Os nazis do refeitório em duas rodas
Os nossos miúdos não hão de ser obesos. Podem congelar todos os invernos e assar no verão em salas de aula que deixam entrar a chuva, em escolas até hoje cobertas de amianto cancerígeno e cujos pavilhões desportivos estão fechados a cadeado há anos, redefinindo-se o desporto escolar em aulas de teoria do basquete ou regras do salto de trampolim. Podem ter de fintar ratos e baratas no recreio e ter vómitos só de pensar numa urgência que os obrigue a utilizar as casas de banho imundas, tantas vezes sem sabonete, papel higiénico ou condições de limpeza mínimas. Podem não ter material escolar porque o dinheiro dos pais, ainda mais encolhido pela crise pandémica, tem de servir para fazer face a outras contas e o Estado só garante apoio aos miseráveis letrados, aqueles que sejam capazes de preencher tanto os requisitos de pobreza extrema quanto os formulários exigidos para receber apoios. Pelo menos têm os manuais escolares de graça… desde que frequentem o ensino público, que isso do privado é coisa de capitalistas que não merecem nada. Podem até passar um ano letivo inteiro sem professores de certas disciplinas, sem meios digitais que garantam que as lições lhes são passadas se a covid voltar a impedi-los de ir para a escola e sem profissionais de apoio psicológico capazes de os ajudar a refocar-se depois de dois anos de pandemia. Mas obesos não serão!
Se aqui chegado lhe parece esta descrição exagerada, vá reler as notícias que se publicam todos os anos – mudam as escolas, os locais, mantém-se o pesadelo das crianças, bem real até em algumas das melhores do centro de Lisboa.
Mas agora tudo vai mudar. Os miúdos até podem não ter o que se exige para garantir as condições mínimas de aprendizagem, mas vão ter bares só com comida saudável e bicicletas à porta para aprender a andar sobre duas rodas. Valham-nos esses três milhões de euros da bazuca que vão direitinhos para a compra de bicicletas escolares (e mais uns trocos para pagar professores de ciclismo?). Que isso sim, é fundamental.
Num país com mar e rios, lagoas e barragens de norte a sul – e no qual todos os anos morrem largas dezenas de pessoas por afogamento -, podíamos estar a ensinar os miúdos a nadar, a remar, a navegar, a surfar. Mas isso pouco faria para justificar as ciclovias quase desertas que proliferam por aí. Se os ensinarmos, eles virão! Os jovens ciclistas de barriga cheia de água da torneira e saladas, a quem soubemos proibir o chouriço, os rissóis e os doces conventuais de que Portugal é exímio fazedor a tempo de os salvar do pior destino.
Há quem pense que estes hábitos se criam em casa, que uma alimentação equilibrada e a necessidade de exercitar corpo e mente não se impõem, antes de educam, se explicam, se adquirem sobretudo alargando o conhecimento às famílias. Que as prioridades devem ser bem pesadas na balança. Mas quem nos governa não vai em cantigas e sabe bem que tem de impor aquilo que sabe que é melhor para si e para os seus filhos do que o caro leitor. Mesmo que nos ministérios, nas direções-gerais, nas estruturas públicas em geral se mantenham os piores hábitos possíveis.
Pode haver gordos diabéticos, hipertensos e sedentários a assinar decisões, mas não restará nenhum no recreio! Nem que seja preciso proibir o uso de consolas de jogos a menores. Lá chegaremos…
A menos, claro, que em vez de comerem o que a escola lhes proporciona, as crianças levem chocolates de casa, almocem na hamburgueria ao lado, lanchem na pizaria da esquina ou passem pela pastelaria logo de manhã para comprar bolos e snacks não aprovados pelos nazis do refeitório – mas nesse caso, quem sabe alguns ainda fazem negócio a vender petiscos aos colegas e promove-se o empreendedorismo escolar.




9 comentários
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Excelente!
Texto de muito mau gosto com um travo de fel destilado em falácias de generalização e comparações sem sentido. A palavra “nazi” só pode ser brincadeira…
Que texto mais parvo! Não diz nada que se aproveite! Mistura alhos com bugalhos e faz comparações estúpidas! Criticar apenas por criticar! Para dizer isto, mais vale estar calado!
Esta petiza come muito pão com chouriço
Sou sincero, não li o texto todo, estou sem paciência (o Benfica ganhou, mas levou um banho de bola e para a semana vai ser trucidado, algo que me desagrada profundamente e me deixa assim a modos que… arreliado!!!), mas o último parágrafo acerta completamente na mouche. É óbvio que querer proibir à força os alimentos mais calóricos vai aumentar o negócio dos cafés e pastelarias que pululam que nem cogumelos ao redor das escolas.
Mas acho muito bem que se vendam alimentos mais saudáveis, não sei é se vão ter clientes. Ainda se dissessem que quem comesse tudo saudável era dispensado das aulas de Matemática, aí sim, a medida teria pleno sucesso! Há que saber motivar as crianças!!! Outro exemplo de boa motivação, agora no campo da vacinação: se tiveres o certificado de vacinação, podes ir comprar croquetes, bolos e gelados ao bar da sala dos profs 🙂
vai aqui uma salada russa
E a base do problema não passa pelo negócio das cantinas? As eurests ou nomes parecidos que ganham sistematicamente o concurso fazem todos os dias a comida que o contrato assinado implica? Ou a ânsia de lucro é que os move? Alguém consegue chamar sopa àquilo que normalmente eles servem? E os pratos de espinha de peixe? Com maá qualidade da alimentação servida como podem as crianças alimentar-se corretamente. Atenção não estou a falar de cor pois passei por inúmeras escolas e a comida é má de mais. A título de exemplo normalmente quantos professores ou assistentes comem na cantina? Se fosse bom e saudável íamos lá todos. Assim quem vai ganhar é o pingo doce ou Intermarché e a Matutano.
Medida teoricamente boa que na prática é propaganda pois muito do agora aprovado já estava em regulamentação.
Eu sempre comi um chocolatinho na escola, uma bola de berlim com uma boca grande a sorrir para mim e não é por isso que sou obessa. Há que comer com moderação e para isso cabe aos pais não dar demasiado dinheiro aos filhos para comprar tudo o que querem. A minha mãe dáva-me o suficiente para a senha do almoço e para comprar um docinho, só! Não acho mal nenhum haver no bufett da escola doces e comida menos saudável. A educação alimentar, tal como toda vem de casa! Se não há na escola, os miúdos vão comprar nos cafés que existem mesmo na esquina da escola. Quem vai lucrar são os cafés, os MacDonald e tal, tal…
Podem chamar-me de tola, de gulosa, que eu não me importo, acho que isto está tudo parvo!
Tanta coisa, tanta proibição, não se pode comer isto, não se pode comer aquilo…. Já pensaram que as alfaces estão cheias de químicos? Mesmo as que dizem biológicas? São biológicas mas têm carradas de produtos para puderem sobreviverem das lesmas, dos caracois…
Ora nem mais. já lá vai o tempo em que as cantinas serviam comida feita lá, diariamente e com muita qualidade. Tenho o exemplo de duas escolas por onde passei, onde tudo era confecionado lá e todos os professores e funcionários almoçavam com muito gosto, diariamente, e todos os alunos referiam a cantina como sendo de excelência! Quando mudaram para as empresas, a qualidade passou a deixar muito a desejar! O barato sai caro, é o que é! Na minha escola, os alunos com permissão para sair, vão almoçar numa roulotte de cachorros que está na esquina. E na minha escola anterior, iam ao café da frente comer bifanas.
E como se sabe, o fruto proibido, será sempre o mais apetecido.