A legitimação da extrema-direita nas escolas do Reino Unido – João André Costa

 

 O caso do Tommy, aluno de 13 anos, é paradigmático. Primeiro a recusa a pés juntos sempre que chegava a hora de ter aulas com qualquer professor que não fosse caucasiano. Sem se explicar, corria escola fora à procura do melhor lugar para se esconder durante uma hora por inteiro para não ter de entrar na sala. Depois as conversas com professores, auxiliares e colegas sempre que o tema versava sobre as origens individuais dos presentes. “Mas não”, dizia ele, “Tu não vens de Hackney. De onde é que tu vens mesmo?” sem por isso nomear a cor da pele do interlocutor, não é preciso quando só há um britânico de gema na sala e esse britânico é o Tommy.

Findo o Verão, e porque o Tommy já está mais à vontade, já não é novo na escola, vieram os insultos, tão racistas como directos, sempre que o dia não lhe corra bem, nunca corre, e é urgente encontrar alguém para culpar. “Paki” e “Nigger” são as palavras usadas e dirigidas a quem por ele passe. Se a segunda palavra encontra o seu equivalente em português, o qual nos escusamos a traduzir, a primeira não lhe fica atrás sempre que dirigida a alguém de ascendência asiática. Por fim, o comentário de como todos os imigrantes são violadores e uma reunião com os pais na escola. Mas os pais não querem saber, e talvez aqui uma das raízes do problema.

Por princípio, não atendem o telefone e quando atendem não entendem o sotaque, pedem para falar com outra pessoa, “queixam-se de não perceber o que o André diz” e no dia da reunião não apareceram, um dos filhos está doente, e o Tommy de rédea livre no leme do mundo.

Fomos a casa do Tommy, eu e uma colega. À entrada da rua apontam-nos a casa, “é aquela das bandeiras” e de facto é, uma casa decorada com o sangue de São Jorge de alto a baixo entre bandeiras e emblemas no telhado, nas portas e janelas, no relvado. “É por causa do futebol”, diz o pai à porta em tom jocoso diante desta admiração, mas o Campeonato Europeu já acabou e na rua mais nenhuma casa tem bandeiras. Para além disso, remato, “a Inglaterra perdeu” e o pai do Tommy já não acha piada. Vamos directos ao assunto, as faltas às aulas, as conversas os insultos, os imigrantes que são todos violadores e eu, como exemplo, pergunto ao pai do Tommy se ele acha que eu também sou um violador. Resposta: “Nah, mate, you’re alright, we know you”, traduzido mais ou menos por um “Não pá, tu estás bem porque nós sabemos quem és”. Porque nós sabemos quem és. Mas não sabemos quem são os outros, por exclusão de partes. E os outros, já se sabe, são os invasores, os imigrantes que vêm para viver das regalias sociais, das casas, saúde e educação gratuitas que, pelos vistos e de acordo com o pai do Tommy, não chegam para toda a gente e portanto “nós primeiro”, diz ele, “os que já cá estão”, acrescenta, terminando com um “Britain first”. Não obstante a posição da Grã-Bretanha, o Tommy terá de passar um dia a trabalhar num projecto sobre minorias étnicas para apresentar aos colegas. Agradecemos o tempo e fomos embora antes que nos acontecesse alguma coisa.

O caso do Tommy, apesar de singular, não é único lá na escola. Temos, pelo menos, mais 2 alunos com perspectivas e comentários semelhantes e o trabalho, não só com os alunos mas as famílias também, longe, muito longe de concluído. Infelizmente, as notícias recentes vêm dar-nos razão quando já não é o neo-jidahismo o problema entre crianças e adolescentes no Reino Unido mas a radicalização por grupos e movimentos de extrema-direita. E as estatísticas não mentem: no último ano, 60% das pessoas radicalizadas têm menos de 24 anos e 13% dos detidos são menores, uma subida face aos 5% do ano anterior.

O fogo, este fogo, não é agora, já dura há anos. Legitimada pelo Brexit e pelo populismo político, o confinamento e as horas passadas on-line têm sido terreno fértil para o recrudescer da extrema-direita entre notícias falsas e teorias de conspiração disseminadas nas redes mas também nos jogos on-line, angariando seguidores nas camadas mais jovens da população. Os mesmos seguidores que vêm à escola, fruto da idade, todos os dias e acerca dos quais devemos estar atentos discutindo pontos de vista, questionando factos, promovendo debates e projectos, partilhando experiências pessoais, sublinhando acontecimentos históricos, educando sem nunca baixar os braços. Porque o caso do pai do Tommy é paradigmático. Já o Tommy é uma criança, ainda tem tempo para aprender todos os dias na escola.

 

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5 comentários

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    • Tiago on 13 de Setembro de 2021 at 20:01
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    A questão da emigração constituiu a principal causa do Brexit. A Gra Bretanha, Suécia e Alemanha éramos países que melhor acolhiam os refugiados e por isso há jamais refugiados com destino a estes países.
    A política europeia tem de ser comum em relação aos refugiados tendo em consideração os direitos e deveres de todos

    • BB on 13 de Setembro de 2021 at 20:48
    • Responder

    Ainda não percebi o que significa extrema direita. S6 sei que nunca se viu tanto ódio como nos dias que correm. Provcurem Jesus Cristo, pois ele é AMOR.

    • Zulmiro on 13 de Setembro de 2021 at 22:03
    • Responder

    A preocupação com os avanços da extrema-direita é legítima e saudável, só é pena que não exista a mesma determinação nacional perante os extremismos de esquerda, também eles perigosos e ativos nas escolas portuguesas.

      • SÓ eu sei... on 14 de Setembro de 2021 at 7:24
      • Responder

      Muito bem!
      Há quem afirme que a melhor defesa é o ataque.
      Voilà!!!

    • Sophie on 14 de Setembro de 2021 at 9:00
    • Responder

    Concordo com Zulmiro e Só eu sei…

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