 4 nee às aulas curriculares (um de cada vez) , estes nada aprendendo e perturbando as aulas ( com a ajuda da ” professora” Rosalina). Ganha bem para o que faz, não?
    Há milhares de “Rosalinas”, e não só no seu “grupo de recrutamento”.
    Desmintam-me ( de forma civilizada, se possível )

      • JJ on 23 de Novembro de 2022 at 20:01
      • Responder

      Podia desmenti-la palavra a palavra, letra a letra, mas os mentirosos não se desmentem, desprezam-se.

      • Eu e mais 1000. on 24 de Novembro de 2022 at 19:13
      • Responder

      Outra vez?
      O seu problema não é o da /com a educação !!!
      A falta de pensamento é o pior dos males….

      • Pj CORREIA on 26 de Novembro de 2022 at 15:43
      • Responder

      DAD… deixe as drogas…

    • Prof on 23 de Novembro de 2022 at 19:11
    • Responder

    Este é um cenário completamente estúpido, impensável, inaceitável e que não vai resolver nada! A mobilidade interna nunca pode ser eliminada.

    Queremos concursos centralizados, nacionais, com vagas reais para todos e ordenação por graduação profissional. A função dos diretores é gerir agrupamentos e não recrutar docentes.

    O que temos está bem. Concurso interno, mobilidade, interna, contratação inicial, reserva de recrutamento e oferta de escola. Se não há profs a culpa é toda do Ministério que há anos desvaloriza, humilha professores

    • Rosa on 24 de Novembro de 2022 at 13:35
    • Responder

    O Ministério da Educação, mais propriamente, “o governo, ou desgoverno”, quer colocar as responsabilidades no poder local!…. Sugiro que quando recebe os milhões partilhe, imediatamente, com o poder local!… Não precisamos do governo central!… Devem tornar públicas todas as contas!…. Temos o direito de saber onde é gasto o dinheiro dos nossos impostos todos os meses!…

    Nunca será justo, e já temos algumas experiências!…
    Todos os concursos devem partir do Ministério da Educação, justos e transparentes.

    • Isa Costa on 26 de Novembro de 2022 at 21:35
    • Responder

    VAMOS Á LUTA e deixem de se lamúrias! É para agir já e não ficar a espera que o ato se consume. Não façamos o mesmo que fizemos no tempo da Lulú Rodrigues, no tempo do Sócrates e com uma maioria absoluta. AGIR JÁ.

    • M Raposo on 27 de Novembro de 2022 at 15:27
    • Responder

    Curioso,
    Todos (ou quase) todos os diretores da atualidade ainda devem ser do tempo dos Diretores e Reitores de escolas e colégios.
    Foi um regime deposto pelo 25 de Abril de 1974, eram mais ou menos assim, como o J. Sócrates e a sua Milu idealizaram, mas, as eleições aproximavam-se, eles já propunha que cada escola fosse uma Unidade Orgânica Autónoma (limpar as mãos) depois de ter feito um assassinato aos professores, aos médicos e enfermeiros. Tentaram a Magistratura, mas, levaram logo nas orelhas. Aquietaram-se porque estavam conscientes que iam vir ao de cimo, as acusações, a corrupção (ainda se lembram da Famosa Parque Escolar?). No tempo da TROICA, foi seguir a cartilha que os Sócatres e os seus “amigos” produziram deforma a deixar o país em BANCARROTA, os que em 2015 tomaram de assalto o poder, há 7 (SETE) anos, que fizeram para o País e para as gerações FUTURAS. Sim fizeram, Deixam a hipoteca para daqui a 20 ou 40 anos, dado que têm trocado tudo o que era dívida de curto prazo (1 a 5 anos) para 20 ou mais anos e as de médio prazo para as calendas gregas.
    Alguns professores, conseguiram com as migalhas de 2 Anos e poucos, dar um ar de “beneméritos”.
    Diz o ditado: Com festas e Bolos se enganam os tolos. Aqui são promessas e a culpa nunca assumida.


  2. Vergonha… Pouca clareza e mais injustiças, enfim é o Portugal do Costa…. Temos que fazer frente a esta situação, todos juntos….pois somos a base da educação e formação do futuro…. há que pensar em medidas fortes para que valorizem a carreira docente….próximas eleições não terá o voto dos professores de certeza….a não ser que seja daquele tipo: quanto mais me bates mais gosto de ti….bem haja a todos os professores

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