Uma arma de destruição educativa – Mário Silva

 

Estava sentada olhando para o ecran do computador com uma expressão facial visivelmente agastada e aborrecida. Pensando que seria o retomar de mais um ano com previsivel avalanche de burocracia inútil que desvia daquilo que ela gosta de fazer- preparar e lecionar aulas- cumprimento afavelmente para desanuviar o estado psicológico. Olhou para mim, e com sorriso sereno, afirmou: ”Olha, o 6º escalão vai ser o meu topo da carreira!…”, apontando para o ecran. Aproximei-me e vi que estava aberto um documento pdf que se intitulava “Lista Definitiva de 2021 de Graduação dos Docentes Candidatos às Vagas para a Progressão ao 5º Escalão da Carreira”. Também estava aberta a lista para progressão ao 7º escalão, ambas com mais de duzentas páginas!… Em ambas estavam mais de 4 mil docentes!…

A desgraçada estava colocada para lá do 4000 e aí compreendi a afirmação. Sentei e comecei a fazer contas com ela, estabelecendo uma premissa teoricamente possível mas racionalmente improvável: supor que não tinha ido para a lista negra. Tendo 52 anos e ainda beneficiando de 1 ano da recuperação do tempo de serviço, iria entrar no 6º com 53 anos, no 7º com 57 anos, no 8º com 61 anos, no 9º com 65 anos e no 10º com 69 anos…! Conclui-se que se quisesse usufruir da remuneração do 10º escalão teria de trabalhar para além dos 70 anos…! Quem considera isto exequível e realista?…

Presumindo que fica na lista 4 anos (cenário otimista) e que não fica na lista negra no 6º escalão, só pode almejar terminar a carreira no 8º escalão; presumindo que também fique retida no 6º escalão, então terminará no 7º escalão.

Tendo noção realista que o poder governamental será sempre ocupado pela dupla PS/PSD (eventualmente com a muleta BE/PCP ou CDS), os 3 anos de serviço que faltam jamais serão recuperados, pelo que é evidente que estes docentes sabem que a sua carreira está definitivamente destruída. Qual será a motivação profissional destes milhares de docentes, sabendo que mesmo que façam tudo muito bom, estará vedado o acesso ao 8º, 9º e 10º escalões?

Que prejuízo grave irá acontecer, pedagógico e pessoal, para docentes e estudantes, por causa deste modelo de gestão governamental apenas obcecado com o valor orçamental?

Se o objetivo seria destruir o sistema educativo, as vidas dos docentes e dos estudantes, então idealizaram um procedimento eficaz para isso…

 

Link permanente para este artigo: https://www.arlindovsky.net/2021/09/uma-arma-de-destruicao-educativa-mario-silva/

9 comentários

Passar directamente para o formulário dos comentários,

    • Pedro Castro on 3 de Setembro de 2021 at 17:35
    • Responder

    Se queremos liquidar este sistema de avaliação então e progressão na carreira:
    1- Todos os docentes no final de cada ciclo de avaliação deverão reclamar da sua classificação.
    2-Todos os docentes propostos pelo diretor pra a eleição do coordenador de departamento deverão renunciar à eleição de tal cargo.
    3- Ninguém deverá votar para o cargo de coordenador de departamento
    4- Não aceitar os cargos de subcoordenadores designados pelo diretor, inovocando todos os artifícios ao dispôr.
    5- Recusar ser avaliador externo, invocando que recorrerá a atestado médico psiquiátrico se tal for necessário
    6- Não aceitar ser membro da secção de ADD do Conselho Pedagógico;
    7- Não aceitar fazer parte das listas candidatos ao Conselho de Escola (muito eficaz).

    Eu já recorri com sucesso a alguns destes pontos rejeitandoi tudo o que contribua para esta ADD
    E os colegas estão dispostos?
    Haverá algum sistema educativo que resista se todos recorrerem a estes procedimentos?

      • Democracia, exige-se. on 4 de Setembro de 2021 at 12:01
      • Responder

      Para liquidar a serpente tem de começar pela cabeça: os diretores.
      Com as suas metástases, vulgo bufos, são o cancro das escolas.

    • Pedro Castro on 3 de Setembro de 2021 at 17:38
    • Responder

    Ressalvo 1º parágrafo para:
    Se queremos liquidar este sistema de avaliação e progressão na carreira, então;

    • Laura Ribeiro on 3 de Setembro de 2021 at 18:29
    • Responder

    Maria Simões

    Desabafarmos aqui, apenas entre nós, não nos leva a nada. Temos de ir à luta. Vejo aqui tanta gente com o dom da palavra, que escreve tão bem e que poderia escrever uma carta aberta ao primeiro-ministro, assinada por milhares de docentes, que fosse bem elucidativa dos nossos sentimentos, das suas causas e das consequências dos mesmos na educação das crianças e jovens. Não podemos ficar à espera dos sindicatos, esta luta não lhes interessa. Se queremos que algo mude, temos de ser nós, que nos sentimos atraiçoados, vilipendiados, injustiçados, a lutar pelos nossos interesses.

    • Acordem! on 3 de Setembro de 2021 at 18:53
    • Responder

    O verdadeiro cancro nas escolas é este:

    https://capasjornais.pt/Capa-Jornal-Publico-dia-12-Agosto-2018-9909.html

      • Pedro Castro on 3 de Setembro de 2021 at 20:50
      • Responder

      Sem dúvida alguma! Esses professores/diretores são a grande base do problema. Por esse motivo muitos deles filiaram-se em partidos e andam pela calada a defender a municipalização do ensino para se perpetuarem no poder.
      Numa primeira fase só tinham direito a 3 mandatos consecutivos na direção dos agrupamentos, agora conseguiram o direito a um quarto mandato consecutivo. Com a municipalização ficarão em mandato eterno.
      Leiam
      https://eduardovitorrodrigues.pt/apresentacao-da-candidatura-de-filinto-lima-a-junta-de-freguesia-de-oliveira-do-douro/

      • É urgente agir! on 4 de Setembro de 2021 at 13:24
      • Responder

      Num país onde qualquer comentário é racismo, xenofobia, sexismo, violência, etc, etc…, nas escolas estudos mostram a gravidade do que está a acontecer, e não há qualquer resposta!!!!
      Divulguem, envergonhem estes decisores.

Deixe um comentário

Your email address will not be published.

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Discover more from Blog DeAr Lindo

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading