Educação 4.0 – José Afonso Baptista

Educação 4.0

A paz e a harmonia não fazem mudar o mundo, nem a comodidade e o bem-estar, nem a barriga cheia a horas certas. O que nos ameaça é a fome e a miséria, é o incêndio incontrolável, são as cheias devastadoras, os desastres naturais ou provocados pelo erro humano. Dois anos de Covid 19 obrigam a mudanças mais profundas do que dois séculos de morna passividade e conforto, milhares ou milhões de mortos num ano, conforme a geografia, põem a nu a fragilidade e a incapacidade do ser humano para encontrar a tempo as respostas para o imprevisto. 

A pandemia trouxe o caos, fechou as pessoas em casa, encerrou as escolas, pôs a nu a incapacidade de resposta dos serviços públicos essenciais, mas mostrou o que há muito vínhamos clamando e José Pacheco relembrou há dias no Semanário i (10.09.2021): não se podem educar bem as crianças e jovens do séc. XXI com professores formados no século XX e programas e rituais do séc. XIX. Os nativos digitais, acrescento, têm o direito de viver no seu tempo e de adquirir as competências que os integrem na sociedade em que vivem e os preparem para os desempenhos profissionais que os esperam.
Vivemos em pleno na 4ª Revolução Industrial. Depois do vapor, da eletricidade e dos computadores, a Revolução 4.0 assenta na convergência da inteligência artificial (AI) com as tecnologias digitais (TD). Educar fora deste quadro e sem estes meios não é educar, é preparar para a pobreza, a mediocridade e a dependência. Milhões de crianças em todo o mundo estão impedidas do acesso a uma Educação 4.0, mesmo nos países mais ricos, como os EUA ou o UK. Em Portugal, muitos milhares de crianças viveram o sonho de uma promessa por cumprir e viram aprofundar-se o fosso que as separa dos seus pares mais afortunados. O discurso oficial sobre “inclusão”, plasmado na lei e gritado aos quatro ventos nas campanhas eleitorais, e o canto da sereia do “sucesso de todos”, replicando o slogan americano do “no child left behind”, – “nenhuma criança ficará para trás” -, é o discurso dos vendilhões do templo que cobre de ridículo quem ainda se atreve a proferi-lo na praça pública.
A Covid 19 destapou a ferida, mostrou o caminho e existem hoje os meios para dar a todas as crianças os instrumentos para as aprendizagens do seu tempo. A Educação Disruptiva, impulsionada pela Economia Disruptiva, rompe com os modelos pedagógicos do passado, que respondiam às necessidades e meios que não são os de hoje. Como diz o provérbio, águas paradas não movem moinhos e muito menos águas passadas, não sei qual a versão mais adequada. As crianças do computador e do smartfone sofreram um confinamento muito mais amigável, puderam continuar ligadas aos colegas e amigos e sobretudo puderam continuar as aprendizagens por vezes com redobrada concentração e aplicação. Do outro lado da barreira, ficaram as crianças que sofreram um total isolamento, que perderam todo o tipo de orientação e acompanhamento, que desanimaram e desistiram da escola. Foram condenadas ao abandono e ao insucesso.
Não proclamo o fim da escola, o espaço por excelência da comunidade educadora, mas reclamo uma escola renovada com todos os meios e condições para o sucesso obrigatório de todos. Como está na lei, que o legislador não cumpre. Como não cumpre a autonomia que poderia levar cada escola a encontrar o caminho para cada criança. As grandes reformas, concebidas de cima para baixo, impondo soluções uniformes e iguais para situações e crianças tão diferentes, falharam os seus objetivos. As boas soluções têm de ser adequadas a cada local e a cada criança real. Com os meios e dispositivos de hoje. O computador é o “manual obrigatório”. Pessoal, não partilhado. As crianças abandonadas são as que mais precisam e merecem.
Analfabeto, hoje, é quem não sabe utilizar o computador ou o smartfone. Há muitas crianças desprovidas. Pior: há ainda muitos professores que perderam o comboio porque o governo nunca lhes deu a mão. A educação continua o parente pobre.

diário as beiras | 29-09-2021

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