A equação da saúde não se resolve proibindo o presunto – Santana Castilho

 

Entre 14 e 17 deste mês, todas as escolas deverão iniciar um ano lectivo que, esperamos, seja menos atribulado que os anteriores, permitindo concentração nos grandes problemas do sistema de ensino. Neste quadro, o Despacho n.º 8127/2021, que introduziu muitas restrições à venda de produtos alimentares pelos bares escolares, merece análise.
Embora assinada por um político que é linguista, a prosa do despacho é pobre e a construção frásica usada é descuidada. Por exemplo, o que serão “refrescos em pó”? Algumas proibições são questionáveis, mesmo no âmbito nutricional. Com efeito, estão no mesmo nível uma empada de carne, cozinhada no forno, ou um chocolate negro com baixo teor de açúcar, e snacks carregados de gorduras trans, sal e estabilizadores químicos. Será razoável? Por outro lado, importaria distinguir produtos cujo consumo habitual é desaconselhado mas que, sem risco de maior, podem ser consumidos uma ou outra vez, pelo prazer que lhes está associado, de outros produtos fortemente prejudiciais. Mas, acima de tudo, são a pedagogia e a política subjacentes que suscitam múltiplas perplexidades.
Nesta matéria, a proibição drástica não favorece a tomada de boas opções por parte dos alunos, particularmente quando se assume em confronto evidente com realidades paralelas, ali à mão: tudo o que é agora proibido vender na escola está autorizado e pode ser comprado em locais múltiplos, ao lado da escola. Antecipo que com estas orientações apodreçam a couve roxa ripada, as infusões de ervas e o requeijão nos bares das escolas e aumentem as vendas das bolas de Berlim e da Coca-Cola nos cafés da vizinhança. Estas medidas terão efeito nos alunos do escalão A da acção social. Os outros comprarão fora, pagando mais, o que a escola proíbe.
É crucial saber como comunicar com os jovens adolescentes para os levar a aderir a princípios, nutricionais ou outros. Em contexto pedagógico, boas intenções técnicas podem ser adulteradas por estratégias de actuação conducentes a resultados finais que se afastarão do desejado. Para perdurarem bons hábitos alimentares, o que é vital é proporcionar aos jovens um conhecimento sólido sobre a composição dos alimentos e as interacções que têm com a fisiologia humana. O grande problema não é banir na escola. O grande problema é educar na escola e na família, de modo a induzir comportamentos informados e saudáveis, que persistam vida fora e se transmitam de geração em geração. Parece-me irreal querer mudar paradigmas culturais alimentares pela proibição.
É redutor pensar que o comer mal radica na simples adesão à fast food. Muitas crianças comem mal porque em casa não há dinheiro para comer melhor ou não há mesmo dinheiro para comer, seja o que for. E dando de barato que as refeições servidas nos refeitórios escolares têm os valores nutricionais das tabelas, não é verdade que a sua qualidade deixa muito a desejar? Seria possível esperar mais de um preço médio por refeição que não chega aos dois euros e, mesmo assim, deixa apetecíveis lucros às empresas de catering? Não é verdade que os alunos que podem fogem dos refeitórios escolares? Que tal voltar às cozinheiras e à confecção das refeições na própria escola? É hipócrita o Governo decidir como decidiu e nada fazer quanto à qualidade da alimentação servida nos refeitórios.
A obesidade de crianças e jovens é um problema sério em Portugal, cujas causas não se esgotam na alimentação. À alimentação soma-se o menosprezo da Educação Física e desportos na escola e a crescente introdução precoce da parafernália informática na vida das crianças. Se houvesse uma preocupação genuína de combate à obesidade e ao sedentarismo das crianças, não as submetíamos a horários escolares que lhes roubam a juventude, obrigando-as a permanecer sentadas todo o dia dentro de uma sala de aula. E estudaríamos o modo de reorganizar a vida laboral dos pais, de forma a poderem acompanhar os filhos quanto a hábitos e comportamentos activos e saudáveis. O que temos é uma inversão de responsabilidades patrocinada pelo Estado: do mesmo passo, atribuem-se cada vez mais funções, que não lhe cabem, à Escola e desresponsabilizam-se os pais de obrigações primárias na educação dos filhos.
A equação da saúde não se resolve proibindo o presunto.

In “Público” de 1.9.21

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3 comentários

    • Anselmo Santos on 1 de Setembro de 2021 at 9:44
    • Responder

    A adesão às indicações da escola, acerca da qualidade nutricional dos alimentos fornecidos nas cantinas escolares, depende de muitos factores, entre os quais a percepção que os alunos, a partir do final do quinto ano, ou do final do segundo ciclo, têm do sistema que lhes está a aconselhar, e das pessoas que o compõem, e a mando de quem o fazem.

    “Bem prega frei Tomás, faz o que ele diz, mas não aquilo que ele faz”.

    Com tudo os que as crianças, já com 11/12 anos, veem, ouvem e sentem, na rua e em casa, acerca do que se passa à sua volta, e de quem e como nos governam, elas, tendem a desmotivar-se, e pura e simplesmente passam a “borrifar-se” para quem prega o que quer que seja!

    • Rosa Lobato on 1 de Setembro de 2021 at 13:02
    • Responder

    Este senhor de avançada idade já teve tempo para “mudar” muita coisa. E o que tem feito ao longo da sua longa vida? Nada! Crítica tudo e todos sem qualquer contributo inteligente ou eficaz. E assim deve continuar enquanto o jornal do tio Belmiro (paz à sua alma) assim deixar. E a sua longa vida ainda não é suficiente para perceber que não tem tido qualquer contributo para o “estado de sítio”? É caso para dizer, vozes de Castilho não chegam ao céu…

    • Mariano gabo on 1 de Setembro de 2021 at 13:15
    • Responder

    “Refresco em pó” Castilho, é pó aromatizado para fazer refresco! Onde andou nos anos 80 e 90 para questionar este tipo de coisas? Procure na fantástica e moderna internet. Vai dar de caras com o “refresco em pó” que ainda hoje é popular da marca TANG! Que “refresco em pó” fantástico. Já provou? Olhe que ainda tem tempo. Mas existem mais! Tal prosa antiga, desatualizada só para dizer que está “vivo”. Valhó Deus homem.

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