O dever de proteger não justifica a supressão das liberdades – Santana Castilho

Com o pensamento em dois grandes portugueses, que nos deixaram ao mesmo tempo: Jorge Sampaio e Manuel Patrício.

Recordámos há quatro dias um 11 de Setembro, o do World Trade Center. Ficou esquecido um outro 11 de Setembro, o do Chile, de 1973.
O que Bush iniciou a 11 de Setembro de 2001 e outros continuaram, em nome do combate ao terrorismo, é um percurso que não serviu a paz, desprezou liberdades e democracia e ampliou o terror que inicialmente queria combater. Mostra a realidade que ao terror inorgânico se somou o terror de Estado, com milhões de mortos e refugiados e a legalização da violação de direitos humanos fundamentais. Mostra a realidade que a responsabilidade dos estados protegerem os seus cidadãos se exerceu trocando liberdade por aparente segurança e permitindo que os senhores da guerra se afirmassem, no campo político, como simples sugadores de fragilidades, usadas para controlar os recursos energéticos e as riquezas dos outros.
Muito do que sempre foi determinante para influenciar o comportamento das pessoas, e impor ideias hegemónicas idênticas às que serviram todos os projectos imperiais, resultou do aproveitamento das emoções causadas por fenómenos de impacto global. Para obstar a tal processo, a democracia precisa do empenho dos cidadãos por causas e as causas precisam de razões demonstradas. A ausência da demonstração da razão afasta o empenho, abre portas à debilidade da democracia e permite que ideias erradas se imponham, varrendo tudo o que resta de um estar geral abúlico. Porque mais do que as agressões ao nosso modo de viver, são os actos com que lhes respondemos que mudam o mundo.¬
Interrogo-me continuadamente sobre se é o medo que gera a indiferença perante o racional ou se é essa indiferença que favorece a instalação do medo. Seja como for, vejo hoje muita indiferença e demasiado medo, particularmente no campo da saúde, onde é visível a utilização do pânico causado pela pandemia para retirar direitos e liberdades e reprimir, com a imprópria designação de negacionismo, tudo o que questione o discurso politicamente correcto, por mais fundamentados e cientificamente sérios que sejam os argumentos que se lhe opõem.
Há ano e meio que assisto à tomada de medidas por parte da maioria dos governos do mundo, que não logram obter os resultados que prometeram. Há ano e meio que assisto, em nome da emergência pandémica, a uma sucessão de medidas frequentemente contraditórias, ilógicas e ineficazes, limitadoras de direitos e liberdades, mas genericamente aceites pela sociedade como os crentes aceitam os dogmas das religiões. Há ano e meio que assisto à promoção de cientistas, pagos a ouro pela indústria farmacêutica, a uma espécie de sacerdotes infalíveis, enquanto outros, com créditos científicos bem mais sólidos e eticamente impolutos, são destratados como hereges e queimados na novel inquisição da opinião pública, vigiada e censurada. Dir-se-ia que à pandemia da covid-19 se juntou uma pandemia de fideísmo, que leva a maioria a acreditar agora em políticos que lhes mentiram toda a vida.
No regresso das nossas crianças às creches e à escola, e apesar de se ler na imprensa que 99% dos seus cuidadores estão vacinados, a Direcção- Geral da Saúde não foi sensível a vários estudos que identificam atrasos no desenvolvimento dos mais pequenos, atribuíveis à ausência da interacção fundamental com o rosto dos adultos, cobertos por máscaras.
Muitas das crianças que estão a ser violentadas na escola por regras sem sentido, serão enviadas para restauro muitas vezes ao longo da vida. Porque, embora não o manifestem de modo a que os adultos o entendam, mais do que nunca sentem-se assustadas na escola. Porque os perigos sanitários a que as poupamos são nada quando cotejados com os custos garantidos dos défices motores, mentais e emocionais que estamos a infligir ao seu desenvolvimento são. E não há vacinas que as protejam das chagas deixadas pela imobilidade forçada, pelos recreios livres suprimidos e pela habituação à inexpressividade de rostos mascarados dentro das quatro paredes das salas, onde passam a maior parte da vida que lhes estamos a roubar. Tantos constrangimentos e tantos isolamentos só podem fazer mal, mais mal do que aquele que evita uma escola tão protectora, mas tão pouco amigável.

In “Público” de 15.9.21

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6 comentários

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    • BB on 15 de Setembro de 2021 at 9:56
    • Responder

    A máscara tem uma única vantagem inegável que é a de esconder as faces feias . Para muitas, a face é das poucas partes do corpo que se encontra vestida, o que não é o caso das talibãs.

    • Ana Maria on 15 de Setembro de 2021 at 11:37
    • Responder

    Neste momento as regras covid nas escolas são uma aberração e todos parecem aceitar…
    Incrível como é que uma classe com um suposto alto grau de formação científica não tem espírito crítico!!!

    As únicas medidas úteis seriam SISTEMAS DE VENTILAÇÃO eficazes e DISTANCIAMENTO físico.

    Tudo o resto são palhaçadas que as escolas engolem e promovem.

    A ventilação eficaz e o distanciamento exige €€€€ do governo. Por isso não existe nas escolas .

    Tudo o resto são palhaçadas que um povo acrítico engole.
    Triste

    • Paulo Pereira on 15 de Setembro de 2021 at 12:07
    • Responder

    A Democracia, esse conceito cada vez mais vago…
    Não é óbvio que vivemos numa era pós-democrática?
    Eu penso que sim! E essa atitude pós-democrática não é imposta necessariamente pelas elites governativas. Basta ser insinuada…
    É uma atitude que emerge de baixo para cima, na pirâmide social, bastando para isso que haja factores de estímulo, como sejam os “moralismos antimoralistas”, conceito referido num excelente ensaio de João César das Neves nos idos de 2005.
    Não me refiro apenas a Portugal, mas a todos os países desenvolvidos, que, cada vez mais, usam as tecnologias como mecanismo de controlo das populações. Não obstante alegarem candidamente que é “para o bem comum”.
    Mas antes fossem as tecnologias apenas. Contamos também com os meios de comunicação social cada vez mais relativizados e engajados no Sistema, sendo eles-próprios a rotular moralisticamente todos aqueles que não se enquadram no ponto de vista “socialmente aceite”.

    Paradigmático deste modo de pensar é o facto de ainda existir em Portugal o lugar-comum de que quando não se diz que se é de “esquerda”, recebe-se o mimo de se ser um “miserável fascista”! Liberdade de expressão, onde andas?

    E daí a promover os movimentos de massas seguidistas e passivas vai um passo. Massas essas que, facilmente se tornam, elas próprias, agentes repressores e vigilantes, como aconteceu nas ditaduras mais mortíferas (maoismo, nazismo, comunismo soviético…), em que os filhos denunciavam os pais e vice-versa.

    Isto tudo para dizer o quê?
    Que vivemos num mundo de hipocrisia institucionalizada.
    Não fosse a Hipocrisia um dos pilares estruturantes das Civilizações.

    O caricato e, ao mesmo tempo, triste, é a promoção, junto dos mais novos, nas Escolas, de projectos cândidos e alegadamente altruístas que mais não são que uma forma perversa de enganar as crianças e os adolescentes para a Realidade do Mundo,

    Democracia e Direitos Humanos?
    Inversão e “mitigação” das questões climáticas e ambientais, quando sabemos bem que os combustíveis fósseis hão de continuar a ser o grande motor das Economias globais, por, precisamente, serem mais baratas e acessíveis à imensa maioria da população mundial?
    Não será toda esta retórica uma verborreia burguesa de gente que nunca viveu fora do seu lugar de conforto?

    Não existem ditaduras, as quais são muito bem toleradas pelos hipócritas bem-falantes do Ocidente, que se escudam na retórica da “tolerância”?
    E agora com a questão do Afeganistão, como ficamos? Iremos esperar que se tornem numa “democracia”, exportada pelo Ocidente como a coca-cola, os macdonalds e a indústria do cinema de Hollywood, para não falar em outras alienações made in Ocidente?
    E, já agora, e por extensão, como ficamos relativamente a todos os regimes islâmicos mais ou menos fundamentalistas que pululam por parte da Ásia e África? (e a breve prazo, na França, Reino Unido e outros, em nome do falhado multiculturalismo, que resultou em guetos absolutamente hostis aos povos locais e assimilados…)
    E será que a Russia e a China se irão preocupar com estas questões? Obviamente que não! Irão simplesmente continuar a realizar os seus “business as usual”, seja com quem for. Tal como os Estados Unidos e a própria Europa.
    Os povos africanos que se safem como puderem…

    Andamos a enganar as crianças e jovens em nome de utopias, usando engenharia social pura e dura para a doutrinação em lugares-comuns, e ocultando a realidade prosaica dos factos, sem colocar em evidência as contradições absolutamente gritantes em que o Mundo contemporâneo vive.
    Será que a maioria dos professores estão suficientemente despertos para estas questões? Não creio, de todo! E ninguém ensina o que não sabe ou não quer saber!
    Afinal a maioria são tipicamente funcionários públicos, no sentido mais depreciativo do termo, pois acatam subservientemente os disparates emanados superiormente da tutela.
    Como, por exemplo, o Despacho 6605-A/2021 que, ao contrário do que seria de esperar, foi assimilado, ou, digamos “inoculado” passivanmente sem qualquer reacção. E a tutela conhecendo bem a reacção dos seus subordinados, usa e abusa destes expedientes, sabendo bem que não haverá reacção alguma – as poucas que há são de docentes universitários e pouco mais…

    – o-

    De passagem…
    O medo, esse medo de “não causar ondas” junto da Direcção, do “Senhor” Director e de outras doutas Excelências sentadas no pseudo-Olimpo das Direcções dos Agrupamentos, evidencia uma ignorância atroz do estatuto em que se enquadra, afinal, esta Classe Profissional. Estatutariamente, é uma ‘Classe Especial Unicategorial’, a única, que eu saiba, que só tem uma Categoria, quer se tenha 1 mês de serviço ou 40 anos dele. Os cargos intermédios e superiores são meras comissões de serviço que podem apenas capitalizar para a progressão horizontal – nunca para progressão vertical. Mais nada! A progressão vertical não existe estatutariamente; é apenas um mecanismo que muitos detentores de cargos usam e abusam para exercer, afinal, o que de melhor e de pior existe na sua personalidade e no exercício de pequenos poderes junto dos seus pares. E,em abono de alguma justiça, nem todos são talhados para desempenhar cargos intermédios ou de topo. O que levanta outro problema estrutural, que tem que ver com a avaliação profissional, a qual, neste momento, é uma farsa!

      • Elisabete Azevedo de Almeida on 16 de Setembro de 2021 at 0:55
      • Responder

      Muitos parabéns por esta excelente partilha. É verdade que devemos ser mais participativos e defensores, a nossa liberdade está a ser roubada e ninguém diz nada. A nossa identidade seriamente em vias de extinção. Agradeço a sua participação admirável.

    • Roberto Paulo on 15 de Setembro de 2021 at 14:10
    • Responder

    Em suma, o uso de máscara diminuiu drasticamente uma série de doenças típicas do inverno, mas temos um bando de gente que vê na sua utilização uma ameaça às suas liberdades.

    Eu, eu, eu, eu… este é o pensamento vigente no século XXI. Não obstante, andamos com cidadanias atrás de cidadanias a massacrar as crianças, que poderiam usar esse tempo, por exemplo, para brincar, algo que, isso sim, estão quase impedidos de fazer atualmente. Ou porque os idiotas dos pais não têm tempo, ou porque os idiotas dos pais estão preocupadíssimos com as roupinhas da criança ou com um joelho esfolado, ou porque os nossos políticos as fecham na dita escola a tempo inteiro, uma atrocidade com que todos parecem conviver e não suscita preocupações com o bem-estar físico e emocional da nossa criançada.

    Seja dito, no entanto, que este ataque às nossas liberdades perpassa todo o mundo. É um ataque global coordenado. Com vossas licenças, vão bugiar! Indignem-se com aquilo que,, realmente, impacta as vidas de todos nós.

    • Angelo on 15 de Setembro de 2021 at 18:15
    • Responder

    A máscara diminuiu as doenças de inverno?
    Quais doenças? Aquelas para as Quais não há testes?

    Não percebes que o facto de ter existido confinamento, de existir distanciamento entre pessoas quando interagem em qualquer local, foi o real motivo dessa “diminuição” das doenças… Nunca foi a máscara.

    A máscara só evita gotículas não evita aerossóis.
    Se usando ffp3 os evitavas e mesmo assim…

    Comecem a ler estudos e não se fiem na DGS /Governos/ Comunicação Social com os seus avençados.

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